Volta pra casa

Volta pra casa

Os convites vinham sendo feitos há muito tempo. Este ano ficou combinado: o carnaval seria na praia de Manguinhos, mas na que existe na península de Búzios, bem longe da nossa, onde toco meu tamborim. Búzios é lugar de gente rica e de muito bom gosto. A legislação que regula a ocupação do solo e orienta as construções parece estar sendo aplicada com rigor. Pelo que se pode ver, o pessoal da prefeitura tem conseguido minimizar a degradação do verde, evitar a feiura urbana e valorizar o bem estar das pessoas. Dá gosto olhar de longe a paisagem, composta de praias pequenas entre pedras enormes, bem na franja de morros ainda cobertos por mata nativa. Nas lojas e nos restaurantes, tem-se a impressão que Brigite Bardot pode aparecer a qualquer momento, queimada de sol, metida num shortinho branco.

Depois de quatro dias de cerveja gelada, comida gostosa e conversa fiada na beira do mar, resolvemos evitar o tráfego pesado da BR101 e voltar por uma estrada que começa ao sul de Campos e sai varando plantações de cana, abacaxi e mandioca. Muitas biroscas com produtos da região: frutas, goiabada cascão, doce de leite, chuvisco e biscoito de polvilho, que parece ser uma tradição por ali. Comprei seis abacaxis por cinco reais e me arrependi de não ter trazido mais. Isso, já bem perto da divisa, chegando em Barra de Itabapoana, lugar de atividade pesqueira intensa, a tirar pelos muitos barcos ancorados no rio e pela quantidade de gente consertando rede nas varandas coladas na calçada.

Entrando no ES, o primeiro quilometro da Rodovia do Sol é percorrido em estrada de barro, como que querendo marcar posição. No vasto descampado, pequenas tabuletas com a logomarca da empresa que pretende construir um megaprojeto em terra firme e um porto mar a dentro. Outras tantas oferecem áreas e lotes, atestando que tem gente interessada em tirar casquinha no progresso bruto, do tipo enclave, que deverá chegar em breve. Não há qualquer sinal da aplicação da dinheirama dos royalties do petróleo que chega na região.

O asfalto segue longe do mar até perto da Ponta do Siri, onde pretendíamos fazer uma parada técnica para esticar as pernas, tomar uma água e ir ao banheiro. Não deu. Impossível encontrar lugar para estacionar. O jeito foi passar direto, sem ao menos saber se o restaurante de Magnólia ainda existe. Muitas e muitas vezes estivemos ali a bordo do ônibus-trailer da família. Peroá frita com cerveja, banho nas águas escuras da Lagoa do Siri, pescarias de barbudinhos no mar, meninada solta na areia da praia e muita conversa mole com os maratimbas donos da terra, dos bares e dos coqueiros.

A estrada até Marataízes segue por cima das falésias até encontrar a que vem da Safra, bem no ponto onde os meninos de Cachoeiro disputavam quem via o mar primeiro. Marataízes está irreconhecível. O aterro pode ter acabado com os problemas da erosão da Avenida Beira-mar ao levar o mar lá pra longe, mas mudou radicalmente a paisagem bucólica que existia ali. Lembrei-me do som dos tamancos batendo no cimento das calçadas do vilarejo que meu avô ajudou a fundar. Foi-se o tempo.

Dali até a ponte sobre o Rio Itapemirim, o trânsito não aceitava pressa. Paramos em um posto de gasolina depois de atravessar Itaipava e Itaoca em fila indiana lentíssima. Pior, mesmo, foi enfrentar o engarrafamento radical que começava ao sul de Piuma e se estendia até o centro de Anchieta, onde os ônibus param no meio da rua para pegar e soltar passageiros, com seus maleiros abertos, tranquilamente, como sempre o fizeram.

Vitória, 18 de fevereiro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

De carona

De carona

Já não chovia desde o começo de dezembro. Sei disso porque a grama amarelou, de tão ressecada que a terra estava. Molhar planta virou atividade obrigatória, tanto quanto a de varrer o danado do pó preto. E eu precisando de chuva para poder avaliar a eficiência da calha que instalamos no telhado da varanda, ao lado da casa. Fizemos tudo conforme as instruções do fabricante, mas ainda não tinha sido possível testá-la. A onda de calor já havia passado, mas água que é bom, nem pensar.

Finalmente, no fim da tarde de quinta feira passada parecia que o céu ia desabar nas nossas cabeças, como gostam de dizer os amigos de Obelix, o gaulês das histórias em quadrinhos. No caminho de casa, dava pra ver o Mestre Alvaro envolto em uma grossa camada de nuvens cinza escuro, ameaçadoras. A visão do lado do mar não era nada diferente: uma tempestade se formara sobre os navios fundeados lá fora e avançava em direção à terra. Os primeiros pingos grossos já começavam a cair quando avistei um grupo de pessoas caminhando rápido, tentando escapar do aguaceiro que vinha vindo. Uma mulher de uns vinte e poucos anos, seguida por três crianças já taludinhas, carregava um recém-nascido no colo. Mais adiante, uma senhora, que poderia ser avó das crianças, andava meio curvada pra frente, com a bolsa protegendo o penteado. Estavam vestidas pra festa.

Ao imaginar aquelas pessoas totalmente encharcadas, tratei de parar o carro, abrir o vidro e oferecer carona. Fiz isso certo de que a expressão do meu rosto demonstrava a boa intenção de um homem de certa idade e de barbas brancas se oferecendo para levá-las, secas, até um lugar seguro. Sou do tempo em que dar carona era ato corriqueiro, generoso e bem vindo. Os carros eram poucos e os seus proprietários quase sempre conhecidos.

No fim dos anos 60, de mochila nas costas, eu e um grande amigo conseguimos chegar a Marataízes em poucas horas, com apenas três caronas. A primeira, do posto da Polícia Rodoviária até Iconha, na boleia de um caminhão Mercedinha, ouvindo histórias de pescaria; seguimos até Safra no conforto de um Aero Willis novinho, conversando sobre aventuras; de lá até a beira do mar fomos sentados na carroceria de uma caminhonete Ford F100, trepidando nas costeletas e respirando a poeira da estrada de barro. Estudante na Ilha do Fundão, no Rio, voltar pra casa era sempre penoso e uma carona, a salvação. Havia até quem mostrasse tabuleta indicando o destino pretendido. Em João Pessoa, sempre dava ponga no carro oficial. Tadeu, o motorista, já ia parando quando avistava aluno da universidade nos pontos de ônibus.

Como deve acontecer com muita gente, faz um bom tempo que parei de oferecer carona para desconhecidos, sobretudo para mulheres e crianças. Isso, apesar de continuar tendo dó de quem caminha sob sol escaldante, de quem volta da escola no escuro das noites ou que ande apressado para fugir de um toró. É que, das últimas vezes que o fiz, passei desconforto por ter provocado emoções de pavor e repúdio. As recusas me fizeram pensar que o gesto é confundido com assalto, tentativa de sequestro ou outros crimes do gênero.

Naquela tarde, por todas as circunstâncias, achei que a minha oferta de carona seria muito bem aceita. Quem dera. A recusa me foi dada pela mulher mais nova com expressão de medo estampada no rosto, apertando a criança contra seu corpo e fazendo sinal para que as três meninas se afastassem dali. De quebra, ainda recebi um olhar fulminante da tal senhora que parecia ser avó das crianças.

Vitória, 21 de Janeiro de 2013

Alvaro Abreu 

Escrita para A GAZETA

O bom velhinho

O bom velhinho!

Não sou daqueles que vão às compras regularmente ou por compulsão. Quando muito, ajudo no abastecimento de frutas, legumes e hortaliças, de preferência, nas feiras livres. Das lojas que vendem ferramentas, parafusos e utensílios de cozinha mantenho distância, por pura precaução. Raramente sou visto comprando camisa ou bermuda, mas sapato, não tem jeito, tenho que ir experimentar. Visto-me com roupas que compram pra mim e que ganho nas festas de aniversário e de fim de ano.

Nos anos 60 era difícil de encontrar roupa pronta em Vitória. Quem podia, ia comprar nos magazines em Copacabana ou nas butiques de Ipanema, no Rio. Aqui, roupa de homem só existia em algumas lojas na Avenida Jerônimo Monteiro, no centro. A saída era comprar os tecidos para calça na casa Huddersfield – que era difícil de pronunciar, mas fácil de encontrar – e os panos para camisa nas Pernambucanas e na Santa Terezinha e, em seguida, entregá-los para algum alfaiate conhecido ou na casa da costureira mais próxima. Nesse tempo, muitas mulheres costuravam pra fora e cansei de ver mães de amigos meus sentadas diante da máquina, fazendo roupa para os filhos.

Por sorte, ao lado da nossa casa morava uma costureira de mão cheia, que vestia muitas senhoras e senhoritas para os casamentos de gente importante e as festas de debutantes, que aconteciam nos clubes da cidade. Dona Antenisca era de origem italiana, dessas bem reforçadas, que falava alto e dava boas gargalhadas quando estava de bom humor. A sala de costura dela ficava nos fundos do terreno e tinha uma janela virada para o nosso lado, que permitia ouvir as broncas frequentes que dava nas suas ajudantes.

Pois saibam que durante muitos anos usei camisas de cambraia de linho feitas por ela, sempre cinco ou seis a cada vez, quando eu vinha passar as férias na cidade. Teve até quem me achasse um sujeito sofisticado por usar aquelas benditas camisas amarrotadas, mal sabendo que dona Antenisca, por ser aparentada com gente da Braspérola, comprava peças dos melhores linhos com um bom desconto, que repassava aos fregueses.

Ela era casada com um simpático nordestino contador de histórias. Aposentado, seu Firmino era chofer de carro de praça e fazia ponto na praça Costa Pereira. Tinha um Dodge verde claro, que mantinha lustroso, cuja placa era 2636. Lembro-me muito bem disso porque deixei de ganhar um bom dinheiro no jogo do bicho por falta de experiência na interpretação de sonhos. É que tendo sonhado com aquele carro enorme vindo, de marcha a ré, na minha direção, tratei de apostar sua placa na milhar. Deu 6362 na cabeça. Invertido, como tão bem indicava a mensagem recebida enquanto dormia. Isso, só fui saber na hora de conferir a pule, pela boca do apontador do jogo, no bar do seu Frontini.

Em plena véspera do Natal, fui desafiado por minhas filhas a fazer o que não fazia há muito tempo: entrar em um shopping inteiramente lotado. Aceitei a provocação ao me lembrar que poderia comer quibe com tabule enquanto elas batiam perna em busca de brinquedos para os netos da casa e de presentes para o Amigo X. Nem bem sentei para comer, dei de cara com o par de olhos arregalados do garotinho de uns três anos que estava na mesa ao lado. Estarrecido, boquiaberto, ele havia parado de mastigar e de piscar. Pensei que ele começaria a chorar imediatamente, como acontece com boa parte das crianças que me vê de perto. Mas não foi o que aconteceu. Do nada, o moleque abriu o maior sorrisão e, apontando para mim, disse pra mãe: Papai Noel, Papai Noel!

Vitória, 07 de Janeiro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Data vênia

Data vênia

Como deve estar acontecendo com muita gente, tenho visto, na rede, comentários de todo tipo sobre o julgamento do mensalão. Alguns expressam satisfação com os resultados já consagrados, outros demonstram discordância com as condenações, denunciando descalabros jurídicos e teses conspiratórias. Chego a crer que tem gente com raiva do STF, preferindo que ele nem existisse. Da minha parte, continuo tentando assistir as sessões para acompanhar o desenrolar dos fatos e poder melhor entender o que ali acontece.

A cada dia admiro mais o presidente Supremo, lamentando que seja obrigado a se aposentar por idade, embora se mostre um homem lúcido, maduro, firme e gentil e em plenas condições de suas faculdades e competências. Por certo, fará falta, assim como o ministro decano, que em breve vai para casa, também por atingir a idade limite.

Nos dias de hoje, homens de setenta anos estão tinindo, como se dizia nos meus tempos de rapaz. Sobretudo se não lhes for exigido empurrar carro, subir ladeira correndo, nadar dois mil metros de arranco. O exercício da magistratura demanda horas de leitura, de reflexão e boa capacidade de escrita. Bom senso, discernimento, experiência, serenidade e autonomia são atributos de um bom magistrado e somente o passar do tempo os traz em boa dose.

Fico torcendo para que as normas que regulam a função de ministro dos nossos tribunais superiores de justiça venham a ser atualizadas em breve, abrindo espaço para a ampliação do prazo de validade de ministro. Dispensar a colaboração de juízes aos setenta anos é algo incompatível com a realidade dos fatos.

Por oportuno, acho que caberia, também, incluir alguma coisa parecida com processo de impeachment de ministros que demonstrassem falta de hombridade e decência no exercício da função de membro das mais elevadas cortes de justiça da nação. Tal qual já existe para cassar o mandato de presidentes, deputados e senadores da República. Ajudaria a inibir condutas e posturas impróprias. Tribunal superior não é lugar para profissional que atue sem a devida ética ou sob suspeita de suas ligações pessoais com o mundo político-criminal. Justiça não se faz por interesse, obrigação ou agradecimentos pessoais.

Impressiona mal ver um ministro empenhado na defesa de réus já condenados, sobretudo a elasticidade que adota na interpretação das leis, a ousadia ao tentar anular provas consagradas, a petulância ao criar uma métrica própria para tentar abrandar penas. Entendo que os excessos de desenvoltura e de convicção no exercício da função de revisor acabaram por gerar reações contundentes em favor da justiça. É animador ver que existem ministros, veteranos e novatos, que se esmeram em reafirmar a legalidade das provas, em apresentar corretamente o teor de súmulas validadas pela corte, em considerar a real gravidade dos delitos e a quantidade de vezes que foram praticados, possibilitando que o plenário decida apoiado em bons fundamentos.

O que também faz reforçar a oportunidade de se instituir impeachment de ministro é constatar a atuação de magistrados que parecem não possuir estofo pessoal nem sinais de independência quando submetidos a pressões de terceiros. Mesmo pedindo vênia, ministros e ministras não podem se apresentar como atores coadjuvantes, como pau mandado de alguém. As imagens da TV mostram que alguns juízes da suprema corte já não mais recebem palavras e olhares de respeito ou admiração de seus pares, assim como de muitos brasileiros, telespectadores do mensalão.

Vitória, 29 de Outubro de 2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

No fim do ano

No fim do ano       

O burburinho de que o mundo iria acabar no dia 21 deve ter servido como uma espécie de preparação das reflexões e intenções típicas dos finais de ano. Vi algumas reportagens sobre o assunto, mas nenhuma com consistência capaz de abalar pessoas minimamente equilibradas. Nada parecido com as campanhas promocionais da chegada do Cometa Halley em 1986 e do Bug do Milênio. Bem que tentei ver o Halley de uma praia deserta, mas ainda tenho dúvidas se ele realmente estava onde deveria estar naquela noite escura e livre de nuvens e poeiras. Dizem que a previsão de que os computadores endoidariam na virada do século gerou ótimos negócios.

Pra mim, o anúncio do fim do mundo teve a utilidade de me fazer ver que, em 2012, andei escrevendo sobre temas bem variados, alguns ingênuos e outros nem tanto. Os recortes de jornal mostram que falei de doces mineiros que me deram de presente, dos que comia na infância e de comidas nordestinas. Talvez por bairrismo, escrevi sobre uma fruta-pão colhida em árvore filha do centenário pé de fruta-pão que existe no sobrado onde nasci, em Cachoeiro. Falei de gente remando em águas abrigadas e de pescarias ilegais no fundo da baia. Turista amador, contei sobre lugares que conheci no Cariri paraibano e dei pista de onde encontrar bambu preto e linguiça caseira, lá na região de montanha.

Em função de emoções que me mobilizaram, falei de uma exposição que fiz em São Paulo e de um livro alemão sobre as colheres de bambu que eu faço. Contei de um belo show sobre Tim Maia e me lembrei dos carnavais de rua que frequentei como um folião desgarrado e do de Manguinhos, quando toco tamborim. Consumidor birrento que sou, contei do velho micro-ondas que conseguimos consertar em casa com a ajuda da internet. Frágil como qualquer um, falei da labirintite que me ataca com alguma frequência e também das estratégias de sobrevivência que adoto em festas barulhentas, em função das dificuldades que tenho com som alto.

Cidadão indignado, reclamei da dinheirama que o governo gasta pagando juros da dívida pública com o que tira do bolso dos brasileiros com impostos pesados. Critiquei campanhas publicitárias que supervalorizam projetos potenciais e iniciativas de governo, gerando falsas expectativas de renda, para aumentar o consumo, sobretudo de apartamentos e salas comerciais. Na contramão desse processo, falei de um livro sobre o Brasil, escrito por um amigo, mostrando que nossos problemas vêm de longa data e propondo providências para tentar melhorá-lo. Revivi neste espaço a origem da feira de mármore, que ajudei a criar.

Falei de eleições municipais deste ano com certa tristeza e das esperanças que vi brotar do pleito de 1974, quando a oposição elegeu a maioria dos senadores da República. Aproveitei para comentar um livro sobre o movimento estudantil em Brasília, escrito por um dos seus líderes. Sobre o julgamento do Mensalão, tratei das dúvidas quanto ao seu tão esperado começo, dos embates entre ministros, da inacreditável condenação de homens poderosos e, mais do que tudo, dos seus impactos na alma de muita gente.

Morador de Vitória desde 1958, falei da Praia do Canto sem prédios, reclamei com veemência do pó preto que suja tudo e, mais recentemente, ponderei sobre a oportunidade de estudar com calma uma proposta de ocupação de uma das últimas áreas livres disponíveis na cidade. Falei também da relação entre Niemeyer e o Espírito Santo, em função de uma simples especificação de material de construção. Faço fé que assunto pra crônica não me faltará em 2013.

Vitória, 24 de dezembro de 2012.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Das curvas e das pedras

Das curvas e das pedras

Que eu saiba, aqui no Espírito Santo não tem nem uma obra projetada por Oscar Niemeyer. Nem uma igrejinha, sequer. Quando muito, foram feitas algumas tentativas. Vi nos jornais que ele esteve aqui em Vitória, em 1980, para apresentar a maquete da sede da Assembleia, que poderia ter sido construída na Enseada do Suá. Vi também o croquis de um memorial para ser erguido no centro de uma rotatória, no bairro de Laranjeiras, que ele fez para a Prefeitura da Serra. Sei que andaram pensando em convidá-lo para projetar o prédio central do Parque Tecnológico de Vitória, mas acho que isso não foi pra frente.

É bem provável que Niemeyer jamais tenha vindo ao estado para desfrutar das areias monazíticas de Guarapari, ver a produção de panela de barro em Goiabeiras, balançar o corpo ao ritmo do congo da Barra do Jucu ou comer moqueca de pitu em São Mateus. Acho que ele teria gostado de conhecer os pontões de Pancas e de ver de longe o Frade e a Freira, bem como o perfil da Pedra do Lagarto. Por certo, ele acharia graça da forma ereta do Itabira, em Cachoeiro. Torço para que algum deputado tenha se lembrado de levá-lo para almoçar na varanda do Iate Clube, de modo que ele pudesse contemplar, com calma, aquela pequena enseada de mar liso com o Convento e o morro do Moreno ao fundo.

Conheci aqui em Vitória dois arquitetos recifenses que trabalharam com Niemeyer no Rio de Janeiro. Imagino que, ao saberem da sua morte, eles tenham ficado se olhando em silêncio profundo, tentando se lembrar do que aprenderam com aquela pessoa de ideias brilhantes, voz mansa e olhos atentos, que falava sempre sobre os direitos dos homens, a beleza das curvas e o poder mágico do trabalho. É bem provável que eles tenham refletido sobre a oportunidade que a vida lhes deu, de poder conviver com um profissional que, por acreditar em possibilidades remotas, exercitava a criação com ousadia e leveza.

Da minha parte, gosto de atribuir a Niemeyer um empurrão definitivo no processo de desenvolvimento da indústria capixaba de mármore e granito, mesmo que o possa ter dado de forma involuntária, com um simples ato de vontade, próprio aos arquitetos. Foi ele quem especificou que os prédios do Congresso Nacional e os palácios do Planalto e do Alvorada deveriam ser revestidos com mármore branco. Percebendo nisso uma oportunidade de bons negócios, marmoristas cariocas se associaram a pequenos mineradores capixabas para intensificar a extração de blocos de mármore que era feita em Prosperidade, um distrito de Vargem Alta, na única reserva de mármore branco conhecida no Brasil naquela época – fins dos anos 1950. Foi assim que eles conseguiram atender as encomendas que não paravam de chegar lá do Planalto Central. Luiz Scaramussa, um dos pioneiros, contava essa história em detalhes, sempre com brilho nos olhos.

Em meados de 2005, refletindo sobre as consequências dos pequenos gestos e sobre a força do acaso na vida das pessoas, fui fazendo uma colher de bambu para dar àquele homem, como uma espécie de troféu de honra ao mérito. É uma peça esguia, de uns setenta centímetros, feita a partir de um pedaço de bambu escuro, bem velho, tirado de uma touceira enorme que existia na estrada que atravessa Vargem Alta. Tenho uma certa dó de não ter conseguido providenciar a entrega da colher e de não ter lhe falado das suposições que faço sobre os impactos de suas escolhas na vida de muitos capixabas. É muito difícil imaginar Cachoeiro sem a indústria das pedras. Tanto quanto Brasília sem as obras de Niemeyer.

Vitória, 10 de dezembro de 2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Ainda sobre a ocupaç╞o da ZEE8

Ainda sobre a ocupação da ZEE8

Estive na audiência pública convocada pela Prefeitura de Vitória para conhecer uma proposta de ocupação e uso da ZEE-8, região onde está localizado o Shopping Vitória. Era uma das etapas obrigatórias do processo de avaliação das intenções, explícitas e implícitas, dos proponentes. A lei obriga que sejam ouvidos outros interessados no que possa vir a acontecer naquela região da cidade. É democrática nas intenções, embora nada garanta que as opiniões sejam levadas em consideração nas decisões. É justamente aí que mora o perigo, já que havia até cronograma prevendo que tudo fosse aprovado até o fim deste ano, sem muito alvoroço. Trata-se de uma proposta de dimensões muito significativas, conhecida de perto por pouquíssimas pessoas.

O assunto havia fervido e pipocado nas redes sociais. O cinema estava lotado de gente nova e de gente madura nas cadeiras, no chão e na entrada. Todos atentos, incluindo os que ali estavam por determinação superior, para fazer número e bater palmas. Ainda que com o sorriso tão amarelo quanto o da vendedora bonitinha que estava ao meu lado.

Pelas conversas no saguão do cinema e pelas intervenções dos participantes em plenário, ficou patente que existe muita gente que não concorda com a iniciativa de implantar, em um dos últimos espaços livres existentes na cidade, um enorme paquiderme de vidro e concreto armado à beira mar. Visto de cima, um imenso telhado cinza, complementado por umas poucas manchas verdes. Isso mesmo, o projeto prevê algumas áreas verdes colocadas a mais de trinta metros do nível do mar, visíveis apenas da ponte ou da janela dos aviões de carreira e dos helicópteros petrolíferos.

Os impactos do empreendimento no trânsito na região do aterro foram mais uma vez minimizados e os investimentos em eventuais soluções atribuídos aos cofres públicos. A impressão que ficou é a de que se está pretendendo adotar, mais uma vez, a velha prática de privatizar os lucros e distribuir as perdas e os custos entre os cidadãos desavisados. As ponderações, feitas sob encomenda, por autoridade estadual especializada em assuntos de mobilidade, irritaram bastante os presentes e a proposta de construir um mergulhão provocou uma sonora gargalhada coletiva. Sensato e estratégico, um participante propôs que a apreciação do projeto fosse feita somente após finalizada a adequação da infraestrutura viária da região.

Ouviu-se, de viva voz, o argumento central dos empreendedores: expandir para garantir a competitividade do negócio; como se já não bastasse o Shopping estar situado no lugar mais visível e acessível da cidade, o que lhe garante um incomparável e permanente “diferencial” competitivo. Na contramão de tais expectativas, houve quem sugerisse, com seriedade e convicção, que a área livre fosse doada à cidade, para transformá-la em um belo parque, com uma grande área de lazer integrada ao restante da orla, dotado de estacionamento no subsolo e tudo o mais, como bem imaginou uma arquiteta risonha. A proposta tirou o sorriso de membros da mesa e mereceu salva de palmas ensurdecedora de quem estava na plateia.

O que me deixa animado é saber que pelo menos oito entidades e associações de moradores protocolaram na Prefeitura de Vitória pedidos bem fundamentados de anulação formal da audiência pública, para interromper preventivamente o processo de apreciação em andamento e, sobretudo, garantir a realização de estudos que informem os reais impactos da proposta completa de empreendimento apresentada na audiência. Que se instale e prevaleça o bom senso.

Vitória, 26 de novembro de 2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Calma, gente!

Calma, gente!

Parece que a indústria imobiliária utiliza táticas de guerrilha para avançar na ocupação do reduzido solo do município. A cada dia um empreendimento novo, a cada tapume, um susto.

Anos atrás, a construção de um hotel enorme roubou a visão do mar dos moradores de uma rua inteira: o empreendedor não pagou por ela, mas a incorporou no valor das diárias. O que era uma chácara repleta de mangueiras antigas deu lugar a edifícios de apartamentos caríssimos. A sede da estatal ocupou um alto de morro a contra gosto de quase todos os moradores do bairro.

Há uns sete anos, conversando em mesa de bar sobre o futuro de Vitória, eu, Arlindo Vilaschi e Nena B, escaldados com esse tipo de coisa, resolvemos pedir audiência ao secretário responsável pelo desenvolvimento do município. Com alma de escoteiro, sugerimos que a Prefeitura lançasse um certame para recolher ideias para o melhor aproveitamento da região no entorno do Shopping Vitória, uma das poucas áreas livres disponíveis na cidade. Um lugar único em meio a paisagens preciosas: a bucólica baía entre as ilhas, a movimentada entrada do canal, o simpático Morro do Moreno e o Convento da Penha, nosso maior monumento.

Quem sabe um museu do mar com aquário, uma boa praça, instalações para eventos, espaço para armar circo e parque de diversões e tudo o mais que propiciasse boas condições de permanência para crianças, jovens e adultos. Um espaço para atividades que fizessem bem ao corpo e à alma. Um lugar para o cidadão comum ficar bestando à sombra, comendo quebra-queixo e pipoca, vendo navios, falando da vida.

Pois na semana passada recebi convite da Prefeitura para uma audiência pública para conhecer uma proposta de ocupação daquela área, que inclui ampliações do shopping até os limites do terreno e a construção de vários prédios de escritórios e de apartamentos e lojas, quase tudo com trinta e dois metros de altura.

Fiquei com preguiça só de pensar no quanto tudo aquilo poderia prejudicar a vida dos que precisam ir e vir pela Avenida Nossa Senhora dos Navegantes, uma via estratégica de escoamento, que já começa a dar sinais de saturação. Isso sem falar dos que tem que cruzá-la diariamente, para ir pra casa, ao cinema ou às compras. Mas confesso que me senti ofendido, na minha inteligência e na minha boa fé, ao ler o que está escrito a esse respeito, no documento do projeto: “… grande parte desse trânsito é causado por moradores de fora da cidade de Vitória, que acabam (sic) se transformando em um “corredor de passagem” devido a sua localização geográfica entre as demais cidades que compõem a Região Metropolitana. Na medida em (elas) que vão se desenvolvendo, … a tendência é que esse trânsito diminua, …”. Chegou a doer.

Por se tratar de construções enormes e, sobretudo, irreversíveis, é obrigatório dimensionar todos os seus potenciais de impacto no funcionamento futuro da região metropolitana. É trabalho para ser conduzido com máximo rigor técnico, muito bom senso e total isenção e que seus resultados sejam avaliados em audiências públicas específicas, sem açodamentos, livres de más influências. Já bastam os incômodos perpétuos gerados pelas usinas siderúrgica e de pelotização, implantadas em local inadequado.
 
Pedindo vênia aos interessados diretos e indiretos no projeto, declaro defender, com unhas e dentes, que o assunto seja tratado pela equipe que tomará posse da Prefeitura de Vitória em janeiro que vem, eleita para cuidar do futuro da cidade na qual viveremos. Entendo que a equipe atual, derrotada nas eleições, já faz parte do passado.

Vitória, 11 de Novembro de 2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Pertinho de casa

Pertinho de casa

Parece que tudo começou com um desentendimento entre dois homens poderosos. Um bem mais importante do que o outro, do que todos os demais. Isso é o que se dizia na época. Sabe-se que corria negociação de apoio político visando garantir maioria na câmara dos deputados ao partido do presidente que acabara de ser eleito com votação expressiva. Era indispensável contar com uma base parlamentar que assegurasse tranquilidade ao novo governo.

Até hoje não fiquei sabendo dos motivos da discórdia tão explosiva, mas bem posso imaginar: de um lado, alguém querendo receber mais, muito mais, pelo que estava vendendo e, do outro, o dono da situação querendo pagar pouco para não reconhecer importância. Por certo, as discussões vararam noites, com desacatos e impropérios de todo tipo. Torço para que as mães não tenham sido ofendidas. Briga entre prepotentes não é lugar para genitora nenhuma entrar.

O que se viu na TV foi briga de cachorro grande, transmitida ao vivo de uma sala repleta de políticos, repórteres e muitos mais. De dedo em riste, com palavras medidas e frases estudadas, um deputado ressentido denunciava um ministro chefe e o desafiava cara a cara, exatamente como havia anunciado pela imprensa, dias antes. Dizia que poderoso era ele, que tinha coragem de enfrentar o homem forte do governo, mais forte do que o próprio presidente.

O homem que dizia controlar tudo o que acontecia no planalto olhava seu desafiante com raiva contida, com cara do tipo eu te pego na esquina. Não conseguiu. Perdeu o cargo e logo depois o mandato parlamentar. A cassação do ex-ministro deve ter provocado lágrimas, mas muita gente bateu palma. Tem quem acredite que o presidente teria gostado de ganhar mais liberdade para poder agir a seu modo e critério.

A maioria dos que acompanhavam a política acreditavam que os envolvidos no esquema de compra de votos não seriam processados. A história da república fundamentava os entendimentos. Mas, por mais improvável que pudesse parecer, abriu-se uma denúncia, apuraram os fatos, comprovaram os crimes, identificaram os suspeitos e mandaram tudo para a justiça. Novamente a descrença se estabeleceu: pode até ter processo, mas não vai dar em nada. Aqui, a turma de colarinho branco não vai para a cadeia.

Deu zebra. Sete anos depois, o julgamento entrou no ar, também ao vivo. O relator dividiu o processo em fatias, preparou terreno e foi lendo acusações e provas, mostrando suas opiniões e certezas, fechando o cerco e chamando à responsabilidade.

A cada voto uma surpresa, até atingir a maioria, quase sempre absoluta em todas as votações. Foi assim crime a crime, réu a réu, até fazer ministro experiente defender os acusados mais destacados com a veemência e as estratégias próprias dos advogados de defesa de grandes contraventores. Mesmo blefando ao tentar desqualificar provas relevantes e ao constranger os colegas da corte, foi derrotado por tudo o que constava nos autos e também pela aplicação da doutrina do domínio dos fatos, pois era notório que o mais poderoso de todos sabia de tudo, agia com total desenvoltura e comandava o esquema com mão de ferro.

Falta pouco para terminar o julgamento. As conversas, que no começo eram sobre a existência ou não de crimes e culpados, agora se concentram na impossibilidade de apelação, nos critérios de cálculo das penas de cada réu e na definição da prisão onde os condenados cumprirão as punições. Já tem advogado defendendo que cada qual fique preso perto da respectiva família, para facilitar as visitas. É bem razoável.

Vitória, 14.10.2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Festas de casamento

Festas de casamento

Na semana passada fui, de terno e gravata, a uma festa de casamento de uma grande amiga de um dos nossos filhos, que frequentou a nossa casa durante muitos e muitos anos, durante o tempo de escola. Na ida e na volta da praia, em festas de aniversário e, vez por outra, em churrasco animado, movido a cerveja.

Não tinha como deixar de ir. Não é que não goste de festa nem que tivesse alguma coisa contra aquela união. Pelo contrário, gosto muito de dançar e o noivo era filho de amigo de longa data. Além do mais, festa é lugar para encontrar pessoas que já não se vê faz tempo. O inchaço da cidade dificultou os encontros casuais nas calçadas, por onde já não se anda, e na praia, que já não se frequenta. Circula-se de carro entre uma garagem e outra, sempre com os vidros escuros e inteiramente fechados. De uns anos pra cá, raramente vejo uma cara conhecida ao entrar num restaurante.

O que me incomoda, e muito, é o som alto. Música em festa de casamento é sempre muito contundente, a ponto de fazer tudo tremer, como um bate-estaca. Tenho uma perda auditiva razoável, uma grande restrição à minha sobrevivência em ambientes sonoramente agressivos. Prevalecendo o som mais alto, fica difícil entender o que as pessoas estão dizendo. E isso pode ser extremamente perigoso para as amizades. Em lugares barulhentos, o surdinho consegue, quando muito, identificar o assunto da conversa. Mesmo usando aparelhos de surdez corre o risco de parecer pouco interessado no que lhe esteja sendo dito, de dar a impressão de ter ficado metido a besta e até de estar meio maluco, ao dar uma resposta totalmente sem sentido.

Por prudência, ocupamos uma mesa bem distante da pista de dança e, com o apoio da vizinhança, desligou-se a caixa de som que havia ali por perto. Embora tenha sido um alívio para os ouvidos, não foi suficiente para que pudesse conversar direito com um simpático casal que dividiu a mesa conosco. Consegui saber que o marido plantava eucalipto no sul da Bahia e que adorava pescar robalo, mas não deu para conhecer detalhes do negócio nem para saber qual a isca que ele usa para enganar os peixes.

Aprendi, na prática, que as primeiras desculpas por não ter entendido o que foi dito são aceitas de pronto e que pedir para repetir a primeira ou a última palavra da frase funciona razoavelmente. Sei também que levar a orelha para perto do interlocutor pode ajudar a ouvir melhor, embora impeça o uso do olhar e denuncie surdez em estado avançado. Um abraço efusivo e a demonstração de alegria pelo encontro pode garantir a interação por alguns instantes, mas o que sustenta mesmo a comunicação é a consistência das perguntas e a precisão das respostas. O whisky pode, em boa dose, ajudar a relativizar o peso de algumas frases sem sentido, mas o melhor mesmo é dar mais um abraço e inventar uma boa desculpa para interromper a conversa, antes que a má impressão se instale na alma do seu amigo.

Mesmo com som alto, a festa estava ótima, com os noivos dançando o tempo inteiro, animadíssimos. O serviço estava perfeito, profissional: bebida farta e honesta, canapés finíssimos, variados e na temperatura adequada, como se espera dos cerimoniais de primeira linha. Aquela fartura toda e a movimentação dos garçons me fez lembrar de uma festa de casamento no início dos anos setenta, que fora anunciada com grande insistência pelos colunistas sociais da cidade como o acontecimento do ano. Dentro dos melhores padrões da época, tudo o que serviram aos convidados de pé no pátio de um colégio foi bolo com guaraná.

Vitória, 01 de outubro de 2012

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA