Nas ruas e nas redes
Participei da manifestação dos 100 mil. Preferi ficar na calçada vendo as pessoas passarem, animadas e convictas. Durante quase uma hora fiquei ali tentando descobrir o que sentiam, ler as mensagens escritas em papel, nas camisas e em grande faixas, e entender as palavras de ordem contundentes e as cantorias debochadas. Senti emoções fortes quando li o que ia estampado em garranchos numa placa bem mambembe: “meu avô combateu a ditadura, meu pai derrubou um presidente e eu vou mudar o Brasil”. A moça franzina mostrava uma outra que dizia: “minha insatisfação não cabe num cartaz”.
Vinha acompanhando de longe as manifestações que estavam acontecendo em várias cidades nos últimos dias. Confesso que, mesmo avisado por gente que frequenta as redes, jamais imaginei que pudesse ver algo tão expressivo nas ruas de Vitória. Tem quem esteja tentando entender e encontrar explicações racionais para o que está ocorrendo. Parece que em cada um de nós há uma enorme quantidade de insatisfações específicas que, de alguma forma, se somam e se complementam.
Na mesa do café da manhã do dia seguinte, em meio a comentários e opiniões acaloradas sobre aquele mar de gente, me veio, pela primeira vez, a certeza de que, finalmente, estava criado o ambiente indispensável para iniciar um processo de saneamento da política brasileira. Ali entendi a urgência da instalação de uma Assembleia Nacional Constituinte formada por brasileiros de reconhecida competência profissional, independência intelectual, coragem pessoal e moral ilibada, dispostos a trabalhar voluntariamente. Por princípio, ficariam de fora todos os ocupantes de cargos eletivos e comissionados. Não saberia dizer, assim de pronto, como isso poderia ser feito, mas deveríamos continuar aproveitando as facilidades colocadas pela internet para praticar uma democracia real, enriquecendo e expandindo as discussões e fazendo convergir opiniões que orientassem o processo decisório dos membros da bendita Assembléia.
Andei preocupado com a nossa presidente. Imagino que a vaia colossal que recebeu no estádio lotado deve ter doído fundo na sua alma e a incomodado profundamente. Bem sei que as tais vicissitudes do cargo não são fáceis de enfrentar e que ela deve estar metida até os cabelos num emaranhado de compromissos inconfessáveis, pressionada por interesses da pior espécie e cercada de pessoas das quais eu não compraria um carro usado.
Ontem, durante a abertura da exposição comemorativa do centenário de Rubem Braga, no Museu da Língua Portuguesa, aqui em São Paulo, soube que Dilma havia desfraldado a bandeira da Assembléia Constituinte em cadeia nacional. Imediatamente propus um brinde para comemorar o seu gesto, que veio acompanhado do anúncio de um pacto com governadores e prefeitos de todo o país em favor do atendimento dos principais pleitos dos manifestantes e de muita gente que ficou
em casa. É bem provável que a sua atitude acalme o clamor vindo das ruas, mas tenho certeza de que ela sabe que as pessoas estarão atentas, aguardando a efetivação de suas promessas, prontas para voltarem a manifestar com contundência as suas críticas e demandas.
Por via das dúvidas, assinei agora há pouco uma petição lançada por duas entidades que respeito e uma outra que desconheço, em favor de eleições limpas, que livrem o país da sanha de políticos profissionais e imprestáveis que ocupam plenários e gabinetes por este país afora. Dito isso, vou tratar de procurar saber em mais detalhes o que andou acontecendo na Islândia nessa direção.
São Paulo, 25 de junho de 2013
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
