Natal molhado

Natal molhado

Desta vez, dificilmente escaparei. Pelo que vejo, a convicção do pessoal atingiu níveis irreversíveis. Sempre que a ideia era ventilada nos almoços em família, recebia adesão animada de filhos e noras. Com o tempo, ela foi ganhando corpo, mas o malandro velho aqui conseguia sair de fininho, prometendo que no próximo ano iria considerar a possibilidade e, quem sabe, aceitar a incumbência. Pois é, acho que desta vez não haverá acordo nem escapatória. Posso apostar que já foram comprar a fantasia vermelha, enfrentando a chuva que cai, sem trégua, há mais de semana.

Confesso que no começo vi as primeiras tempestades com satisfação. É que por muitas e muitas vezes acompanhei a armação do tempo, mas a chuva não vinha. Pescador inveterado, vi fracassarem quase todas as previsões que eu fiz com base na aparência das nuvens que estacionaram por aqui, vindas das bandas do nordeste e no bojo das frentes frias formadas na Antártida. Muito embora nuvens animadoras cobrissem o céu, foi com água cara de torneira que Carol regou as plantas do jardim nesses últimos meses, quando os caramujos estiveram sumidos, hibernando sob a terra seca. Agora, depois que a chuva começou, parece que ela não vai mais parar. Pelo que sei, já não existe canto seco, livre das águas. Os jornais e a TV mostram estragos espalhados por todo lado. Tanto que conseguiram convencer Dilma a sobrevoar a tragédia capixaba e aproveitar para tirar fotos de campanha.

As previsões oficiais indicam que as chuvas devem continuar intensas por mais uns bons dias, o que é alarmante. Desesperador, para muitos. Para os que estão dentro de casa sólida, construída em lugar adequado, é quase impossível dimensionar as emoções de quem esteja submetido à força das águas. Isso, por mais que as imagens e os relatos sejam fieis aos fatos, por mais que os jornalistas e fotógrafos tentem mostrar o sofrimento e o incômodo das pessoas.

Lembro-me do pânico provocado por um jato d’água que saia pelo ponto de luz do quarto das meninas durante um temporal em 2008. A calha entupiu e a água buscou o caminho mais fácil para descer. Uma sensação de insegurança coletiva se instalou, mesmo sabendo que, no máximo, encharcaria o assoalho. Passado o medo e como não havia balde que pudesse dar conta, improvisamos um sistema para recolher a água e canalizá-la até a janela, que funcionou perfeitamente bem. Dominada a situação, tiramos fotos da equipe ao lado da escadinha usada para sustentar o tubo de PVC que recebia o bico de funil feito com saco de lixo, pendurado no ventilador. As imagens fazem rir e garantem a posteridade do acontecimento. Mas quem olhar aquelas fotos nada saberá sobre o pavor e a correria que aconteceu naquele dia, por tão pouco.

Desta vez, a água achou melhor descer pelo ponto de luz localizado em cima da cama do casal. Ela começou sorrateira, em pingos esparsos, nada que uma bacia não conseguisse resolver. Mas tivemos que passar a dormir em outro canto, pois, quando vimos, o colchão já estava ensopado. Com a continuação da chuva, a goteira evoluiu em extensão e volume. Agora, ela pinga intensamente ao longo de todo o trajeto do duto, que vai da parede até o bocal da lâmpada. Mas é coisa irrelevante, que nem vai sair na foto.

Fotos, muitas fotos mesmo, quem vai merecer é um Papai Noel meio ridículo tentando enrolar os netos Manu, Theo e Alice na noite deste Natal. Quando crescerem, Gael e Gabriel por certo vão poder ver a animação da festa, mas nada poderão saber sobre a chuva que batia forte na vidraça da sala.

Vitória, 24 de dezembro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Varal retrátil

Varal retrátil

Preferi trabalhar cedo, enquanto estivesse fresco. Nuvens carregadas e a total falta de vento anunciavam calor de mormaço na manhã de domingo e o serviço que tinha pela frente exigiria esforço físico: atender uma demanda antiga da dona da casa, reafirmada sempre que a quantidade de roupa suja se acumulava. O varal que havia no fundo do quintal dera lugar à horta suspensa e os varais da área de serviço só dão conta da roupa de casa de poucos filhos. Jamais da casa lotada, como acontece nos períodos de férias que estão pra chegar, o que fez a pressão por providências subir para níveis críticos.

Tem tempo que procurava uma solução que atendesse requisitos e exigências de estética, funcionalidade e robustez. Sim, um varal que vai ficar na lateral da casa, além de ser capaz de sustentar o peso da roupa molhada, há de ser discreto. O ideal é que, quando vazio, ele pudesse ser desarmado e encostado na parede, sem representar perigo para menino correndo. Quando necessário, ele seria armado na posição horizontal. Além disso, ele precisaria ser comprido, para receber colchas e lençóis abertos. E é justamente aqui que aparecem as exigências de robustez: o varal deveria ser firme e forte o suficiente para suportar peso relevante.

Como se vê, uma espécie de quebra-cabeça para um engenheiro experiente equacionar com bom senso apurado, criatividade interativa, alguma competência técnica, e, sobretudo, valendo-se das ferramentas e dos infindáveis recursos materiais que guarda em armário repleto, desses de fazer inveja a qualquer MacGyver da TV. Ali, aplicando a máxima quem procura, acha, encontro praticamente tudo o que se fizer necessário para montar geringonças diversas, inclusive varais de todos os tipos e tamanhos.

Uma parte importante do problema de engenharia foi resolvida na venda de um conhecido, a que recorro sempre que preciso do que não existe nas lojas modernas. Como cera de carnaúba para cadeira de balanço. Desta vez, em atitude de desafio, pedimos uma armação de varal que fosse retrátil. A vendedora, mais do que experiente, voltou lá dos fundos com um par de armadores, desses que são usados nas mesas presas na parede, armadas quando necessário. Bem que poderia servir. Prudente, pedi uma barra de alumínio de três metros em formato de L para dar sustentação ao conjunto, que teria cabos de aços revestidos para receber a roupa. Escolhi presilhas, parafusos grandes e respectivas buchas para fixação. Aproveitei para comprar meio quilo de pregos variados a preço de banana, evitando ter que comprá-los em caixinhas de plástico, a preço de ouro. Isso foi no sábado, pela manhã.

No domingo, ainda na cama, passei em revista as providências para finalizar o projeto completo, fazer os testes funcionais e executar o serviço de preparação das partes. Comecei por serrar dois pedaços de caibro de uns vinte centímetros, onde seriam fixados os armadores, e fiz os furos para os parafusos que os prenderiam na parede. Em seguida lixei a madeira e arredondei as quinas. Por precaução, achei melhor reforçar a haste de sustentação dos armadores, que me pareceram frágeis frente às suas responsabilidades estruturais. Furei as pontas da vara de alumínio, separei os parafusos e porcas que iriam fixá-la e, todo satisfeito, dei por finalizada essa etapa do serviço. De banho tomado e com total disposição, fui comer os caranguejos graúdos que meu cunhado Neném prepara como ninguém. A felicidade dominical só não foi maior porque eu sou torcedor convicto do Fluminense e ele é vascaíno doente.

Vitória, 10 de dezembro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Quarenta anos depois

Quarenta anos depois

Quando cursava o último semestre do curso de engenharia mecânica decidi participar de um programa de capacitação de professores que Máximo Borgo, então diretor da antiga Escola Politécnica da Ufes, havia criado para tentar enfrentar a falta de pessoal qualificado na cidade. Vitória era terra de vida mansa e de pouquíssimos recursos técnicos. Escolhi fazer o mestrado no Rio de Janeiro, lugar de referência e usual destino dos capixabas na época.

Encontrei o Rio debaixo de grande efervescência, muita mesmo: a onda crescente dos que viviam de paz e amor contrastava com a insegurança total, gerada pela repressão política. Em cartaz, a peça Hair, trazida de Nova York, mostrava a nudez como arma de resistência. No Teatro Tereza Rachel, Zé Celso Martinez instigava a rebeldia com sua longa peça Gracias, Señor que, de tão interativa que era com a plateia, me fez entrar em cena no dia da estreia. Os Novos Baianos faziam muita gente sambar nos pilotis da PUC, na Gávea, e Caetano, de regresso ao Brasil, emocionou um teatro inteiro cantando London, London.

Na zona portuária, em construção e atrapalhando o trânsito, o viaduto que acaba de ser implodido pelo progresso atual, dava esperança de fluxo livre pra quem, como eu, tinha que ir, diariamente, de ônibus ou de carona, até a Ilha do Fundão. No começo, para assistir as aulas do mestrado e, no ano seguinte, para ensinar o pouco que sabia para a primeira turma do curso de engenharia de produção, o segundo que se implantava no país. Hoje já são mais quinhentos. Foi uma das experiências profissionais mais marcantes que tive na vida.

Um trabalho intenso, criativo e empolgante, realizado junto com Oswaldo Sevá e Ricardo Seidl, dois colegas da pós-graduação, na condição de monitores de um atento e silencioso professor descendente de japoneses, que conheci na cantina xexelenta que funcionava no Bloco H. Operante e inovador, Itiro Iida tinha vindo de São Paulo trazendo um método de ensino de alta performance, baseado em entrevistas individuais sobre conteúdos previamente indicados. Tendo sido aprovado na entrevista, o aluno passava a atuar como entrevistador de colegas, o que o ajudava a consolidar seus conhecimentos sobre a matéria. O rendimento médio da turma era animador.

Mas a novidade exigia grande esforço para sua efetivação, incluindo a preparação do material de apoio e a organização das atividades em sala de aula. Isso, sem falar na elaboração de apostilas para suprir a crônica falta de livros técnicos. Tenho na lembrança meses de muito trabalho e fortes emoções, que me fizeram deixar meio de lado a redação da dissertação de mestrado. Nas fotografias tiradas na sala de aula não é possível distinguir alunos de professores. A diferença de idade era mínima e as figuras humanas bem parecidas. Meus cabelos já eram compridos e a barba ainda era escura.

As fotos que recebi ao longo deste ano mostram uns vinte engenheiros de produção já maduros, em momentos de confraternização, com expressões que atestam amizade e satisfação por estarem juntos até hoje. Elas vieram acompanhadas do convite para o jantar de encerramento das comemorações dos quarenta anos de formatura, sempre renovado em simpáticas mensagens dos organizadores.

Movido por boas lembranças e muita curiosidade, fui fazendo uma colher pequena para cada um daqueles sorridentes ex-alunos que vou reencontrar depois de tanto tempo, dentre os quais estão amigos fraternos e colegas de trabalho. Achei por bem usar um mesmo pedaço de bambu amarelo que eu trouxe de muito longe.

Vitória, 26 de novembro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tema de crônica

Tema de crônica

O tema desta crônica me foi sugerido por uma estudante de uns quinze anos, de olhinhos azuis, próprios da gente pomerana que habita a região noroeste do Estado. Azuis de origem, brilhantes pelas emoções e apertadinhos pelo sorriso franco estampado no rosto. Estava radiante com o que acabara de vivenciar naquele galpão aberto, ao lado de uns quatrocentos colegas do turno da tarde.

Por volta de setembro recebi convite para falar sobre Rubem Braga para alunos de um colégio estadual em Nova Venécia, como parte de um projeto para incentivar o hábito da leitura. Se a mensagem escrita já era precisa, ao telefone as palavras da pedagoga demonstraram convicção. A curiosidade me fez dirigir por quase trezentos quilômetros sob chuva pesada, pensando no que iria encontrar. Na sala dos professores ficamos sabendo que todos os alunos da escola estavam às voltas com as coisas do cronista desde o começo do ano. E mais, que na semana seguinte haveria uma grande gincana com apresentações de paródias musicais, esquetes de teatro, coreografias e até questões sobre a minha falação. Como sobrinho do homem, relembrei histórias sobre sua personalidade marcante, seu temperamento arredio e algumas de suas manias. Nunca tive plateia tão atenta.

Não tenho experiência no trato com adolescentes. Não frequento pátios e salas desde os tempos do Colégio Salesiano, no começo dos anos sessenta. Lembro-me que os padres e seminaristas tentavam impor um ambiente de seriedade e disciplina, o que os bagunceiros, dentre os quais Afonso Paçoca, Ronaldo Gereréu, Arimatéia, Flávio Marta Rocha, Chico Virilha, Barrica e Erivelton, tratavam de subverter. Além de aulas aos sábados, tínhamos que frequentar a missa de domingo e fazer fila para carimbar ”compareceu” na caderneta. Há quem conte com ares de vitória que o pessoal arranjou um carimbo desses e, por algumas semanas, conseguiu fazer o serviço paralelo de carimbação.

Voltando à vaca fria, digo que, homem experiente que sou, fui levando minha mulher Carol, como fiel escudeira. Conhecedora da obra do Velho Braga, ela poderia ajudar bastante, inclusive fazendo leitura dramática de crônicas selecionadas para adolescentes. Santa providência: a garotada se acabou de rir durante a “Aula de inglês”, ouviu em silêncio “Matar”, escrita aos quinze anos, e acompanhou atentíssima o discurso de paraninfo para uma turma de normalistas em Cachoeiro que, dizem, foi lido por um amigo de infância porque o homenageado, rouco, declarou-se impossibilitado de ler o que escrevera. Imagino que por pura timidez e total aversão a homenagens.

Entusiasmada com a reação favorável da plateia, Carol tomou coragem e resolveu cantar o samba enredo da Unidos de Jucutuquara do carnaval passado, uma homenagem ao centenário de nascimento de Rubem Braga. Ela já havia cantado centenas de vezes aqueles versos durante os ensaios na quadra da escola e no desfile na avenida, sempre na condição de uma compenetrada ritmista da bateria. Ali, de microfone em punho mas sem a voz do puxador de samba e a ajuda de qualquer instrumento de marcação, ela tratou de explicar passagens da letra e ensinar o refrão em busca de adesões. Foi só começar a cantar que a garotada caiu no samba com entusiasmo e de alma leve, marcando o ritmo com palmas fortes. Como num passe de mágica, uma alegria enorme tomou conta do lugar. Por alguns minutos, instalou-se ali uma animadíssima festa de confraternização pelas boas coisas da vida, a ponto de alguém tomar coragem para sugerir que ficasse registrada em crônica.

Vitória, 13 de novembro de 2013.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Amigos e museus

Amigos e museus

Na semana passada estive duas vezes ao Museu Vale. A primeira para a festa de comemoração de quinze anos de sua existência e a segunda para uma belíssima exposição de pinturas e desenhos. Na volta pra casa, um velho amigo meu, desses bem viajados e exigentes, declarou em alto e bom som o seu orgulho e a sua satisfação em saber que existe na sua terra um lugar como aquele. Falante, ele estava surpreso com o que vira naquela manhã. Uma instituição com propósitos firmes e bem orientados, instalações muito bem cuidadas e uma mostra deslumbrante de uma artista capixaba. Com emoções soltas por duas ou três taças de prosseco, ele estava feliz e emocionado.

Bem sei, porque acompanho desde o começo, que tudo aquilo surgiu da ideia de se aproveitar a antiga Estação Pedro Nolasco, então abandonada, para instalar um Museu Ferroviário onde pudesse estar um pouco da saga e da história da Estrada de Ferro Vitória a Minas. Criada no comecinho do século passado, ela ajudou a desenvolver a região ao longo do Rio Doce e, mais tarde, viabilizou o transporte do minério de ferro mineiro até o litoral.

Lá estão equipamentos, ferramentas e utensílios utilizados na construção e operação da ferrovia, fotografias antigas, inclusive uma em que operários estão ao lado de índios botocudos atarracados com cara de poucos amigos. Em um salão, homens habilidosos construíram uma grande maquete com representação das minas, da ferrovia com pontes, estações e trenzinhos que apitam, de pilhas de minério, usinas de pelotização, porto e tudo o mais que encanta crianças e marmanjos de boa idade. Ao lado do prédio da estação estão uma possante Maria Fumaça e um vagão antigo com bancos de madeira, de cujas janelas se pode contemplar o mundo com olhar de passageiro.

Pois bem, a coisa poderia ter parado por aí e já estaria de bom tamanho: um lugar agradável para passear nos fins de semana. Não só não parou, como demonstrou que, havendo gente com propósito firme e poder de agregação, muito pode ser feito, mesmo em ambientes adversos. Ao longo dos anos o lugar foi sendo transformado em um museu de arte contemporânea,hoje reconhecido dentro  e fora do país, que oferece um programa de arte-educação para milhares de alunos de escolas públicas, seminários de filosofia para audiências inimagináveis e exposições de artistas de renome. A mostra Seu Sami, do artista capixaba Hilal Sami Hilal, por exemplo, foi algo extremamente impactante e definitivo.

Agora é Regina Chulam quem mostra desenhos e pinturas. Depois de décadas em Lisboa, Regina passou a viver em Aracê, na região de Pedra Azul, de onde extraiu temas desse trabalho. As cabras, desenhadas em papel pequeno, são sensacionais, os agaves são fortes e coloridos e as paisagens de montanhas exuberantes. Os retratos que pintou de seu irmão e de amigos são precisos: basta um par de olhos para identificar a pessoa sentada na cadeira de braço. O galpão com paredes escuras e telas bem iluminadas é lugar para se ficar andando de um lado para outro, apreciando o que foi feito com tintas e pincéis, pensando na própria vida.

Depois de comentários positivos sobre a atuação do MAES, a conversa resvalou para a novela Cais das Artes. Já passa da hora de se conhecer em detalhe os conceitos e princípios que nortearão o seu funcionamento. Com arquitetura grandiosa e arrojada ele haverá de exercer, obrigatoriamente e em bases generosas, a nobre função de abrir mentes e corações em escala proporcional aos custos de suas instalações. Para termos motivos para comemorar.

Vitória, 29 de outubro de 2013.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Origem

Origem

Escrevo esta crônica na cidade do Porto, de um computador de hotel, desses que se paga por hora para usar a internet. Faz muito que eu queria conhecer Portugal, mas sempre passei por cima dele a caminho de outros lugares, exatamente como fiz desta vez, na ida para Frankfurt. Até pensei em aproveitar para conhecer os países nórdicos, mas resolvi pousar em Lisboa na volta.

É que além das comidas saborosas, das belezas naturais e do que foi edificado pelos mouros e depois pelos portugueses com a riqueza saída das colônias espalhadas pelo mundo, Portugal é a terra de onde saíram meus antepassados.

O Braga que carrego no meu nome completo não é coisa de família. É coisa de imigrante português identificando a sua origem: o lugar de onde partiu em busca de dias melhores nas terras brasileiras. Dentre muitos outros, um senhor de sobrenome Carvalho, que veio de Braga. Pelo que sei, a geração de meu avô é a que ganhou esse sobrenome em cartório.

É uma ótima sensação estar por aqui. Parece que estamos em casa. Os portugueses estão muito simpáticos e amistosos. Gostam da gente do Brasil. Acho mesmo que sentem uma espécie de orgulho em ter ajudado a nos fazer existir tão alegres e coloridos. Muitos dos que conhecemos pelas ruas, lojas e restaurantes têm alguma história sobre pessoas, cidades, sabores, artistas nossos. Uns deixam transparecer certa dose de inveja por ainda não terem tido oportunidade ou condições para ir conhecer nossas praias e os parentes que se criaram e vivem em terras brasileiras.

Visitamos castelos, andamos pelas ruas apertadinhas. Comemos bacalhau diariamente, cada qual melhor que o outro. Comprei muitas faquinhas portuguesas, dessas bem tradicionais que pegam fio rapidamente, mas custam a cegar. Levo algumas tantas para dar de presente para quem goste de facas como eu. Pretendo adaptar as menores para o uso no bambu.

Confesso-me encantado com as calçadas das cidades portuguesas. Largas ou estreitas, são bonitas e perfeitamente planas, próprias ao caminhar apressado ou a passeio. Pude acompanhar o serviço de calceteiros assentando cuidadosamente pequenos cubos de pedra. Hoje cedo, acordei com o barulho do motor do jato d’água que estava sendo usado para lavar a calçada do outro lado da rua.

Em carro alugado fomos até Sintra para devolver 140 euros a uma contraparente. Voltamos pela estradinha perto do mar. Cascais e Estoril são um estouro, como se dizia. Por autopista larga, totalmente vazia e entediante, chegamos a Estremóz, já perto da fronteira com a Espanha, onde comemos o melhor bacalhau desta vida.

Perto de Évora visitamos um sítio com muitos menires. Coisa de seis mil anos atrás. Emociona pela simplicidade e pelo que expressa do homem antigo. Fotografei os musgos coloridos que se instalaram em todos eles. São cores suaves, como os que fotografei lá nos arredores de Manaus. Pertinho dali, já quase no escuro, visitamos a Anta Grande do Zambujeiro, onde os muito antigos enterravam os seus queridos.

Na volta aos tempos de hoje, conheci o trabalho de um colega de ofício. Um antigo pastor de ovelhas que faz colheres de madeira com cabos trabalhados. Elas estão pregadas nas paredes de um pequeno cômodo, ao lado de ferramentas, varas de pescar, cestos de cebola e muito mais. O filho dele, oleiro de profissão, pensa em criar um pequeno museu em Brotas só para elas.

Ficou mais do que provado que o tal GPS pode funcionar perfeitamente, mas a total falta de prática em usá-lo ao lado da minha insistência em desafiá-lo quase que acaba com um casamento de mais de quarenta anos.

Porto, 16 de outubro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Cachoeiro na cabeça

Cachoeiro na cabeça

Torcedor do Fluminense desde menino taludo, não acompanho futebol de perto. Recebo, com algum fairplay, as gozações de flamenguistas e vascaínos por eventuais derrotas fragorosas, rebaixamentos merecidos, expulsões justificadas e tudo o mais. Em reciprocidade e sem ofender demasiadamente os torcedores de clubes adversários, dou o troco quando perdem jogo para um timinho qualquer ou ganham com um gol de pênalti inexistente, marcado aos quarenta e seis minutos do segundo tempo.

Convém que se saiba que foi por pura força do exemplo paterno que adotei o Cachoeiro Futebol Clube como o meu primeiro time, o de origem. Só mais tarde é que fui escolher o tricolor carioca pelo qual haveria de torcer pelo resto da vida. Naquele tempo o Rio de Janeiro era a capital do país e do futebol. Dos times paulistas, só tenho lembrança do Santos, onde Pelé formava um ataque sensacional, tendo o apoio de Zito no meio de campo. As vitórias do Palmeiras e do Corinthians não entusiasmavam ninguém. Dos clubes de Minas, da Bahia e, porque não dizer, do resto do Brasil, não me lembro nem de ouvir falar, quando era pequeno. Isso, talvez, porque as transmissões dos jogos mais esperados nos chegavam pelas ondas curtas das rádios Tupy e Nacional, ambas cariocas, narradas por Waldir Amaral e Oduvaldo Cozzi.

O estádio do Cachoeiro fica lá na Baiminas, bairro situado rio abaixo da nossa casa, logo depois do matadouro. Era pra lá que papai levava, a contragosto de mamãe, os seus três filhos ainda bem pequenos em dia de jogo importante. Tenho guardada uma foto tirada no centro do campo com ele fazendo discurso para autoridades, torcedores ilustres e jogadores daquele valioso escrete de uniforme listrado de vermelho e branco. Nela, Cláudio, Afonso e eu aparecemos ao lado dele, vestindo calça curta com suspensório. É imagem suficiente para manter viva a chama de torcedor que ainda carrego no lado direito do peito. Soube que teria sido publicado um livro sobre a história e as glórias do Cachoeiro. Imagino que nele possam estar registrado um pouco do que papai andou fazendo pelo seu clube. Afonso conta que, na falta de dinheiro para os salários, ele tratava de arranjar emprego para os jogadores.

Tio Newton jogou muito tempo como beque do Estrela do Norte e posso imaginar as gozações finíssimas que fazia com o cunhado sempre que ganhava do Cachoeiro. Dizem que ele era um beque raçudo, desses que dão caneladas a torto e a direito. O campo do Estrela fica ali por cima do antigo mercado e lá assisti Garrincha e Nilton Santos jogando, em partida memorável contra um combinado local.

Escrevo esta crônica movido pela satisfação em saber que o glorioso Cachoeiro está firme e forte, chegando nas finais do campeonato capixaba de futebol deste ano. Fundado há quase cem anos, ele foi campeão estadual uma única vez, em 1948, quando eu tinha meses de idade. Se tivesse vencido outras vezes, mamãe teria me comunicado imediatamente. Ela não era mulher de deixar passar em branco fato de tamanha envergadura. Nestes tempos de decisão, fiquei imaginando Dr. Bolivar, ao lado da sua Gracinha, metido em uma camisa estampada e calção de pescador, fumando um cigarro após o outro e com um copo de uísque na mão, torcendo nervosamente para seu querido Cachoeiro ganhar, de virada, a disputa pelo campeonato capixaba de 2013. Mas ainda não foi desta vez. Como a partida decisiva aconteceu lá no noroeste do estado, consola saber que os torcedores do time vitorioso não passariam lá por nossa casa gritando simpáticos desaforos pra papai.

Vitória, 01 de outubro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Império da lei

Império da lei

Matei serviço na semana passada só para acompanhar as sessões do Supremo Tribunal Federal em torno da existência dos chamados embargos infringentes. Achei que o assunto merecia mais atenção do que os que enfrentaria lá na empresa. Mesmo porque a internet garante presença virtual e acesso direto a quase tudo que esteja sendo tratado em outro lugar. A distância entre os computadores não afeta as comunicações entre colegas e entre chefes e subordinados.

Estive atento ao julgamento do processo do mensalão desde o seu início. Uma enfermidade barata me obrigou a ficar de molho diante da TV logo no seu começo. Fui tomando gosto, formando opinião sobre ministros e entendendo o jogo de forças materializado em atitudes e votos. Senti satisfação em ver condenados homens poderosos e políticos corruptos. Nas últimas semanas acompanhei de longe a apreciação dos chamados embargos declaratórios, que resultou na correção de algumas poucas penas, garantindo coerência às dezenas de punições aplicadas.

A minha curiosidade em acompanhar os trabalhos do STF redobrou agora, com a definição da aplicabilidade dos chamados embargos infringentes na revisão de resultados do julgamento, já devidamente registrados em acórdão próprio. Isto sobretudo pela presença de dois ministros indicados recentemente pela Presidente da República os quais, nas contas de muita gente, viriam somar fileiras com os que votaram sistematicamente em favor de alguns dos acusados. Eles agiram conforme o esperado e a ministra elegante gaguejou seu voto na mesma direção. Confesso que cheguei a desanimar ao fazer as contas. Na quinta, votaram no mesmo diapasão o ministro revisor e seu fiel escudeiro, elevando a diferença no placar para níveis alarmantes.

Se nas sessões anteriores ouvi com muita simpatia as teses do ministro carioca e da ministra de olhos esbugalhados, desta vez cheguei a bater palmas para argumentações que os dois adotaram contra a reabertura do julgamento. Ambos defenderam teses baseadas no bom senso e na direção do razoável, o que renovou meu ânimo em seguir torcendo diante da TV. Não assisti o voto do ministro que mexe na aliança de casamento o tempo inteiro, mas soube que foi contundente, equilibrando o placar. A direção do voto do juiz flamenguista de fala rebuscada já era esperada, mas exagerou ao chamar de novato um dos ministros recém-chegados. Ele lembrou que o país inteiro estava de olho no STF e que mais protelações do desfecho desse processo seriam danosas.

O encerramento da sessão abriu a contagem regressiva para a reabertura dos trabalhos no dia 18 de setembro, que entra para a história com o voto do ministro decano da Corte batendo o martelo em favor da existência e aplicabilidade dos embargos infringentes. Sem margem para surpresas, bem fundamentado e sem qualquer contestação de seus pares, ele defendeu o império da lei, a independência dos tribunais de justiça e as garantias ao cidadão contra eventuais truculências praticadas pelo Estado. Diga-se, a seu favor, que ele o fez com a mesma firmeza e convicção com que votara pela condenação dos políticos e homens de negócios que praticaram, em quadrilha e de forma deslavada, graves crimes contra o erário público e a ordem política. Sem falar na traição da confiança de eleitores.

Obrigado a aceitar os fatos, lembrei-me do que aprendi há muitos anos com um grande amigo: muitas leis e regulamentos surgiram por inspiração humanitária e democrática, porém os que mais deles se valem são os advogados dos bandidos e dos poderosos.

Vitória, 19 de setembro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Para! Para! Para!!!

Para! Para! Para!!!

A se confirmar o que está sendo tramado nas esferas federais, os usuários do trecho da BR 262 no Espírito Santo pagarão pedágio para andar em estrada precária até quando Deus quiser. É que o modelo de negócio da concessão prevê que as obras aqui no Estado ficarão por conta do Governo Federal. O edital estabelece que o pedágio deverá ser regiamente pago pelos usuários, independentemente de a duplicação ter sido realizada ou não. Pior, que o dinheiro arrecadado aqui será utilizado na duplicação do trecho da rodovia em Minas Gerais. Coisa para otário.

Certamente o edital do leilão não explicita quem deverá pagar o pato, caso a duplicação da BR 262 se transforme, como é de se esperar, em mais um aeroporto das Goiabeiras, em mais uma rodovia do Contorno. Eu mesmo gostaria de saber quem seria demitido e preso, caso o Governo Federal não consiga duplicar os 180 km em solo capixaba no prazo de cinco anos, como estão prometendo. É que já não acredito em promessas feitas por homens e mulheres de governo agindo orientados por interesses eleitoreiros. Todos sabemos que Minas Gerais tem um colégio eleitoral bem maior do que o do Espírito Santo e é terra de candidato de oposição à presidência da república. É preciso agradar a mineirada, no melhor estilo do é dando que se recebe. É bem provável que o pessoal comece imediatamente a capina do terreno para as fotos do marketing político.

Confesso-me pasmo com a cara de pau do pessoal do Governo Federal, aí incluídos presidentes de agência, diretores de autarquia e ministros de estado, envolvidos nessa espécie de areia movediça que sustenta os processos de concessão e de privatização. Neste, ganha destaque uma ministra impositiva, com cara de boneca enfezada, que se negou a aceitar ponderações e demandas do Governador e da nossa bancada federal, argumentando que ninguém reclamou das condições propostas no momento oportuno. O presidente do CREA-ES discorda dela e afirmou, por escrito, que foram denunciadas incorreções e inadequações do modelo de negócio durante audiência pública e que elas que não foram consideradas.

O leilão está marcado para o dia 18 de setembro. Caso seja realizado, estarão sendo criados direitos líquidos e certos para as empresas vencedoras, compromissos financeiros colossais para o poder público e prejuízos irrecuperáveis para a população. Basta lembrar da notícia ameaçadora de que uma eventual rescisão do contrato de concessão da Terceira Ponte implicaria em multa de mais de 500 milhões de reais.

Leigo na matéria jurídica, mas com o bom senso apurado pelos muitos anos vividos, acho que o assunto merece atitude prática e eficiente por parte dos capixabas: entrar com uma ação na justiça para suspender a realização do leilão da concessão da BR 262. Uma ação popular movida por alguma entidade independente ou pelo próprio governo do Estado. Só assim será possível discutir melhor o assunto em busca de soluções aceitáveis, que substituam as que estão sendo postas, ou melhor, impostas. Aprendi que apressado come cru e queima a boca. Em se tratando de obra de tamanha envergadura, não se pode pretender agir afoitamente. Mesmo porque, autoridade federal falando em pressa e urgência é de fazer elefante balançar de tanto rir.

Em situações como esta não cabem meias palavras, cortesias nem cerimônias: resta sustar a realização do leilão, mediante ato jurídico perfeito e ação política corajosa, tal qual a que permitiu ao STF suspender a sessão da Câmara que livrou o deputado ladrão da cassação do seu mandato.

Vitória, 03 de setembro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Parquímetros e cancelas

Parquímetros e cancelas

Sexta passada atravessei a ponte para ir a uma consulta em Vila Velha. Com o tráfego fluindo bem, consegui chegar na hora. Escolhi uma vaga bem diante do prédio, ao lado do parquímetro do estacionamento rotativo. Depois de revirar a bolsa e procurar no carro juntei um real e vinte centavos em moedas. Precisava de dois. Atravessei a rua e fui pedir ao dono do bar que trocasse uma nota de cinco reais, mas ele disse que eu era o primeiro freguês do dia. Como a máquina não aceitava pagamento em notas nem cartão, para não me atrasar resolvi arriscar e pagar só meia hora.

Enquanto esperava minha vez, comentei o fato com a fiscal da prefeitura que fazia a inspeção da clínica para a revalidação do seu alvará de funcionamento. Para minha surpresa, a mulher disse que rasgava todos os autos de advertência que lhe apresentassem. E mais, que a prefeitura não tinha órgão competente para cobrar multa de quem não pagasse o estacionamento. Achei aquilo razoável e fiquei mais tranquilo, embora torcendo para que ninguém aparecesse para conferir o tíquete que deixara no console do carro.

Mas não deu outra. Lá estava, preso pelo limpador do parabrisas, um auto de cobrança complementar de quase dez vezes o valor que eu deixara de pagar por falta de moedas. Fui conversar com a funcionária da empresa do outro lado da rua que se apresentou como supervisora, em inspeção rotineira. Muito atenciosa, vestia uniforme no estilo polícia militar, com bate-bute e tudo. Bem treinada, ouviu minhas ponderações sobre a falta de troco. Sobre a inexistência de um tempo de tolerância, ela disse que todo mundo vem reclamando disso e que alguns vereadores querem aprovar um período de quinze minutos. Ao perguntar o que aconteceria se eu não quitasse aquela cobrança adicional, ela falou, meio sem graça, que a papeleta seria enviada para a prefeitura, que a repassaria ao Detran, que cobraria multa de uns cinquenta reais e lançaria uns três pontos na minha carteira. Uma arapuca moderna, pensei eu.

Acuado, só me restava pagar. Como ela não tinha troco, localizou pelo walktalk a fiscal da área, que ajudava uma senhora de idade no parquímetro da outra quadra, e fomos até lá. Curioso, eu quis saber se era verdade que apenas sete por cento do dinheiro arrecadado ficava com a prefeitura, como eu tinha ouvido falar. Constrangida, com os olhos fixos no chão, a fiscal não me respondeu. Com a chegada de um homem esbaforido querendo usar o parquímetro a calçada lotou. Simpático, tratei de comentar com ele o acontecido e reclamar dos tais percentuais usados na partilha das receitas, lembrando que a rua é um bem do município. Para minha surpresa, o rapaz foi dizendo que não era bem assim e coisa e tal. Diante de tamanha convicção, tive ímpetos de perguntar se ele era vereador. Fecha o pano.

No começo da semana, eu havia participado de audiência pública com o Prefeito de Vitória, onde se debateu a implantação de um projeto piloto de estacionamento pago na Praia do Canto que, se aprovado, seria levado para outros bairros da capital. Como os contratos devem ser honrados, fiquei pensando com os meus botões que a experiência de Vila Velha e a peleja em torno do pedágio da Terceira Ponte recomendam total rigor, transparência e adequação na definição dos termos de todos os processos de concessão, a começar por prazos de validade curtos e preços inversamente proporcionais à quantidade de usuários. Pelo que sei, isso não foi adotado no caso da BR 262, deixando autoridades de cabelos em pé e eu com minhas barbas brancas de molho.

Vitória, 20 de Agosto de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA