Calma, gente!

Calma, gente!

Parece que a indústria imobiliária utiliza táticas de guerrilha para avançar na ocupação do reduzido solo do município. A cada dia um empreendimento novo, a cada tapume, um susto.

Anos atrás, a construção de um hotel enorme roubou a visão do mar dos moradores de uma rua inteira: o empreendedor não pagou por ela, mas a incorporou no valor das diárias. O que era uma chácara repleta de mangueiras antigas deu lugar a edifícios de apartamentos caríssimos. A sede da estatal ocupou um alto de morro a contra gosto de quase todos os moradores do bairro.

Há uns sete anos, conversando em mesa de bar sobre o futuro de Vitória, eu, Arlindo Vilaschi e Nena B, escaldados com esse tipo de coisa, resolvemos pedir audiência ao secretário responsável pelo desenvolvimento do município. Com alma de escoteiro, sugerimos que a Prefeitura lançasse um certame para recolher ideias para o melhor aproveitamento da região no entorno do Shopping Vitória, uma das poucas áreas livres disponíveis na cidade. Um lugar único em meio a paisagens preciosas: a bucólica baía entre as ilhas, a movimentada entrada do canal, o simpático Morro do Moreno e o Convento da Penha, nosso maior monumento.

Quem sabe um museu do mar com aquário, uma boa praça, instalações para eventos, espaço para armar circo e parque de diversões e tudo o mais que propiciasse boas condições de permanência para crianças, jovens e adultos. Um espaço para atividades que fizessem bem ao corpo e à alma. Um lugar para o cidadão comum ficar bestando à sombra, comendo quebra-queixo e pipoca, vendo navios, falando da vida.

Pois na semana passada recebi convite da Prefeitura para uma audiência pública para conhecer uma proposta de ocupação daquela área, que inclui ampliações do shopping até os limites do terreno e a construção de vários prédios de escritórios e de apartamentos e lojas, quase tudo com trinta e dois metros de altura.

Fiquei com preguiça só de pensar no quanto tudo aquilo poderia prejudicar a vida dos que precisam ir e vir pela Avenida Nossa Senhora dos Navegantes, uma via estratégica de escoamento, que já começa a dar sinais de saturação. Isso sem falar dos que tem que cruzá-la diariamente, para ir pra casa, ao cinema ou às compras. Mas confesso que me senti ofendido, na minha inteligência e na minha boa fé, ao ler o que está escrito a esse respeito, no documento do projeto: “… grande parte desse trânsito é causado por moradores de fora da cidade de Vitória, que acabam (sic) se transformando em um “corredor de passagem” devido a sua localização geográfica entre as demais cidades que compõem a Região Metropolitana. Na medida em (elas) que vão se desenvolvendo, … a tendência é que esse trânsito diminua, …”. Chegou a doer.

Por se tratar de construções enormes e, sobretudo, irreversíveis, é obrigatório dimensionar todos os seus potenciais de impacto no funcionamento futuro da região metropolitana. É trabalho para ser conduzido com máximo rigor técnico, muito bom senso e total isenção e que seus resultados sejam avaliados em audiências públicas específicas, sem açodamentos, livres de más influências. Já bastam os incômodos perpétuos gerados pelas usinas siderúrgica e de pelotização, implantadas em local inadequado.
 
Pedindo vênia aos interessados diretos e indiretos no projeto, declaro defender, com unhas e dentes, que o assunto seja tratado pela equipe que tomará posse da Prefeitura de Vitória em janeiro que vem, eleita para cuidar do futuro da cidade na qual viveremos. Entendo que a equipe atual, derrotada nas eleições, já faz parte do passado.

Vitória, 11 de Novembro de 2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

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