Volta pra casa

Volta pra casa

Os convites vinham sendo feitos há muito tempo. Este ano ficou combinado: o carnaval seria na praia de Manguinhos, mas na que existe na península de Búzios, bem longe da nossa, onde toco meu tamborim. Búzios é lugar de gente rica e de muito bom gosto. A legislação que regula a ocupação do solo e orienta as construções parece estar sendo aplicada com rigor. Pelo que se pode ver, o pessoal da prefeitura tem conseguido minimizar a degradação do verde, evitar a feiura urbana e valorizar o bem estar das pessoas. Dá gosto olhar de longe a paisagem, composta de praias pequenas entre pedras enormes, bem na franja de morros ainda cobertos por mata nativa. Nas lojas e nos restaurantes, tem-se a impressão que Brigite Bardot pode aparecer a qualquer momento, queimada de sol, metida num shortinho branco.

Depois de quatro dias de cerveja gelada, comida gostosa e conversa fiada na beira do mar, resolvemos evitar o tráfego pesado da BR101 e voltar por uma estrada que começa ao sul de Campos e sai varando plantações de cana, abacaxi e mandioca. Muitas biroscas com produtos da região: frutas, goiabada cascão, doce de leite, chuvisco e biscoito de polvilho, que parece ser uma tradição por ali. Comprei seis abacaxis por cinco reais e me arrependi de não ter trazido mais. Isso, já bem perto da divisa, chegando em Barra de Itabapoana, lugar de atividade pesqueira intensa, a tirar pelos muitos barcos ancorados no rio e pela quantidade de gente consertando rede nas varandas coladas na calçada.

Entrando no ES, o primeiro quilometro da Rodovia do Sol é percorrido em estrada de barro, como que querendo marcar posição. No vasto descampado, pequenas tabuletas com a logomarca da empresa que pretende construir um megaprojeto em terra firme e um porto mar a dentro. Outras tantas oferecem áreas e lotes, atestando que tem gente interessada em tirar casquinha no progresso bruto, do tipo enclave, que deverá chegar em breve. Não há qualquer sinal da aplicação da dinheirama dos royalties do petróleo que chega na região.

O asfalto segue longe do mar até perto da Ponta do Siri, onde pretendíamos fazer uma parada técnica para esticar as pernas, tomar uma água e ir ao banheiro. Não deu. Impossível encontrar lugar para estacionar. O jeito foi passar direto, sem ao menos saber se o restaurante de Magnólia ainda existe. Muitas e muitas vezes estivemos ali a bordo do ônibus-trailer da família. Peroá frita com cerveja, banho nas águas escuras da Lagoa do Siri, pescarias de barbudinhos no mar, meninada solta na areia da praia e muita conversa mole com os maratimbas donos da terra, dos bares e dos coqueiros.

A estrada até Marataízes segue por cima das falésias até encontrar a que vem da Safra, bem no ponto onde os meninos de Cachoeiro disputavam quem via o mar primeiro. Marataízes está irreconhecível. O aterro pode ter acabado com os problemas da erosão da Avenida Beira-mar ao levar o mar lá pra longe, mas mudou radicalmente a paisagem bucólica que existia ali. Lembrei-me do som dos tamancos batendo no cimento das calçadas do vilarejo que meu avô ajudou a fundar. Foi-se o tempo.

Dali até a ponte sobre o Rio Itapemirim, o trânsito não aceitava pressa. Paramos em um posto de gasolina depois de atravessar Itaipava e Itaoca em fila indiana lentíssima. Pior, mesmo, foi enfrentar o engarrafamento radical que começava ao sul de Piuma e se estendia até o centro de Anchieta, onde os ônibus param no meio da rua para pegar e soltar passageiros, com seus maleiros abertos, tranquilamente, como sempre o fizeram.

Vitória, 18 de fevereiro de 2013

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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