Amigos e museus
Na semana passada estive duas vezes ao Museu Vale. A primeira para a festa de comemoração de quinze anos de sua existência e a segunda para uma belíssima exposição de pinturas e desenhos. Na volta pra casa, um velho amigo meu, desses bem viajados e exigentes, declarou em alto e bom som o seu orgulho e a sua satisfação em saber que existe na sua terra um lugar como aquele. Falante, ele estava surpreso com o que vira naquela manhã. Uma instituição com propósitos firmes e bem orientados, instalações muito bem cuidadas e uma mostra deslumbrante de uma artista capixaba. Com emoções soltas por duas ou três taças de prosseco, ele estava feliz e emocionado.
Bem sei, porque acompanho desde o começo, que tudo aquilo surgiu da ideia de se aproveitar a antiga Estação Pedro Nolasco, então abandonada, para instalar um Museu Ferroviário onde pudesse estar um pouco da saga e da história da Estrada de Ferro Vitória a Minas. Criada no comecinho do século passado, ela ajudou a desenvolver a região ao longo do Rio Doce e, mais tarde, viabilizou o transporte do minério de ferro mineiro até o litoral.
Lá estão equipamentos, ferramentas e utensílios utilizados na construção e operação da ferrovia, fotografias antigas, inclusive uma em que operários estão ao lado de índios botocudos atarracados com cara de poucos amigos. Em um salão, homens habilidosos construíram uma grande maquete com representação das minas, da ferrovia com pontes, estações e trenzinhos que apitam, de pilhas de minério, usinas de pelotização, porto e tudo o mais que encanta crianças e marmanjos de boa idade. Ao lado do prédio da estação estão uma possante Maria Fumaça e um vagão antigo com bancos de madeira, de cujas janelas se pode contemplar o mundo com olhar de passageiro.
Pois bem, a coisa poderia ter parado por aí e já estaria de bom tamanho: um lugar agradável para passear nos fins de semana. Não só não parou, como demonstrou que, havendo gente com propósito firme e poder de agregação, muito pode ser feito, mesmo em ambientes adversos. Ao longo dos anos o lugar foi sendo transformado em um museu de arte contemporânea,hoje reconhecido dentro e fora do país, que oferece um programa de arte-educação para milhares de alunos de escolas públicas, seminários de filosofia para audiências inimagináveis e exposições de artistas de renome. A mostra Seu Sami, do artista capixaba Hilal Sami Hilal, por exemplo, foi algo extremamente impactante e definitivo.
Agora é Regina Chulam quem mostra desenhos e pinturas. Depois de décadas em Lisboa, Regina passou a viver em Aracê, na região de Pedra Azul, de onde extraiu temas desse trabalho. As cabras, desenhadas em papel pequeno, são sensacionais, os agaves são fortes e coloridos e as paisagens de montanhas exuberantes. Os retratos que pintou de seu irmão e de amigos são precisos: basta um par de olhos para identificar a pessoa sentada na cadeira de braço. O galpão com paredes escuras e telas bem iluminadas é lugar para se ficar andando de um lado para outro, apreciando o que foi feito com tintas e pincéis, pensando na própria vida.
Depois de comentários positivos sobre a atuação do MAES, a conversa resvalou para a novela Cais das Artes. Já passa da hora de se conhecer em detalhe os conceitos e princípios que nortearão o seu funcionamento. Com arquitetura grandiosa e arrojada ele haverá de exercer, obrigatoriamente e em bases generosas, a nobre função de abrir mentes e corações em escala proporcional aos custos de suas instalações. Para termos motivos para comemorar.
Vitória, 29 de outubro de 2013.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
