Natal molhado
Desta vez, dificilmente escaparei. Pelo que vejo, a convicção do pessoal atingiu níveis irreversíveis. Sempre que a ideia era ventilada nos almoços em família, recebia adesão animada de filhos e noras. Com o tempo, ela foi ganhando corpo, mas o malandro velho aqui conseguia sair de fininho, prometendo que no próximo ano iria considerar a possibilidade e, quem sabe, aceitar a incumbência. Pois é, acho que desta vez não haverá acordo nem escapatória. Posso apostar que já foram comprar a fantasia vermelha, enfrentando a chuva que cai, sem trégua, há mais de semana.
Confesso que no começo vi as primeiras tempestades com satisfação. É que por muitas e muitas vezes acompanhei a armação do tempo, mas a chuva não vinha. Pescador inveterado, vi fracassarem quase todas as previsões que eu fiz com base na aparência das nuvens que estacionaram por aqui, vindas das bandas do nordeste e no bojo das frentes frias formadas na Antártida. Muito embora nuvens animadoras cobrissem o céu, foi com água cara de torneira que Carol regou as plantas do jardim nesses últimos meses, quando os caramujos estiveram sumidos, hibernando sob a terra seca. Agora, depois que a chuva começou, parece que ela não vai mais parar. Pelo que sei, já não existe canto seco, livre das águas. Os jornais e a TV mostram estragos espalhados por todo lado. Tanto que conseguiram convencer Dilma a sobrevoar a tragédia capixaba e aproveitar para tirar fotos de campanha.
As previsões oficiais indicam que as chuvas devem continuar intensas por mais uns bons dias, o que é alarmante. Desesperador, para muitos. Para os que estão dentro de casa sólida, construída em lugar adequado, é quase impossível dimensionar as emoções de quem esteja submetido à força das águas. Isso, por mais que as imagens e os relatos sejam fieis aos fatos, por mais que os jornalistas e fotógrafos tentem mostrar o sofrimento e o incômodo das pessoas.
Lembro-me do pânico provocado por um jato d’água que saia pelo ponto de luz do quarto das meninas durante um temporal em 2008. A calha entupiu e a água buscou o caminho mais fácil para descer. Uma sensação de insegurança coletiva se instalou, mesmo sabendo que, no máximo, encharcaria o assoalho. Passado o medo e como não havia balde que pudesse dar conta, improvisamos um sistema para recolher a água e canalizá-la até a janela, que funcionou perfeitamente bem. Dominada a situação, tiramos fotos da equipe ao lado da escadinha usada para sustentar o tubo de PVC que recebia o bico de funil feito com saco de lixo, pendurado no ventilador. As imagens fazem rir e garantem a posteridade do acontecimento. Mas quem olhar aquelas fotos nada saberá sobre o pavor e a correria que aconteceu naquele dia, por tão pouco.
Desta vez, a água achou melhor descer pelo ponto de luz localizado em cima da cama do casal. Ela começou sorrateira, em pingos esparsos, nada que uma bacia não conseguisse resolver. Mas tivemos que passar a dormir em outro canto, pois, quando vimos, o colchão já estava ensopado. Com a continuação da chuva, a goteira evoluiu em extensão e volume. Agora, ela pinga intensamente ao longo de todo o trajeto do duto, que vai da parede até o bocal da lâmpada. Mas é coisa irrelevante, que nem vai sair na foto.
Fotos, muitas fotos mesmo, quem vai merecer é um Papai Noel meio ridículo tentando enrolar os netos Manu, Theo e Alice na noite deste Natal. Quando crescerem, Gael e Gabriel por certo vão poder ver a animação da festa, mas nada poderão saber sobre a chuva que batia forte na vidraça da sala.
Vitória, 24 de dezembro de 2013
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
