No fim do ano

No fim do ano       

O burburinho de que o mundo iria acabar no dia 21 deve ter servido como uma espécie de preparação das reflexões e intenções típicas dos finais de ano. Vi algumas reportagens sobre o assunto, mas nenhuma com consistência capaz de abalar pessoas minimamente equilibradas. Nada parecido com as campanhas promocionais da chegada do Cometa Halley em 1986 e do Bug do Milênio. Bem que tentei ver o Halley de uma praia deserta, mas ainda tenho dúvidas se ele realmente estava onde deveria estar naquela noite escura e livre de nuvens e poeiras. Dizem que a previsão de que os computadores endoidariam na virada do século gerou ótimos negócios.

Pra mim, o anúncio do fim do mundo teve a utilidade de me fazer ver que, em 2012, andei escrevendo sobre temas bem variados, alguns ingênuos e outros nem tanto. Os recortes de jornal mostram que falei de doces mineiros que me deram de presente, dos que comia na infância e de comidas nordestinas. Talvez por bairrismo, escrevi sobre uma fruta-pão colhida em árvore filha do centenário pé de fruta-pão que existe no sobrado onde nasci, em Cachoeiro. Falei de gente remando em águas abrigadas e de pescarias ilegais no fundo da baia. Turista amador, contei sobre lugares que conheci no Cariri paraibano e dei pista de onde encontrar bambu preto e linguiça caseira, lá na região de montanha.

Em função de emoções que me mobilizaram, falei de uma exposição que fiz em São Paulo e de um livro alemão sobre as colheres de bambu que eu faço. Contei de um belo show sobre Tim Maia e me lembrei dos carnavais de rua que frequentei como um folião desgarrado e do de Manguinhos, quando toco tamborim. Consumidor birrento que sou, contei do velho micro-ondas que conseguimos consertar em casa com a ajuda da internet. Frágil como qualquer um, falei da labirintite que me ataca com alguma frequência e também das estratégias de sobrevivência que adoto em festas barulhentas, em função das dificuldades que tenho com som alto.

Cidadão indignado, reclamei da dinheirama que o governo gasta pagando juros da dívida pública com o que tira do bolso dos brasileiros com impostos pesados. Critiquei campanhas publicitárias que supervalorizam projetos potenciais e iniciativas de governo, gerando falsas expectativas de renda, para aumentar o consumo, sobretudo de apartamentos e salas comerciais. Na contramão desse processo, falei de um livro sobre o Brasil, escrito por um amigo, mostrando que nossos problemas vêm de longa data e propondo providências para tentar melhorá-lo. Revivi neste espaço a origem da feira de mármore, que ajudei a criar.

Falei de eleições municipais deste ano com certa tristeza e das esperanças que vi brotar do pleito de 1974, quando a oposição elegeu a maioria dos senadores da República. Aproveitei para comentar um livro sobre o movimento estudantil em Brasília, escrito por um dos seus líderes. Sobre o julgamento do Mensalão, tratei das dúvidas quanto ao seu tão esperado começo, dos embates entre ministros, da inacreditável condenação de homens poderosos e, mais do que tudo, dos seus impactos na alma de muita gente.

Morador de Vitória desde 1958, falei da Praia do Canto sem prédios, reclamei com veemência do pó preto que suja tudo e, mais recentemente, ponderei sobre a oportunidade de estudar com calma uma proposta de ocupação de uma das últimas áreas livres disponíveis na cidade. Falei também da relação entre Niemeyer e o Espírito Santo, em função de uma simples especificação de material de construção. Faço fé que assunto pra crônica não me faltará em 2013.

Vitória, 24 de dezembro de 2012.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *