Das curvas e das pedras
Que eu saiba, aqui no Espírito Santo não tem nem uma obra projetada por Oscar Niemeyer. Nem uma igrejinha, sequer. Quando muito, foram feitas algumas tentativas. Vi nos jornais que ele esteve aqui em Vitória, em 1980, para apresentar a maquete da sede da Assembleia, que poderia ter sido construída na Enseada do Suá. Vi também o croquis de um memorial para ser erguido no centro de uma rotatória, no bairro de Laranjeiras, que ele fez para a Prefeitura da Serra. Sei que andaram pensando em convidá-lo para projetar o prédio central do Parque Tecnológico de Vitória, mas acho que isso não foi pra frente.
É bem provável que Niemeyer jamais tenha vindo ao estado para desfrutar das areias monazíticas de Guarapari, ver a produção de panela de barro em Goiabeiras, balançar o corpo ao ritmo do congo da Barra do Jucu ou comer moqueca de pitu em São Mateus. Acho que ele teria gostado de conhecer os pontões de Pancas e de ver de longe o Frade e a Freira, bem como o perfil da Pedra do Lagarto. Por certo, ele acharia graça da forma ereta do Itabira, em Cachoeiro. Torço para que algum deputado tenha se lembrado de levá-lo para almoçar na varanda do Iate Clube, de modo que ele pudesse contemplar, com calma, aquela pequena enseada de mar liso com o Convento e o morro do Moreno ao fundo.
Conheci aqui em Vitória dois arquitetos recifenses que trabalharam com Niemeyer no Rio de Janeiro. Imagino que, ao saberem da sua morte, eles tenham ficado se olhando em silêncio profundo, tentando se lembrar do que aprenderam com aquela pessoa de ideias brilhantes, voz mansa e olhos atentos, que falava sempre sobre os direitos dos homens, a beleza das curvas e o poder mágico do trabalho. É bem provável que eles tenham refletido sobre a oportunidade que a vida lhes deu, de poder conviver com um profissional que, por acreditar em possibilidades remotas, exercitava a criação com ousadia e leveza.
Da minha parte, gosto de atribuir a Niemeyer um empurrão definitivo no processo de desenvolvimento da indústria capixaba de mármore e granito, mesmo que o possa ter dado de forma involuntária, com um simples ato de vontade, próprio aos arquitetos. Foi ele quem especificou que os prédios do Congresso Nacional e os palácios do Planalto e do Alvorada deveriam ser revestidos com mármore branco. Percebendo nisso uma oportunidade de bons negócios, marmoristas cariocas se associaram a pequenos mineradores capixabas para intensificar a extração de blocos de mármore que era feita em Prosperidade, um distrito de Vargem Alta, na única reserva de mármore branco conhecida no Brasil naquela época – fins dos anos 1950. Foi assim que eles conseguiram atender as encomendas que não paravam de chegar lá do Planalto Central. Luiz Scaramussa, um dos pioneiros, contava essa história em detalhes, sempre com brilho nos olhos.
Em meados de 2005, refletindo sobre as consequências dos pequenos gestos e sobre a força do acaso na vida das pessoas, fui fazendo uma colher de bambu para dar àquele homem, como uma espécie de troféu de honra ao mérito. É uma peça esguia, de uns setenta centímetros, feita a partir de um pedaço de bambu escuro, bem velho, tirado de uma touceira enorme que existia na estrada que atravessa Vargem Alta. Tenho uma certa dó de não ter conseguido providenciar a entrega da colher e de não ter lhe falado das suposições que faço sobre os impactos de suas escolhas na vida de muitos capixabas. É muito difícil imaginar Cachoeiro sem a indústria das pedras. Tanto quanto Brasília sem as obras de Niemeyer.
Vitória, 10 de dezembro de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
