Um bom passeio
Da primeira vez que estive em Inhotim só deu pra ver umas poucas coisas. Sai de lá com a certeza de que haveria de voltar para apreciar com calma cada pedaço daquele lugar deslumbrante, instigante e exemplar, fruto de um projeto generoso no qual se investe sem dó, misere nem sovinagem na valorização da arte contemporânea. Fico só imaginando a felicidade dos artistas ao serem convidados para realizar uma obra a ser colocada à apreciação do público num ambiente como aquele.
Ao fim de dois dias de visita, confirmei a impressão de que se trata de um grande presente para o mundo, um espaço para usufruir da natureza e apreciar obras de artistas renomados. Muitos dos prédios foram especialmente construídos para abrigar a produção de um único artista. São edificações de arquitetura arrojada e boa engenharia construtiva, que ajudam a compor um cenário propício ao encantamento e ao embasbaque, que tanto bem fazem aos homens.
A obra de arte contemporânea nem sempre é algo palatável e bom de ver. Expressa a total liberdade de criação do artista e pode embutir mensagens totalmente herméticas. Em Inhotim tem de tudo um pouco, sempre em grande escala, o que aumenta o poder de impacto das obras e instalações. Isso me faz acreditar que ninguém passa por ali impunemente. Além de muitos estrangeiros, dava pra ver que a chamada nova classe média brasileira estava lá em peso. Muita gente de aparelho nos dentes e expressão feliz.
Desta vez, foi possível rever atentamente o que já tinha visto às pressas, a começar pelo trator de grandes rodas enlameadas arrancando uma árvore branca, dentro de uma cúpula construída no meio da mata. Pude ouvir os sons da terra captados a mais de duzentos metros de profundidade e confirmar a magia da divisão de uma grande sala feita só com a ajuda de um verde que simula uma parede de vidro. Fiquei à sombra de um veleiro de quilha pra cima e mastro pra baixo, como que plantado ao lado de pé de mogno, madeira com que foi construído lá na Europa. Pude, agora, passar ao lado de enormes vigas de aço cravadas em uma base de concreto, num descampado no alto de um morro, e pensar na vida ao som tirado de cada uma delas com o cabo da minha faquinha. Em silêncio profundo, andei ao redor de um conjunto de onze longas barras criadas por Lígia Pape com centenas de fios de cobre estirados em paralelo e iluminados transversalmente. Dancei em uma espécie de boate de forma sextavada e paredes espelhadas que reproduzem indefinidamente as imagens dos visitantes.
A natureza em estado bruto e os jardins projetados por paisagistas refinados são capítulos à parte em Inhotim. Centenas de palmeiras de todo tipo e porte, uma grande variedade de bromélias e antúrios, enormes pés de eucalipto, belíssimas touceiras de bambu, inclusive de um roxo tentador, compõem um cenário deslumbrante para quem se disponha a contemplá-lo. Vi muito, muito mais. Não cabe em uma crônica.
Atividade voraz e desnaturada, a extração de minério movimenta a economia da região, mas maltrata bastante o lugar. Os caminhões são muitos e enormes. O chão é todo coberto com uma camada de pó de minério marrom avermelhado. O trem corta Brumadinho ao meio e obriga os pedestres e os carros a transitarem por uma única passagem de nível estreita, construída na cabeceira da ponte sobre o rio Paraopeba, o qual pouco se nota. Inspirado pelo o que vi nessa visita a Inhotim imaginei aquele trecho do cenário urbano como a primeira obra de arte contemporânea instalada a céu aberto no município.
Vitória, 06 de Agosto de 2013
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
