Um bom passeio

Um bom passeio

Da primeira vez que estive em Inhotim só deu pra ver umas poucas coisas. Sai de lá com a certeza de que haveria de voltar para apreciar com calma cada pedaço daquele lugar deslumbrante, instigante e exemplar, fruto de um projeto generoso no qual se investe sem dó, misere nem sovinagem na valorização da arte contemporânea. Fico só imaginando a felicidade dos artistas ao serem convidados para realizar uma obra a ser colocada à apreciação do público num ambiente como aquele.

Ao fim de dois dias de visita, confirmei a impressão de que se trata de um grande presente para o mundo, um espaço para usufruir da natureza e apreciar obras de artistas renomados. Muitos dos prédios foram especialmente construídos para abrigar a produção de um único artista. São edificações de arquitetura arrojada e boa engenharia construtiva, que ajudam a compor um cenário propício ao encantamento e ao embasbaque, que tanto bem fazem aos homens.

A obra de arte contemporânea nem sempre é algo palatável e bom de ver. Expressa a total liberdade de criação do artista e pode embutir mensagens totalmente herméticas. Em Inhotim tem de tudo um pouco, sempre em grande escala, o que aumenta o poder de impacto das obras e instalações. Isso me faz acreditar que ninguém passa por ali impunemente. Além de muitos estrangeiros, dava pra ver que a chamada nova classe média brasileira estava lá em peso. Muita gente de aparelho nos dentes e expressão feliz.

Desta vez, foi possível rever atentamente o que já tinha visto às pressas, a começar pelo trator de grandes rodas enlameadas arrancando uma árvore branca, dentro de uma cúpula construída no meio da mata. Pude ouvir os sons da terra captados a mais de duzentos metros de profundidade e confirmar a magia da divisão de uma grande sala feita só com a ajuda de um verde que simula uma parede de vidro. Fiquei à sombra de um veleiro de quilha pra cima e mastro pra baixo, como que plantado ao lado de pé de mogno, madeira com que foi construído lá na Europa. Pude, agora, passar ao lado de enormes vigas de aço cravadas em uma base de concreto, num descampado no alto de um morro, e pensar na vida ao som tirado de cada uma delas com o cabo da minha faquinha. Em silêncio profundo, andei ao redor de um conjunto de onze longas barras criadas por Lígia Pape com centenas de fios de cobre estirados em paralelo e iluminados transversalmente. Dancei em uma espécie de boate de forma sextavada e paredes espelhadas que reproduzem indefinidamente as imagens dos visitantes.

A natureza em estado bruto e os jardins projetados por paisagistas refinados são capítulos à parte em Inhotim. Centenas de palmeiras de todo tipo e porte, uma grande variedade de bromélias e antúrios, enormes pés de eucalipto, belíssimas touceiras de bambu, inclusive de um roxo tentador, compõem um cenário deslumbrante para quem se disponha a contemplá-lo. Vi muito, muito mais. Não cabe em uma crônica.

Atividade voraz e desnaturada, a extração de minério movimenta a economia da região, mas maltrata bastante o lugar. Os caminhões são muitos e enormes. O chão é todo coberto com uma camada de pó de minério marrom avermelhado. O trem corta Brumadinho ao meio e obriga os pedestres e os carros a transitarem por uma única passagem de nível estreita, construída na cabeceira da ponte sobre o rio Paraopeba, o qual pouco se nota. Inspirado pelo o que vi nessa visita a Inhotim imaginei aquele trecho do cenário urbano como a primeira obra de arte contemporânea instalada a céu aberto no município.

Vitória, 06 de Agosto de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

E agora, pessoal

E agora, pessoal?

Nesta segunda feira, nasceu mais um neto. O quinto. Ele tem cabelos pretos, não é dos maiores, já abre os olhos e tem cara de gente mansa. Houve quem dissesse que ele se parece com o irmão e tem o sorriso da irmã. Ainda sem nome, ele dá o seu testemunho de que a vida segue em frente.

Vendo a enfermeira dar o primeiro banho no moleque, na pia ao lado da parede de vidro que separa o berçário do saguão onde ficam os parentes aflitos e entusiasmados, me lembrei do nascimento do nosso primogênito na maternidade do Dr. Arnaldo, que já não existe mais há décadas. Embora os tempos políticos fossem duros e o tal milagre brasileiro já desse sinais de cansaço, não me recordo de ter sentido inseguranças em relação ao futuro que nos esperava. Tudo indicava que a vida seguiria fluindo sem grandes riscos e sobressaltos, mesmo sabendo que nos mudaríamos logo depois para a Paraíba, para trabalhar na administração da universidade e dar aulas. Tanto é verdade que, depois daquele, nasceram mais quatro filhos.

Há alguns anos, no fim da tarde de um sábado ensolarado, fui a um show da banda de rock do pai do recém-nascido, lá na Pedra da Cebola. O público era formado por rapazes e moças entre quatorze e vinte e poucos anos. Todos de banho tomado, roupa limpa e colorida, com cara animada, apostando nas possibilidades de diversão daquela noite de música ao vivo. Via-se que eram pessoas que se preparavam para ganhar mundo, sob as melhores expectativas dos pais.

A empolgação daqueles adolescentes tinha razão de ser: eles estavam sendo informados de forma sistemática que o futuro era promissor. Para a felicidade geral, alardeava-se que o país estava crescendo de forma acelerada e consistente e anunciava-se o surgimento de milhares de oportunidades para a realização profissional de quem se capacitasse adequadamente. De todo lado surgiam receitas infalíveis de como fazer sucesso e ganhar dinheiro. Estudar era a primeira delas, mesmo que as mensalidades fossem salgadas. Crédito abundante e prestações reduzidas facilitavam a compra de praticamente tudo que se mostrasse necessário para realizar o sonho individual, gerado por uma carga publicitária massacrante do tipo “compre baton”. Coisa que as gerações anteriores não haviam experimentado. Até recentemente vivia-se perfeitamente bem com muito pouco. Não me lembro de ter perdido noite de sono por não ter duas calças Lee ao mesmo tempo.

Mesmo que a economia pudesse gerar ocupação para toda aquela rapaziada preparada e disposta, por certo ela não seria capaz de oferecer remuneração em níveis compatíveis com as expectativas de consumo de bens e serviços que estavam sendo cravadas na alma de cada qual. Embora observasse essa impossibilidade, eu não poderia supor os efeitos dessa impossibilidade em tão curto prazo. Sempre soube que frustrações pessoais em grande escala podem se tornar algo perigoso e explosivo. Enchem as ruas e dão muito trabalho para políticos e autoridades de plantão. É bem provável que uma boa parte daquela platéia animadíssima de então tenha participado da manifestação de insatisfação dos cem mil, que assisti da calçada na Reta da Penha pensando no assunto.

Está cada vez mais difícil imaginar como andará o mundo quando esse neto recém-nascido estiver com seus vinte anos. Lendo e conversando com pessoas bem informadas, vejo que ninguém se aventura a projetar qualquer cenário a médio prazo. Pelo que percebo, a situação atual desafia estudiosos e formuladores e desorienta até mesmo videntes e cartomantes.

Vitória, 23 de Julho de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Nocaute, derrocada e solidão

Nocaute, derrocada e solidão

Escrevo sempre no começo da semana para que o jornal consiga publicar a crônica na edição de sexta feira. Se o tema é atemporal isso não constitui um problema, mas quando escrevo sobre assuntos que estão na pauta do dia, mobilizando muita gente, corro o risco de pecar no quesito atualidade. Sobretudo quando os fatos acontecem e se desdobram em ritmo frenético, acelerados pela pressão dos interesses e das convicções, como os dessas últimas semanas.

De uma hora para outra, o que parecia líquido e certo virou gasoso e volátil, a começar pela reeleição da nossa presidente, que parece começar a fazer água e a inquietar muita gente que estava tranquila e segura. A queda brusca e expressiva nos níveis de sua aceitação popular, aferidos pelos institutos de pesquisa, é algo inesperado até poucos dias. Se eles continuarem caindo, a coisa pode se complicar de vez, gerando uma debandada do salve-se quem puder. Sou dos que acreditam que as tentativas da presidente, de se posicionar positivamente diante do clamor das ruas, não deram tão certo como pretendiam os seus gurus e marqueteiros de plantão. Deixaram a presidente em situação ainda mais incômoda e vulnerável. Ficou mais do que patente a sua dificuldade em lidar com os políticos, que de cinismo todos têm bastante e de esperteza e auto-estima, todos têm em doses cavalares. Corre à boca miúda que os que participam das reuniões palacianas reclamam das suas atitudes autoritárias e que deputados e senadores da base aliada já prometem dar o troco na hora certa.

Quem não se lembra das expressões de desconforto e de solidão no rosto de Dilma, durante a solenidade de sua posse no Congresso Nacional? Diante daquele auditório repleto de políticos, ela dava a impressão de saber exatamente o que a esperava. A artificialidade de sua eleição, viabilizada com uso de práticas para eleger postes, não parecia relevante em um mundo cheio de certezas. Agora, com a mudança dos ventos, começa a ficar patente que o seu temperamento e a falta de liderança pessoal se mostram inadequados para o enfrentamento de crises de confiança e de demandas difusas. Como era de se esperar, a nossa presidente não precisa de oposições que atrapalhem seus planos de reeleição, ela mesmo trata de gerar motivos de insatisfações e insegurança entre seus potenciais apoiadores. Os bastidores da política fervem e as piadas se multiplicam. Nunca vi tanta gente conversando de forma serena e convicta sobre o que está precisando melhorar. A indignação coletiva é motriz de mudanças relevantes.

Imagino que daqui pra frente conviveremos com tentativas de abocanhar as insatisfações dos brasileiros com o objetivo de manter as coisas como estão e de tentar assegurar reeleições a todo custo. Pode até ser que consigam algum resultado de imediato, mas entendo que atitudes desesperadas de gurus e partidos podem arrombar a porta do fim de um ciclo. Vive-se o início de um processo de mudanças que apenas vai tomando rumo e ganhar ritmo, com muitos fatos se sucedendo e provocando desdobramentos que fazem pensar e querer agir. A derrota do nosso maior lutador de luta livre parece ter sido fruto de uma trapaça qualquer ou da arrogância pessoal que surge das certezas absolutas. A realidade se impôs de forma demolidora, assim como aconteceu na derrocada da fortuna de um empresário que vendeu sonhos mirabolantes e não os entrega, comprovando que a força do marketing tem limites, sobretudo quando os fundamentos dos objetos e personalidades são frágeis e inconsistentes.

Vitória, 09 de julho de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Nas ruas e nas redes

Nas ruas e nas redes

Participei da manifestação dos 100 mil. Preferi ficar na calçada vendo as pessoas passarem, animadas e convictas. Durante quase uma hora fiquei ali tentando descobrir o que sentiam, ler as mensagens escritas em papel, nas camisas e em grande faixas, e entender as palavras de ordem contundentes e as cantorias debochadas. Senti emoções fortes quando li o que ia estampado em garranchos numa placa bem mambembe: “meu avô combateu a ditadura, meu pai derrubou um presidente e eu vou mudar o Brasil”. A moça franzina mostrava uma outra que dizia: “minha insatisfação não cabe num cartaz”.

Vinha acompanhando de longe as manifestações que estavam acontecendo em várias cidades nos últimos dias. Confesso que, mesmo avisado por gente que frequenta as redes, jamais imaginei que pudesse ver algo tão expressivo nas ruas de Vitória. Tem quem esteja tentando entender e encontrar explicações racionais para o que está ocorrendo. Parece que em cada um de nós há uma enorme quantidade de insatisfações específicas que, de alguma forma, se somam e se complementam.

Na mesa do café da manhã do dia seguinte, em meio a comentários e opiniões acaloradas sobre aquele mar de gente, me veio, pela primeira vez, a certeza de que, finalmente, estava criado o ambiente indispensável para iniciar um processo de saneamento da política brasileira. Ali entendi a urgência da instalação de uma Assembleia Nacional Constituinte formada por brasileiros de reconhecida competência profissional, independência intelectual, coragem pessoal e moral ilibada, dispostos a trabalhar voluntariamente. Por princípio, ficariam de fora todos os ocupantes de cargos eletivos e comissionados. Não saberia dizer, assim de pronto, como isso poderia ser feito, mas deveríamos continuar aproveitando as facilidades colocadas pela internet para praticar uma democracia real, enriquecendo e expandindo as discussões e fazendo convergir opiniões que orientassem o processo decisório dos membros da bendita Assembléia.

Andei preocupado com a nossa presidente. Imagino que a vaia colossal que recebeu no estádio lotado deve ter doído fundo na sua alma e a incomodado profundamente. Bem sei que as tais vicissitudes do cargo não são fáceis de enfrentar e que ela deve estar metida até os cabelos num emaranhado de compromissos inconfessáveis, pressionada por interesses da pior espécie e cercada de pessoas das quais eu não compraria um carro usado.

Ontem, durante a abertura da exposição comemorativa do centenário de Rubem Braga, no Museu da Língua Portuguesa, aqui em São Paulo, soube que Dilma havia desfraldado a bandeira da Assembléia Constituinte em cadeia nacional. Imediatamente propus um brinde para comemorar o seu gesto, que veio acompanhado do anúncio de um pacto com governadores e prefeitos de todo o país em favor do atendimento dos principais pleitos dos manifestantes e de muita gente que ficou
em casa. É bem provável que a sua atitude acalme o clamor vindo das ruas, mas tenho certeza de que ela sabe que as pessoas estarão atentas, aguardando a efetivação de suas promessas, prontas para voltarem a manifestar com contundência as suas críticas e demandas.

Por via das dúvidas, assinei agora há pouco uma petição lançada por duas entidades que respeito e uma outra que desconheço, em favor de eleições limpas, que livrem o país da sanha de políticos profissionais e imprestáveis que ocupam plenários e gabinetes por este país afora. Dito isso, vou tratar de procurar saber em mais detalhes o que andou acontecendo na Islândia nessa direção.

São Paulo, 25 de junho de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Notícia boa, exposição bacana, mensagem curiosa

Notícia boa, exposição bacana e mensagem curiosa

Domingo passado foi dia de boas emoções, saídas de fontes bem diferentes. A primeira delas veio, logo cedo e em letras garrafais, na manchete da capa do jornal que diariamente o entregador arremessa, de cima de uma moto em movimento, sempre no mesmo lugar. Anunciava milhares de salários altos que surgiriam com a implantação dos chamados Parques Tecnológicos, a começar pelo de Vitória, bem ali na região de Goiabeiras. Esse é sonho antigo de um punhado de idealistas, no qual me incluo, que  propuseram, no começo dos anos noventa, que o município reservasse uma área de mais de trezentos mil metros quadrados para ser ocupada exclusivamente por instituições de pesquisa e inovação e empresas de tecnologia. Fizemos aquilo pensando no futuro da cidade e nas pessoas que nela viveriam. Pelo que leio no jornal, o futuro entrou definitivamente na pauta de trabalho das autoridades e vai se materializar exatamente no espaço que lhe foi reservado. Confesso que me animei. Quem viver, verá.

Por volta das onze da manhã foi a vez de emoções em família. Fomos visitar, mais uma vez, a exposição do centenário de Rubem Braga, lá no Palácio Anchieta. Era o último dia de visitação da mostra, que começa a ser desmontada para ser instalada no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, lugar onde sempre acontecem exposições interessantíssimas, como a que vi sobre Guimarães Rosa. Não tinha muita gente, mas todos os que lá estavam se moviam lentamente entre as escrivaninhas de redação e os textos afixados nas paredes cobertas por cópias de páginas de jornais antigos. As pessoas se postavam quietas diante das vitrines, vendo fotografias, documentos, cadernetas de anotações, textos originais com correções à mão e tudo o mais. Algumas, distraídas, suspiravam fundo, talvez pelo impacto do que liam. Outras, davam sinais de espanto com informações sobre as andanças do cronista por esse mundo afora. Foi muito bom encontrar velhos conhecidos e, juntos, assistir os depoimentos de amigos saudosos de Rubem, gravados na varanda e no pomar de sua cobertura. Ziraldo, Ana Maria Machado e Danuza Leão são dos que fazem rir e chorar, lendo crônicas e contando histórias. Estamparam na tela admiração e carinho pelo velho Braga, amigo dos amigos, amante das mulheres, homem que gostava de passarinhos e das coisas simples, como uma boa goiabada de Campos com requeijão de Cachoeiro. Uma bela homenagem ao nosso maior cronista. Quem lá não foi, perdeu.

Para finalizar o dia, que teve almoço em casa, em torno de um pernil de cordeiro com couscous marroquino, foi a vez de emoções trazidas por uma mensagem inusitada, enviada por uma pessoa que me viu, faz tempo, falando sobre crônicas no Centro Cultural Magestic, na Cidade Alta. O texto era tão curioso que resolvi compartilhar sua leitura com as poucas pessoas da casa. A cada parágrafo lido, uma surpresa seguida de um sorriso meio aflito, por não se saber exatamente onde aquilo tudo iria dar. Somente no último deles, como convém às boas narrativas, é que o remetente revela a motivação maior da iniciativa e externa suas expectativas: “..tirar umas dúvidas sobre ‘como escrever’ ou, como você disse no Café Literário, como ‘pescar o safado do leitor’”. A capacidade de emocionar e prender a atenção até a última linha é própria dos bons narradores de histórias, acontecimentos e cenas cotidianas. E isso, o nosso ilustre remetente desconhecido demonstrou possuir. Por certo, o exercício da escrita solta fará o resto. E então, quem ler seus escritos, gostará.

Vitória, 28 de maio de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Festa de casamento de filha

Festa de casamento

Poucos casais têm cinco filhos como eu e Carol. É coisa do tempo antigo, quando a vida era mais fácil e bem mais barata, o tempo era mais folgado, percorria-se distâncias mais curtas e havia empregada que dormia em casa. Criar filhos era algo mais descomplicado, sem grandes teorias e a obrigação de usar cadeirinha no carro. Passei a vida de adolescente e comecei a de adulto em casa de muita gente, ao lado de quatro irmãos e de uma mãe viúva. Com dinheiro curtíssimo, a compra de uma panela nova e o conserto da pia tinha que esperar o salário seguinte. Mas nem por isso. A casa na Madeira de Freitas era ponto de encontro dos amigos da rua e lugar de convívio intenso e barulhento dos Mamíferos, a banda de rock do nosso quintal. A nossa casa de hoje é também um lugar movimentado, onde sempre está acontecendo alguma coisa boa, mesmo depois que quatro dos filhos já não morem mais conosco.

Pois bem, no último sábado, foi a vez de festejar o casamento da filha mais velha com um paulista sorridente, corintiano e trabalhador, como convém. Mesmo morando longe, Manaíra fez questão começar a vida de casada em cartório com uma festa na casa dos pais. O casório será complementado em igreja lá em São Paulo e com festa em um lugar escolhido a dedo.

Aqui, os preparativos começaram com boa antecedência. Mobilizaram todas as pessoas da casa e uma tia da noiva. Consumiram dezenas de interurbanos e de troca de mensagens pela rede. Uma decisão radical havia sido tomada coletivamente meses atrás: as comidas e os adereços seriam todos feitos em casa, no mais puro estilo de antigamente, quando as pessoas se juntavam em torno de uma mesa e diante do fogão para fazer o que tivesse que ser feito para agradar noivos e convidados. E foi exatamente assim que aconteceu por aqui. Uma trabalheira sem fim.

As últimas duas semanas foram consumidas com atividades de planejamento detalhado, escolhas dificílimas e muitas horas de conversa frouxa. Nos primeiros dias de maio gastamos manhãs e tardes engomando, cortando e colando retalhos para fazer umas quinhentas flores de pano como lembrança da festa. Como era de se esperar, a mãe da noiva resolveu aproveitar para dar uma boa arrumada na casa, comprar jogo de cadeiras de jardim, dar uma revigorada nas plantas, lavar as paredes, tirar o pó preto incrustado no tronco dos pés de graxa e acabar com o vazamento no telhado da pérgula. Sempre torcendo para não chover nem ventar forte. A noiva chegou dias antes junto com a irmã, a tia e a prima de Belo Horizonte, que vieram ajudar.

Durante a sexta feira, a movimentação se concentrou na cozinha, entrando pela madrugada. Foi a vez de cortar temperos, limpar e assar carne e peixe, preparar massa e recheios para as quiches, produzir geleias, fatiar queijos e presuntos defumados comprados na feira, montar cesta com frutas de estação, enrolar brigadeiros de chocolate amargo, de ver Bebel, a filha do meio, preparar seu tradicional quindão e a caçula Diana fazer pavlovas com merengue e morango e, cheia de estilo e com apoio da mãe do noivo, enfeitar o bolo com rosas pequenas, livre da tal pasta americana que esconde as imperfeições. Do lado de fora, dava gosto ver a serenidade da tia Beatriz arranjando, milimetricamente, flores coloridas e folhas verdes em tachos de cobre. Isso, depois de coordenar a arrumação da festa, nos mínimos detalhes. Até São Pedro tratou de ajudar, dando de presente um dia perfeito para que os noivos pudessem compartilhar sua alegria com os parentes e amigos mais próximos.

Vitória, 14 de Maio de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Manhã de abril

Manhã de abril

Domingo é dia de descanso, de deixar a vida correr solta, sem obrigações do trabalho, sem preocupações descabidas. Dizem que Deus trabalhou duro durante seis dias e usou o sétimo para ficar olhando e conferindo se estava tudo certo, as linhas verticais no prumo, o sol esquentando tudo que não estivesse à sombra das árvores e das pedras, os passarinhos experimentando as próprias asas e conseguindo voar com tranquilidade, as nuvens indo de um lado a outro com o vagar recomendado nos períodos de bom tempo, as águas dos mares subindo e descendo em sintonia com a posição da lua, as ondas, vindas em sequência de sete, arredondadas, virando espuma ao final do percurso, os ventos moderados vindos do quadrante sul trazendo a fresca que os homens bem merecem depois de um verão exaustivo, as folhas novas devidamente presas aos galhos e balançando ao vento, as flores mostrando suas cores delicadas, até então desconhecidas, as pedras enormes, opacas e impassíveis, nos seus devidos lugares, os peixes, em cardumes ou nadando solitários em busca do que comer, os primeiros sururus já agarrados na pedra, disputando espaço com as algas.

Convém dizer que era uma manhã radiante de abril, das últimas. Uma manhã de domingo, própria para sair de casa e andar pelas redondezas em busca de saúde e de satisfação, mas sem a pressa dos atletas nem a agonia dos que exercitam para mostrar as formas depois. Melhor, com a tranquilidade própria dos homens que aproveitam maré crescente pra pescar nas águas do canal, conversando sobre marés, iscas e anzóis, sempre de olho na ponta das varas, com a felicidade de uma amiga de juventude que passeia com o cachorro de sempre na coleira e mostra a neta risonha, no carrinho de bebê empurrado pela filha. Três ciclistas, em uniforme completo, pedalam forte para ver quem chega primeiro ao topo da ladeira. Um homem já beirando os oitenta, sem camisa e sem óculos, corre em ritmo possível, distribuindo sorrisos. Em silêncio, um casal acompanha dois rebocadores navegando em marcha lenta. Não sei onde foram parar as gaivotas e os maçaricos que frequentam as lajes de pedra à beira mar, mas os canários da terra estão por todo lado.

Caminhando em ritmo de domingo, conversando frouxo sobre a chegada iminente de mais um neto, rindo do fracasso da tentativa de fazer tapioca na frigideira, falando das pequenas flores de pano para o casamento de filha mais velha, lamentando a ausência das tartarugas no mar do final da rua, rindo da falta de um bom tema para a crônica da semana, programando um cineminha no final da tarde e o cardápio do almoço à base de verdura, grãos e saladas, chegamos ao formidável livro de fotografias que Vitor Nogueira havia lançado no começo da semana. São mais de cem imagens de águas, terras, pedras e montanhas, plantas e plantações, praias, areias e muitos barcos, céus abrangentes, nuvens e sóis, pontes e conventos, passarinhos e gente, muita gente. Trabalhando, pescando, rezando, dançando, fantasiada, tocando, cantando, sentada, plantando, indo e voando. E também animais, insetos e passarinhos, inclusive o olho de uma arara, que me fez ter saudades da que tive, faz tempo. Tudo daqui de perto, ao alcance do olhar de quem ande e arrepare nas coisas e pessoas por onde passe. As fotos estão lado a lado com os poemas que ele mesmo escreveu, inspirado em cada uma delas.

Se Vitor passasse por ali naquele momento e estivesse com suas lentes, certamente teria captado algumas daquelas imagens, à luz perfeita das manhãs de abril.

Vitória, 30 de abril de 2013-04-30

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Enquanto isso

Enquanto isso…

Agora já posso dizer que a tal cadeira de balanço está pronta, perfeitamente lustrada e sendo utilizada pelos moradores da casa e pelos visitantes curiosos. O serviço ficou muito bom, digno de elogios e virou assunto de conversa sobre trabalho manual, poder de concentração, paciência, passatempo, cera de carnaúba, tipos de palhinha, caco de vidro, tiras de borracha e por aí afora. Teve até quem dissesse que a cadeira tinha virado um personagem.

Pois bem, na semana passada encontrei um amigo de longa data na porta de uma loja que vende frutas, legumes e verduras, todas, a cada dia mais bonitas e mais caras. Ele é jornalista e escreve crônicas deliciosas. Ao me ver na fila do caixa, debochado que só, perguntou pela cadeira, e com cara séria foi logo declarando que estava com medo de que eu parasse de fazer colheres pra ficar pegando serviço de limpeza de cadeira velha. De quebra, sugeriu que escrevesse sobre como é bom ficar sentado na varanda, balançando pra frente e pra trás.

Nesses dias em que andei agarrado na cadeira, pensei muito na velocidade com que fatos relevantes se sucedem, tornando quase impossível acompanhar o que se passa em volta. Como deve estar acontecendo com muita gente, tem hora que me sinto meio atordoado, sem conseguir processar devidamente o que me chega pela mídia.

No plano das brigas de cachorro grande, por exemplo, andaram denunciando que ministros e diplomatas estavam ajudando a montar uma ação entre amigos para levar para o estado do Rio o estaleiro que estão construindo em Barra do Riacho. Sem maiores detalhes, foi anunciado que o mega projeto que seria instalado no sul do estado tinha ido pro vinagre, por decisão dos seus idealizadores. O Congresso, por sua vez, detonou muitas expectativas de gastança com os royalties de petróleo, mas o STF tratou de bloquear a efetivação da decisão do plenário. Provisoriamente.

Elegeram um novo Papa para tentar sanar a má fama da cúpula da sua igreja e reverter o processo de perdas de fiéis. Em paralelo, acompanhei o bafafá que colocou sob os holofotes da fama um aspirante a líder nacional, ajudando a atiçar uma espécie de guerra santa que vai se instalando no país, movida a eventos, prisões, processos e tudo o mais.

Aprovaram a PEC das empregadas domésticas, criando uma formidável apreensão em milhares de pessoas que trabalham e que contratam. É a lei fazendo avançar na marra o que vinha evoluindo aos poucos. As incertezas só não preocupam os advogados, animados com a expansão do potencial de processos trabalhistas.

Também está impossível acompanhar o prende e solta de prefeitos, vereadores e deputados. O que pouco mudou foram as obras sem fim no terminal do aeroporto.

Em pratos menores, o tomate virou a bola da vez, realçando as cores do processo inflacionário, justificando o aumento dos juros de cada dia, animando a campanha presidencial que vai tomando corpo. Talvez em função da potência das redes, muitas pessoas começaram a repetir que carambola, uma das minhas frutas preferidas, faz mal para os rins. Um amigo mineiro contou que o papagaio dele adora carambola.

Durante essas semanas, li um bom pedaço de “Civilização do Espetáculo”, de Vargas Llosa, e assisti o primeiro capítulo de “O século do Ego”, documentário feito pela BBC. Tratam do uso deliberado da força do marketing para criar valores, condicionar escolhas e gerar comportamentos de massa, tanto no plano político como no da economia. Reforçaram a minha antiga certeza de que sempre tem alguém pretendendo distrair ou enrolar a gente.

Vitória, 16 de abril de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Servicinho maneiro

Servicinho maneiro

Sou um usuário convicto de cadeira de balanço. Aqui em casa temos três delas. Uma austríaca, dessas de palhinha, uma desenhada por Tenreiro, bem baixinha, ambas de herança, e uma outra de lona, trazida da Paraíba, a minha preferida. É nelas que me sento para assistir TV, conversar, ler jornal e ficar pensando na vida. Raramente me sento em sofá, sempre mais quente, apesar de mais confortável.

Cadeira de balanço é algo que remete ao passado. Em uma das poucas fotografias de meu avô Chico Braga, ele está com cara de coronel do interior, sentado na que está na casa de mamãe. Guardo a imagem de minha avó Cesarina em uma delas, fazendo crochê.

Digo isso por estar às voltas com uma cadeira de balanço que minha filha caçula e o seu namorado trouxeram pra casa, morrendo de rir. É uma peça muito antiga, dessas que passam de uma geração para outra como um troféu. Disseram que ela estava coroando a caçamba cheia de entulho e queriam ver se eu seria capaz de recuperá-la.

A situação da cadeira era deplorável. Deve ter ficado anos debaixo de sol e chuva, recebendo pó preto misturado com maresia. As palhinhas estavam podres, muitas rachaduras e emendas descoladas, faltava uma das partes. Olhada de frente, mostrava-se empenada. Fora remontada de qualquer jeito. Um quebra cabeça e tanto.

Mas nada como um dia após o outro para quem pretende raspar e dar acabamento esmerado em mais de quinze metros de madeira roliça e em curvas, entortada com o calor do vapor. Disposto a enfrentar o desafio, comecei tirando a camada de pó preto com o jato d’água dessas bombas caseiras. Depois, cortei o que sobrou dos trançados e usei a furadeira para limpar os quase duzentos buracos por onde passam as palhinhas. Com muito custo, desaparafusei os aros do assento e do encosto, para facilitar a operação.

Feito isso, amolei duas das minhas faquinhas de cortar bambu e separei uma folha de lixa grossa. Com cuidado, acabei de quebrar um jarro d’água que estava trincado, em busca de cacos de vidro grandes, ferramentas poderosas para o serviço em madeira.

Esperei o sol baixar e comecei por calafetar os muitos estragos provocados por intempéries e maus tratos. Passei então a raspar a sujeira incrustrada em um dos braços, até que a cor natural da madeira voltasse à tona. Serviço pesado, feito com movimentos longos e vigorosos, ora com a lâmina de aço, ora com a quina do vidro. O uso da lixa enrolada em uma placa de borracha ajudava na limpeza e permitia descansar os dedos.

Gastei umas boas seis horas para raspar uma das duas laterais, formada por quatro partes, todas em curva, o que dificulta bastante o serviço e exige que se busque, o tempo todo, posição adequada para continuar. Isso, sem contar a dificuldade para limpar as áreas localizadas entre duas peças que se juntam em ângulo.

Para obter superfícies livres de ondulações e rugosidades foram horas e horas de movimentos suaves com cacos de vidro virgem e lixa fina. Na sequência, foi a vez de alisar a madeira com o cabo da faquinha, em busca de uma superfície polida com um brilho uniforme, base adequada para receber a cera de carnaúba. Enquanto cuido da outra lateral, já dá para levar as peças para o empalhador que trabalha em uma das esquinas da Praia do Canto.

Com tudo resolvido, restará equacionar um sério problema de engenharia: o que fazer para montar a cadeira sem o aro de madeira que fica entre o encosto e o assento. Mas isso é outro capítulo da história dessa cadeira, que recomeça na casa que seus novos proprietários estão pretendendo montar em breve.

Vitória, 19 de março de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Televisões com defeito

Televisões com defeito

Os dois aparelhos de televisão da casa quebraram praticamente ao mesmo tempo, na semana passada. A maior delas, a que é utilizada coletivamente, simplesmente apagou de vez, sem ao menos fazer barulho, sem dar qualquer aviso prévio. O pessoal estava assistindo um dos filmes do Oscar quando a tela ficou preta e o sistema de som silenciou. É uma dessas televisões de quarenta e poucas polegadas, que nos foi dada de presente, há uns três anos. Além de ser bem fininha, nela veio embarcado o que havia de mais avançado na época, em termos de tecnologia. Tudo enaltecido nos anúncios massivos como sendo ultra, super, plus, advanced e por ai afora. Ao substituir a que funcionava direitinho há mais de duas copas do mundo, informaram que a imagem da nova como a dos cinemas. De quebra, os filhos contrataram um desses pacotes que disponibilizam dezenas de canais, muito mais do que um cidadão comum precisa para ser totalmente feliz durante o tempo em que permaneça diante de uma TV.

Normalmente não assisto novelas, programas de auditório, missas moderninhas, cultos variados para coleta de dízimo, seriados sobre o que acontece no setor de emergência de hospitais e em oficinas de reforma de carros, programas com adestradores de cachorros e de crianças mal educadas, profissionais que ensinam a arrumar casa, a emagrecer comendo pouco e a fazer musculação em aparelhos que fazem tremer o corpo inteiro e muitas outras atrações que não me interessam. Prefiro fazer colher, cozinhar, ler ou mexer nas plantas.

Sou desses que assistem noticiários nacionais, uma partida ou outra de futebol, quase sempre da seleção ou do Fluminense, alguns jogos de volei e futsal, filmes que só passam fora do horário nobre e uns poucos programas de entrevistas. Isso, sempre que estou sozinho ou quando posso aumentar o som para compensar a minha dificuldade auditiva. Gosto de filmes de aventura, que assisto sem som, tentando descobrir o fio da meada analisando as expressões e os trejeitos dos atores, imaginando o que teria se passado na cabeça do diretor. Gosto de tentar adivinhar a próxima cena: uma queda, um tiro, a traição do bandido, um beijo roubado. O pessoal que está ao lado reclama bastante, sobretudo quando acerto na previsão, acabando com a surpresa.

A televisão que está no quarto é aquela que estava na sala. É do tipo mais robusta e com cauda, um objeto do século passado, por assim dizer. Pois é nesse aparelho que mais exerço a minha condição de telespectador, sobretudo no fim do dia, antes de dormir. Ela estava funcionando perfeitamente bem até o meio da semana, quando apresentou defeito grave, desses que interferem drasticamente no relacionamento entre o homem e a máquina. É bom que se saiba que da imagem dela e do som nada tenho a reclamar: estão como sempre estiveram, exceto por estalos esporádicos, um treme-treme ocasional ou um pouquinho de chuvisco. O problema é que a danada da TV resolveu não mais aceitar ser comandada via controle remoto, esta sim, uma grande inovação tecnológica. Levantar da cama para uma simples troca de canal ou para apagar a TV é gesto obsoleto, impensável para os mais novos, um contra senso para quem se acostumou a comandar o espetáculo com um simples aperto de teclas.

O fato é que a vida na casa mudou. No fim de semana, os netos reclamaram da falta dos desenhos animados mas trataram de aproveitar outros atrativos disponíveis, incluindo cachorros, lápis de cor, pé de romã carregado, patinete, banho de mangueira e as pedrinhas do vovô.

Vitória, 05 de março de 2013
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA