Nocaute, derrocada e solidão

Nocaute, derrocada e solidão

Escrevo sempre no começo da semana para que o jornal consiga publicar a crônica na edição de sexta feira. Se o tema é atemporal isso não constitui um problema, mas quando escrevo sobre assuntos que estão na pauta do dia, mobilizando muita gente, corro o risco de pecar no quesito atualidade. Sobretudo quando os fatos acontecem e se desdobram em ritmo frenético, acelerados pela pressão dos interesses e das convicções, como os dessas últimas semanas.

De uma hora para outra, o que parecia líquido e certo virou gasoso e volátil, a começar pela reeleição da nossa presidente, que parece começar a fazer água e a inquietar muita gente que estava tranquila e segura. A queda brusca e expressiva nos níveis de sua aceitação popular, aferidos pelos institutos de pesquisa, é algo inesperado até poucos dias. Se eles continuarem caindo, a coisa pode se complicar de vez, gerando uma debandada do salve-se quem puder. Sou dos que acreditam que as tentativas da presidente, de se posicionar positivamente diante do clamor das ruas, não deram tão certo como pretendiam os seus gurus e marqueteiros de plantão. Deixaram a presidente em situação ainda mais incômoda e vulnerável. Ficou mais do que patente a sua dificuldade em lidar com os políticos, que de cinismo todos têm bastante e de esperteza e auto-estima, todos têm em doses cavalares. Corre à boca miúda que os que participam das reuniões palacianas reclamam das suas atitudes autoritárias e que deputados e senadores da base aliada já prometem dar o troco na hora certa.

Quem não se lembra das expressões de desconforto e de solidão no rosto de Dilma, durante a solenidade de sua posse no Congresso Nacional? Diante daquele auditório repleto de políticos, ela dava a impressão de saber exatamente o que a esperava. A artificialidade de sua eleição, viabilizada com uso de práticas para eleger postes, não parecia relevante em um mundo cheio de certezas. Agora, com a mudança dos ventos, começa a ficar patente que o seu temperamento e a falta de liderança pessoal se mostram inadequados para o enfrentamento de crises de confiança e de demandas difusas. Como era de se esperar, a nossa presidente não precisa de oposições que atrapalhem seus planos de reeleição, ela mesmo trata de gerar motivos de insatisfações e insegurança entre seus potenciais apoiadores. Os bastidores da política fervem e as piadas se multiplicam. Nunca vi tanta gente conversando de forma serena e convicta sobre o que está precisando melhorar. A indignação coletiva é motriz de mudanças relevantes.

Imagino que daqui pra frente conviveremos com tentativas de abocanhar as insatisfações dos brasileiros com o objetivo de manter as coisas como estão e de tentar assegurar reeleições a todo custo. Pode até ser que consigam algum resultado de imediato, mas entendo que atitudes desesperadas de gurus e partidos podem arrombar a porta do fim de um ciclo. Vive-se o início de um processo de mudanças que apenas vai tomando rumo e ganhar ritmo, com muitos fatos se sucedendo e provocando desdobramentos que fazem pensar e querer agir. A derrota do nosso maior lutador de luta livre parece ter sido fruto de uma trapaça qualquer ou da arrogância pessoal que surge das certezas absolutas. A realidade se impôs de forma demolidora, assim como aconteceu na derrocada da fortuna de um empresário que vendeu sonhos mirabolantes e não os entrega, comprovando que a força do marketing tem limites, sobretudo quando os fundamentos dos objetos e personalidades são frágeis e inconsistentes.

Vitória, 09 de julho de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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