Cachoeiro na cabeça
Torcedor do Fluminense desde menino taludo, não acompanho futebol de perto. Recebo, com algum fairplay, as gozações de flamenguistas e vascaínos por eventuais derrotas fragorosas, rebaixamentos merecidos, expulsões justificadas e tudo o mais. Em reciprocidade e sem ofender demasiadamente os torcedores de clubes adversários, dou o troco quando perdem jogo para um timinho qualquer ou ganham com um gol de pênalti inexistente, marcado aos quarenta e seis minutos do segundo tempo.
Convém que se saiba que foi por pura força do exemplo paterno que adotei o Cachoeiro Futebol Clube como o meu primeiro time, o de origem. Só mais tarde é que fui escolher o tricolor carioca pelo qual haveria de torcer pelo resto da vida. Naquele tempo o Rio de Janeiro era a capital do país e do futebol. Dos times paulistas, só tenho lembrança do Santos, onde Pelé formava um ataque sensacional, tendo o apoio de Zito no meio de campo. As vitórias do Palmeiras e do Corinthians não entusiasmavam ninguém. Dos clubes de Minas, da Bahia e, porque não dizer, do resto do Brasil, não me lembro nem de ouvir falar, quando era pequeno. Isso, talvez, porque as transmissões dos jogos mais esperados nos chegavam pelas ondas curtas das rádios Tupy e Nacional, ambas cariocas, narradas por Waldir Amaral e Oduvaldo Cozzi.
O estádio do Cachoeiro fica lá na Baiminas, bairro situado rio abaixo da nossa casa, logo depois do matadouro. Era pra lá que papai levava, a contragosto de mamãe, os seus três filhos ainda bem pequenos em dia de jogo importante. Tenho guardada uma foto tirada no centro do campo com ele fazendo discurso para autoridades, torcedores ilustres e jogadores daquele valioso escrete de uniforme listrado de vermelho e branco. Nela, Cláudio, Afonso e eu aparecemos ao lado dele, vestindo calça curta com suspensório. É imagem suficiente para manter viva a chama de torcedor que ainda carrego no lado direito do peito. Soube que teria sido publicado um livro sobre a história e as glórias do Cachoeiro. Imagino que nele possam estar registrado um pouco do que papai andou fazendo pelo seu clube. Afonso conta que, na falta de dinheiro para os salários, ele tratava de arranjar emprego para os jogadores.
Tio Newton jogou muito tempo como beque do Estrela do Norte e posso imaginar as gozações finíssimas que fazia com o cunhado sempre que ganhava do Cachoeiro. Dizem que ele era um beque raçudo, desses que dão caneladas a torto e a direito. O campo do Estrela fica ali por cima do antigo mercado e lá assisti Garrincha e Nilton Santos jogando, em partida memorável contra um combinado local.
Escrevo esta crônica movido pela satisfação em saber que o glorioso Cachoeiro está firme e forte, chegando nas finais do campeonato capixaba de futebol deste ano. Fundado há quase cem anos, ele foi campeão estadual uma única vez, em 1948, quando eu tinha meses de idade. Se tivesse vencido outras vezes, mamãe teria me comunicado imediatamente. Ela não era mulher de deixar passar em branco fato de tamanha envergadura. Nestes tempos de decisão, fiquei imaginando Dr. Bolivar, ao lado da sua Gracinha, metido em uma camisa estampada e calção de pescador, fumando um cigarro após o outro e com um copo de uísque na mão, torcendo nervosamente para seu querido Cachoeiro ganhar, de virada, a disputa pelo campeonato capixaba de 2013. Mas ainda não foi desta vez. Como a partida decisiva aconteceu lá no noroeste do estado, consola saber que os torcedores do time vitorioso não passariam lá por nossa casa gritando simpáticos desaforos pra papai.
Vitória, 01 de outubro de 2013
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
