Viva Joaquim!

Viva Joaquim!

Na semana passada enfrentei uma gripe fortíssima, que começou com uma ardência no céu da boca que subia por trás do nariz, indicando que algo mais grave estava por acontecer. Ela surgiu de uma lufada do ar condicionado que tentava vencer o bafo quente da cabine do carro estacionado sob um sol de meio dia.

Sempre achei que gripe não chega a ser uma doença, sobretudo quando se instala de forma educada e relativamente amistosa. Mas, a depender da intensidade, ela faz do homem um ser totalmente debilitado em suas forças e faculdades e impróprio ao convívio.

Preso em casa, pude assistir ao vivo e a cores, como uma espécie de compensação, mais um capítulo do julgamento do mensalão. Estou ficando cada dia mais animado com o desenrolar desse emocionante seriado nacional baseado em fatos reais, protagonizado por um pequeno e seleto grupo de servidores públicos autorizados a fazer justiça. A sensação que tenho é a de que cada um deles, por suas próprias atitudes e méritos, entrará para a história que está ajudando a produzir. Uma história com intrincado enredo sobre um acerto de contas, pacífico e legal, em favor dos bons valores democráticos.

Começo a acreditar que o que está acontecendo no Supremo Tribunal Federal seja uma daquelas raras situações em que pessoas certas estão no lugar certo, em um dado momento muito especial da vida. Está relativamente fácil perceber, em conversas com amigos, que tem muita gente achando que os resultados desse julgamento poderão fazer brotar confiança onde impera o desencanto com o mundo da política e com os negócios que giram em torno dela. A condenação de pessoas envolvidas em desvio de dinheiro público poderá reduzir a sensação de impunidade que se instalou por aqui, ajudando a recuperar o significado da cidadania e a esperança na justiça.

Infelizmente, não consegui acompanhar por inteiro o voto em que o ministro Joaquim detalhou os esquemas de lavagem dos dinheiros que haviam sido saqueados dos cofres públicos, bem como a participação comprovada de cada um dos empresários denunciados. Mas, na quinta feira, fiquei de olhos grudados na TV por quase seis horas seguidas, conferindo os votos dos demais magistrados, formulados no tom e na exata medida do perfil de cada um.

Confesso que fiquei entusiasmado com tudo o que vi: a contundência da ministra Carmem Lúcia, a oportunidade das palavras do ministro Fux, a clareza do ministro Marco Aurélio, a consistência do voto do ministro Gilmar Mendes, a convicção do ministro Celso, o rigor da ministra Rosa e a serenidade do presidente Ayres Britto na condução dos trabalhos. Fiquei particularmente satisfeito com as reprimendas do ministro relator ao ministro Lewandowski e com os reparos jurídicos do ministro decano aos entendimentos do ministro Tóffoli, alvo também de finas ironias de seus pares.

Devo dizer que cresceu a minha admiração pelo ministro Joaquim. O trabalho consistente que realizou na fundamentação de seu voto tem possibilitado a condenação dos réus por maioria expressiva. Nesta semana ele seguirá na sua função de preparar terreno para a condenação, agora por crimes de corrupção, de mais de vinte pessoas, incluindo políticos, dirigentes partidários e um ex-ministro de estado.

Tomo a liberdade de sugerir aos distintos leitores que não percam os capítulos restantes desse reality show altamente educativo, sobretudo aqueles que estejam precisando urgentemente de um pouco de ânimo. De quebra, vão poder conhecer dez brasileiros que estão prestando relevantes serviços ao país.

Vitória, 16 de Setembro de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Agosto

Agosto

Por incrível que possa parecer, o mes de agosto terminou sem tragédias, desastres ou acontecimentos tristonhos. Posso dizer isso com boa convicção, sobretudo no que me diz respeito mais diretamente. Para falar a verdade, este foi o agosto mais intenso e emocionante dos que vivi. E já vivi muitos deles, como se sabe.

O mes começou com ideias animadoras, formulações criativas e transcorreu com muitas providências. Tudo em sequencia ao que já vinha acontecendo desde o fim de junho. Felizmente a trabalheira terminou em festa animada, ao som de vozes afinadas cantando melodias conhecidas, em noite de lua cheia e, ainda por cima, azul. Um luxo, como gostavam de escrever os cronistas sociais de antigamente.

Setembro, por sua vez, começou com uma manhã ensolarada de ventos moderados vindos do quadrante sul. Nem imagino o que terá acontecido por aí mas, para mim, o primeiro dia do mês chegou em meio a uma forte ressaca emocional e com o olho esquerdo ardendo muito, por alguma razão misteriosa. Mas nada disso foi suficiente para quebrar a animação de um almoço de pouca comida, muitas palavras ditas ao mesmo tempo, trocas de presentes e de gentilezas, acertos de contas pendentes, instruções de viagem e promessas de futuros encontros, em terras estrangeiras.

Abraços e beijos entre quatro brasileiros e três alemães no meio da rua marcaram o encerramento de mais um capítulo de uma longa e bela história que começou há mais de dez anos, bem longe daqui. A precariedade do meu inglês e a nulidade do meu alemão já tinham dificultado bastante as comunicações durante os dias de convivência em São Paulo e aqui, em Vitória. Com a ajuda de parentes e amigos, havia sido possível conversar sobre fatos curiosos, acontecimentos marcantes, providências e emoções relacionadas com a edição e os lançamentos de um livro e com a realização de uma exposição de colheres e fotografias. Ainda que de forma precária, havia sido possível comentar o gosto pelas coisas boas da vida, a alegria de conseguir materializar uma ideia antiga, as muitas coincidências ocorridas, a convergência de propósitos, a ansiedade das esperas, o nervosismo que surge das falhas, as dificuldades de toda ordem e muito mais.

Mas foi sob a forte emoção de uma despedida movida a gestos de carinho e palavras de agradecimento que, mais uma vez, pude comprovar a força da generosidade entre pessoas, mesmo que mal se conheçam, e o formidável poder que emana da determinação do homem em fazer o que gosta. É bom que se saiba que a dor do olho passou tão logo o carro com os amigos alemães dobrou a esquina, a caminho da estrada para as montanhas. Ali, de pé, no meio daquela rua onde morei e joguei bola, me dei conta de que sou um felizardo e que os astros andaram conspirando a meu favor.

Terminada a maratona de eventos, resta agora recolocar a vida no seu curso normal, retomando a rotina do trabalho e dos afazeres domésticos no dia a dia em família. Livre dos riscos e da pressão de compromissos inadiáveis, agora também vai ser possível dedicar mais atenção ao julgamento que está acontecendo no STF, com imagens transmitidas ao vivo, em cadeia nacional.

Na semana passada consegui acompanhar pela TV o voto de três dos seus ministros e a condenação, por grande maioria, do primeiro grupo de acusados por prática de corrupção, peculato e lavagem de dinheiro. O pouco que vi me faz acreditar que serão condenados todos os membros da quadrilha e, contrariando expectativas de incrédulos e desiludidos, também o seu chefe supremo.

Vitória, 02.09.2012  
Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Eleições

Eleições

Estive em São Paulo na semana passada e, como sempre faço, tratei de sondar a opinião dos motoristas de taxi sobre a campanha eleitoral que está começando. A grande maioria deles, e não foram poucos, declarou que iria votar em branco, por pura descrença nos políticos. Lá tem candidato profissional com rejeição enorme, pretendente enfiado goela abaixo de partido, profissional da imprensa que virou político, candidato bom sem qualquer chance e muitos mais.

Como raramente ando de taxi em Vitória, não tenho oportunidade de fazer pesquisa de boca de motorista. Mas estou achando que aqui também tem muita gente indignada com as coisas da política. A eleição ainda está morna por aqui. Até agora, ninguém pediu o meu voto. Nem na feira de Jardim da Penha. A impressão que tenho é que os candidatos estão constrangidos em fazer campanha cara a cara com os eleitores. É bem provável que alguns deles até estejam com vergonha de pedir votos, por receio de serem confundidos com candidatos a membros de esquemas de assalto ao dinheiro público.

Já, já, começa a propaganda eleitoral na TV. Por enquanto, os candidatos só são vistos em adesivos coloridos pregados nos vidros traseiros dos automóveis. A sorte deles é que o aumento da quantidade de carros, a lentidão do trânsito e os engarrafamentos facilitam a visualização da foto e a leitura dos slogans. Os muros, as fachadas e os postes estão livres de cartazes e de pichações dos candidatos. Antigamente, depois das eleições era quase que obrigatório fazer uma grande faxina, inclusive nas rochas situadas em lugar estratégico. Aos poucos fomos ficando civilizados por força da repressão e das multas, como aconteceu com as sociedades mais bem comportadas do planeta.

No começo da semana estive na Biblioteca Pública, na Praia do Suá, para o lançamento de dois livros sobre os anos setenta em Brasília. Anos de chumbo seguidos da chamada abertura lenta, gradual e segura. Antônio Gurgel, o autor, viveu a juventude na capital federal, tendo participado de corpo e alma de movimentos estudantis e da criação de jornais alternativos de grande influência nas atitudes de estudantes, jornalistas e intelectuais da Capital. Foi muito bom poder ouvir histórias daquele tempo, conversar sobre pessoas com quem convivi e relembrar lugares que frequentei. Morei em Brasília por duas vezes: no começo da década de setenta e durante os primeiros sete anos dos oitenta.

Quando lá cheguei em 1973, a cidade estava em plena construção e o pó de barro vermelho imperava. Trabalhava-se com muito empenho no governo, mas sempre de olho nas atitudes e nas opiniões dos colegas. Na cidade, o sentimento de solidariedade entre as pessoas, quase todas muito novas, superava a falta da família e a desconfiança. Brasília era de oposição.

Tenho guardada a emoção de acompanhar pelo rádio do carro, ao lado de um grupo de amigos, a apuração das eleições de 1974. O antigo MDB fez a festa. Elegeu uma grande bancada de deputados e senadores, fazendo tremer os generais de plantão, que trataram de inventar os senadores biônicos para garantir a maioria silenciosa em plenário, sem mensalão, nem nada.

A reação dos jornalistas veio na forma de um bloco de carnaval desfilando na contramão pela Avenida W3, diante da Torre da Televisão, em pleno sol quente. Cravados no seu DNA a irreverência total, o deboche convicto e o compromisso com a esculhambação. Acho que foi no Pacotão que, fantasiado de Palhaço do Planalto, peguei o gosto de tocar tamborim durante o carnaval.   

Vitória. 19.08.2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Oportunidade

Oportunidade

Quando novo, vivi os tempos de euforia do milagre brasileiro, do país grande que vai pra frente, ouvindo uma mensagem impositiva dos poderosos de então: ame-o ou deixe-o. Não havia meio termo nem espaço para contestações. Para completar, o governo militar lançou campanha em favor da saúde do cidadão brasileiro. A mensagem era quase uma ordem: mexa-se.

Na contramão, Gilberto Gil sugeria atitudes e dava outras referências para quem estivesse meio sem rumo: Se oriente, rapaz, pela constelação do Cruzeiro do Sul… pela constatação de que a aranha vive do que tece… Considere, rapaz, a possibilidade de ir pro Japão, num cargueiro do Lloyd lavando o porão, pela curiosidade de ver onde o sol se esconde…Vê se compreende, pela simples razão de que tudo depende de determinação…Determine, rapaz onde vai ser seu curso de pós-graduação…

Hoje, olhando TV, lendo jornais, conversando com gente mais nova, percebo que a vida está sob pressão de mensagens que tentam induzir comportamentos, criar novas necessidades e impor a busca de satisfação pela conquista do sucesso pessoal. Pelo que vejo, a tão criticada Lei do Gerson, que prometia vantagem para quem passasse a consumir os produtos que ele anunciava, foi repaginada para fundamentar discursos políticos e campanhas de marketing.

Tem gente dizendo que agora é a vez do Espírito Santo e fazendo crer que o futuro é nosso. Fico com a sensação de estar vivendo um novo tempo de euforia induzida. Desta vez, são os interesses empresariais que se valem da força de encantamento e convencimento da mídia para preparar ambiente para seus empreendimentos industriais, imobiliários ou comerciais.

Curioso, passei a listar os chavões desse processo que empareda a vida e interfere nas decisões de pessoas e empresas. Na verdade, não são muitos, mas seu uso é intenso e sistemático. Basta prestar atenção nas mensagens alardeando que os diferenciais competitivos do nosso estado potencializam o surgimentos de novos negócios, promovem inclusão social e geram ótimas oportunidades para quem esteja atento e focado.

Relembram diariamente que estão previstos projetos de investimentos colossais nos diferentes segmentos da cadeia produtiva de petróleo e gás, em função da exploração do pré-sal, em especial os de logística e suprimento de plataformas, todos com ótimas expectativas de resultados. Destacam que os portos e mais portos, inclusive com estaleiros, que estão na pauta de investimentos de grandes empresas, proporcionarão qualidade de vida para a população. Embora não sejam sustentáveis nem ecologicamente corretos.

Repetem sistematicamente que as nossas vantagens competitivas farão surgir grande quantidade de novos empregos, aumentando a dinâmica da nossa economia. E que isso garante sucesso para quem tiver competência, souber trabalhar em equipe e tiver espírito empreendedor. Insistem que o crescimento vertiginoso da demanda por profissionais qualificados estimulará a oferta de cursos de graduação e pós-graduação, nas mais diferentes especialidades. Anunciam concursos e inscrições para programas de trainee.

Ainda que a contra gosto, reconhecem que as balas perdidas matam de vergonha e que realmente não são bonitas as nossas estatísticas de assassinatos, assaltos, sequestros relâmpagos e usuários de crack. Mas já tem gente encarando a insegurança da população como um nicho de mercado para negócios e parcerias no segmento de vigilância privada e de sistemas de segurança. Inclusive para os fornecedores locais de tabuletas “sorria, você está sendo filmado”.

Vitória, 23 de Julho de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Espera

Espera

Finalmente recebi o meu exemplar do livro que eu aguardava faz um bom tempo. Ele fora idealizado há exatos dez anos e desenvolvido durante os últimos vinte e poucos meses.

Trata-se de um projeto que surgiu da inspiração repentina que um renomado fotógrafo alemão teve ao ver e tocar algumas das minhas colheres de bambu, durante uma exposição em Munique, na Alemanha. A vontade dele se reacendeu há uns dois anos quando, por força de acasos e muitas coincidências, ele se viu, numa reunião de amigos saudosos, diante das peças que eu havia feito para presentear Pierre Mendell, o grande designer recentemente falecido. Agora, além da vontade, ele tinha uma razão especial para fazer o tal livro: comemorar os seus cinquenta anos de carreira.

Posso dizer que no começo achei curioso saber do interesse de alguém em fazer um livro sobre colheres. Parecia brincadeira. Depois, fiquei sem palavras ao ouvir a tradução da carta escrita à mão, pedindo minha concordância. Adiante, foi a vez da ingenuidade em acreditar que aquele profissional aceitaria fotografar aqui, seguida da coragem em mandar uma mala cheia de colheres, na bagagem de duas filhas animadíssimas, tendo como destino o seu superequipado estúdio, em Hamburgo.

A incredulidade esteve comigo em muitas caminhadas matinais. Bastava considerar as distâncias, o tempo decorrido desde o único e rápido contato pessoal que tivemos, a inesgotável lista de temas que foram preteridos e, sobretudo, os muitos acontecimentos altamente improváveis que marcam essa história. O meu espanto chegou com o anúncio de que aquele homem bancaria os gastos com a realização de um livro com formato ousado, capaz de abrigar fotos de mais de um metro de comprimento. Quando soube que seis especialistas seriam convidados para escrever textos informativos e filosóficos, fiquei envaidecido, me achando, como se diz por aí.

O exemplar de minha filha Bebel, que vive em São Paulo, passou direto pela burocracia e foi entregue poucos dias depois de postado em Berlim. Ela, que havia ajudado a materializar a vontade de uma pessoa que nem conhecíamos, ficou radiante em segurar o livro nas mãos e tentou me mostrá-lo pela internet.

Com a autoridade paterna somada à de interessado direto no que havia sido impresso, tratei de proibir que dissesse palavras ou mostrasse imagens. Preferi viver uma ansiedade plena por mais um ou dois dias e poder sentir as minhas emoções, livres de qualquer influência. Até então elas flutuavam ao sabor das notícias esparsas que chegavam da Europa sobre as providencias e acontecimentos que se sucediam lá. Jamais perguntei sobre datas ou decisões relacionadas com aquela publicação.

A esperança existe. Aqui ela aparecia duas ou três vezes por dia, antes da confirmação de que o livro continuava retido na alfândega, em Campinas. Tive que esperar mais dez dias enquanto o pacote aguardava a liberação. Com tantas negativas, a esperança foi dando lugar à irritação e, em seguida, à descrença, até que a curiosidade venceu o desapontamento. Pedi que me mandassem o exemplar de Bebel e o recebi na sala de embarque do aeroporto do Galeão, onde eu estava a caminho da Paraíba. Certamente foi uma cena inusitada para quem viu um homem barbudo, emocionadíssimo e impactado pela beleza das enormes fotografias de colheres em preto e branco.

Sempre soube, e isso me diverte, que tem gente que adora colheres e que isso pode provocar atitudes surpreendentes. Mas a determinação daquele fotógrafo superava, e com folga, tudo o que eu já tinha visto. Hans Hansen é o nome dele.

Vitória, 09.07.2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Fruta-pão

Fruta-pão

Ganhei um fruta-pão de presente da minha irmã Beatriz. Ela veio trazê-lo pessoalmente. Estava toda orgulhosa e cheia de si, dizendo que tinha acabado de tirá-lo do pé que ela plantou no quintal da sua casa e que está dando a sua primeira carga de frutos. Trata-se de uma árvore de origem bem conhecida, descendente direta que é do pé de fruta-pão centenário do sobrado onde nasci, na Rua 25 de Março, lá em Cachoeiro de Itapemirim, que pode ser considerado como uma espécie de árvore da família.

Quando estive lá, há uns quatro anos, tirei duas mudas já taludas com a ajuda de um facão enferrujado e as trouxe para Vitória enroladas em papel de jornal molhado. Não foi difícil, os brotos nascem nas raízes superficiais, na forma de um pequeno talo, com uma ou duas folhas já bem grandinhas. Aliás, as folhas do fruta-pão, firmes e com suas bordas recortadas, são das mais bonitas que eu conheço. São enormes, podendo chegar a uns sessenta centímetros de comprimento. Quando nascem, são verde claro, puxando para o amarelo. Depois de abertas, ganham cor bem mais escura, um verde próprio, fácil de identificar.

É árvore inconfundível e bonita de se ver. Os galhos não são muitos, mas são bem longos. A quantidade de folhas é relativamente pequena, o que permite vê-la também por dentro. Posso reconhecer um pé de fruta-pão à distância. Sempre que viajo vou procurando por eles e pelas touceiras de bambu. São árvores solitárias e quase sempre estão no quintal das casas, ao alcance dos seus moradores. São de grande utilidade como fonte de alimento. Basta um único fruta-pão para alimentar uma família de muitas bocas. Vi na internet que foi trazida do Sudeste Asiático no século dezoito.

Os seus frutos ficam dependurados na ponta dos galhos, como as bolas das árvores de Natal. São arredondados, grandes e pesados, têm casca caracachenta de um verde desbotado e um cabo grosso que solta um leite branco. Quando ainda está de vez, sua polpa é bem clarinha, sem fibra e de consistência parecida com a da batata doce. Tem gosto suave, aceitando qualquer complemento salgado, sobretudo manteiga, queijo derretido, linguiça e carne ensopada. Mas também pode ajudar a engrossar sopas, participar de cozidos e ser servida frita ou assada. Nestes tempos de fartura, já tem parente meu querendo fazer um bobó, pra experimentar.

A bem da verdade, devo dizer que jamais comprei um fruta-pão sequer e que sempre que os vejo nas bancas de supermercados e hortifrutis, eles me parecem abatidos e meio que encabulados de estarem ali. Já nas feiras livres, eles ficam mais à vontade e viçosos, ao lado das couves e dos brócolis. O aumento do interesse pela culinária poderá fazer com que algum chef amador descubra os segredos do fruta-pão, que pouco frequenta as cozinhas brasileiras.

Posso apostar que muitos sequer experimentaram o seu sabor, mesmo aqueles que são netos e bisnetos de gente do interior, que comia dele diariamente no café da manhã e na ceia, antes de dormir. Fruta-pão é coisa da roça, do tempo em que só ia pra mesa o que havia nas redondezas.

Ao comer o purê que fizemos aqui em casa no sábado pude ouvir um som de infância: o

barulho grave do fruta-pão batendo pesado no telhado de zinco da garagem que construíram bem debaixo dos galhos carregados. Ri novamente ao lembrar do dia em que um deles caiu na cabeça de uma prima que brincava no quintal. A sorte é que o fruta-pão só despenca lá das grimpas quando bem maduro e totalmente esborrachante. E grudento. E ela teve que voltar pra casa de banho tomado e com roupas de Beatriz.

Vitória, 21 de Junho de 2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Bambu e linguiça

Bambu e linguiça

Posso apostar que pouca gente já viu bambu preto. É bem provável que a grande maioria das pessoas sequer tenha ouvido falar que existe bambu preto. Pois saibam que dei de cara com uma touceira deles num sítio em São Paulinho, onde fui procurar por uma linguiça de porco maravilhosa, por recomendação de um amigo que encontrei numa vendinha em Marechal Floriano. A conversa era entre pessoas que saem de casa para comer coisas feitas em casa e no quintal. A informação me fora dada, com uma ponta de orgulho por quem conhece bem a região e confirmada pelo brilho dos olhos de quem fica com água na boca só de pensar no gostinho do tempero.

Só saímos em busca da tal maravilha depois de comer codorna ecológica rodeada de polenta fresca, o mais recente lançamento do restaurante de um conhecido de infância, descendente de quem desbravou a região de Pedra Azul nos anos cinquenta. No caminho, aproveitei para passar em revista a touceira de bambuí que tem logo no início da estrada que liga a BR 262 a Vargem Alta, de onde sempre trago umas varas escolhidas. Pena que, dessa vez, a lua não estava própria para a colheita.

Um pouco mais adiante confirmei que a bela touceira de bambu balde realmente não resistiu ao fogo que usaram para exterminá-la. Não sei das razões de gesto tão tresloucado, já que o maior perigo que o bambuzal pode trazer, sobretudo quando plantado em lugar descampado, é ficar balançando de um lado pro outro quando o vento sopra mais forte. O barulhinho do roçar das folhas é cantiga para ninar marmanjo.

Ainda tenho em casa, guardado com algum cuidado e consumido com parcimônia, o último dos pedaços que consegui apanhar quando passei por lá anos atrás, logo depois do fogaréu. É uma lasca de pouco mais de um metro de comprimento e uns quinze centímetros de largura, com uma das pontas queimada. A espessura dela é estreita. O gomo devia ser da parte de cima da vara.

A tabuleta escrita à mão era bem pequena, mas o olhar de turista guloso não deixou passar a oportunidade de poder comprar cogumelos frescos direto do produtor. Eu nunca tinha visto um cultivo de cogumelos. Dentro de um pequeno galpão escuro os sacos com composto de terra preta, farelo de cana, ureia e outros ingredientes são colocados em grande prateleiras. Os cogumelos brotam em pequenas pencas e são colhidos diariamente durante três meses, quando tudo tem que ser renovado.

A horta ao lado da casa era pequena, mas tinha um pouco de muito. Ao ajudar na colheita das folhas de couve, encontrei no chão um pequeno pedaço de bambu preto. Com a lâmina do canivetinho que carrego no chaveiro pude confirmar o meu achado e constatar que somente a casca é escura. A madeira é bem dura e mais clara, o que proporciona bom contraste. Tenho procurado por esse tipo de bambu desde quando vi uma touceira dele lá nos jardins de Alhambra, em Granada, na Espanha. Cheguei a pensar em tentar arrancar uma vara pra trazer, mas a prudência foi bem maior.

Instigado, um dos sócios do sítio fez aparecer alguns pedaços já secos e duas varas ainda verdes. Melhor ainda, ele me deu de presente uma muda já robusta daquela raridade, que vai ficar na janela da cozinha até que seja replantada em um vaso grande, porque alastra demais.
Com uma das varas será feito um berimbau pro meu neto. Devo ter saído do sítio com cara de quem carrega troféus. Mas também é bom que saibam que consegui comprar um saquinho da tal linguiça de porco deliciosa e que já estou em condições de validar a indicação que recebi como prova de estima e consideração.

Vitória, 11 de Junho de 2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Parei de pescar

Parei de pescar

Dois homens foram presos por estarem pescando nas águas abrigadas do Lameirão. Tiveram as pernas algemadas e presas com correntes de aço a barras de ferro em alguma delegacia, um procedimento próprio aos elementos perigosos, agressivos e tendentes a se evadirem do local em que estejam confinados. Desempregados e sem dinheiro para a fiança, passaram vinte e seis horas presos e só foram soltos por ação de advogado interessado em atuar em favor de fracos e oprimidos. Tudo isso por conta de uma legislação em defesa do meio ambiente.

Li que outros três homens também foram presos pescando no canal de Vitória e que tiveram que pagar fiança para ir pra casa de mãos vazias. Também fiquei sabendo pela imprensa que é obrigatório ter carteirinha de pescador para pescar com vara de arremesso. Deve ser a lógica do pessoal da burocracia ambiental: se para dirigir é necessário tirar carteira de motorista, o pescador tem que ter autorização do governo para jogar a linha na água. Sem apelação.

As prisões tiveram grande repercussão na cidade, tendo inclusive gerado indignação entre amigos que comiam caranguejos nordestinos na noite de quinta-feira. A situação por aqui anda tão crítica que seria ótimo se a justiça ambiental fosse devidamente aplicada de forma generalizada, para muito além dos que pescam beré em águas de reserva. Posso assegurar que foi uma conversa bem produtiva e ecológica.

Houve quem pleiteasse cadeia para autoridade ambiental que autorizasse a implantação de empreendimentos que irão gerar impactos negativos importantes e irreversíveis. E também para pesquisadores, consultores e dirigentes de empresas e de organizações não governamentais que, regiamente pagas, produzam duvidosa fundamentação técnica para respaldar tais autorizações. Teve quem defendesse com veemência  a prisão inafiançável dos deputados e senadores que estão querendo aprovar o novo Código Florestal visando  garantir suporte legal para que crimes ambientais possam ser praticados impunemente em escala nacional.

Da minha parte, pedi algemas para todos aqueles que, no seu mais perfeito juízo, dissessem que pó preto é provocado pelas as obras de construção civil e pelos carros que circulam na cidade. Além disso, defendi algemas de aço para os responsáveis por campanhas de propaganda que disseminem falsas preocupações com o meio ambiente, sobretudo por parte das indústrias que poluem nossos ares e mares, diariamente. Houve também quem se lembrasse de pedir a demissão sumária de autoridades e juízes que anulassem multas aplicadas às empresas responsáveis por estragos ambientais relevantes que tenham sido devidamente constatados in loco.

Ainda bem que parei de pescar. Não sei explicar a razão, mas posso garantir que não foi por medo de ser preso, pena dos peixes ou qualquer outro motivo politicamente correto. Pescar foi das coisas que aprendi ainda bem pequeno com papai, em Marataízes, e sempre fiz isso com pessoas amigas em busca de diversão.

Também é bom que se saiba que já pesquei muito robalinho com camarão vivo nas águas do Lameirão. Com alguma dificuldade, chegava com o carro até a beira do mangue e pedia uma canoa emprestada. Era preciso encontrar quem pegasse as iscas com tarrafa de malha miudinha. Os camarões ficavam nadando dentro de um caçuá pendurado do lado de fora do barco. Quase sempre era peixe pequeno, mas vez por outra perdia-se linha e anzol para peixes maiores e ganhava-se mais uma história de pescador. Isso, nos anos 60, dentro da mais perfeita legalidade, imagino eu.

Vitória, 28 de maio de 2012

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Microondas

Microondas

O nosso velho forno microondas quebrou novamente. Nós o compramos há pouco mais de vinte anos, ainda na caixa, de uma amiga que resolveu se mudar de mala e cuia para o exterior. Ela o trouxera de Manaus, como boa vantagem em termos de preço e qualidade. Ele é bem grande e fácil de usar. Só realiza as operações básicas, tem fachada discreta e relógio de bom tamanho.
Confesso que não sou um perito em uso do microondas. Sou dos que usam somente a tecla de um minuto, quase sempre pra esquentar comida ou secar bambu. Aquecido, o bambu fica bufando e a cozinha ganha um cheirinho de cana queimada. Banana da terra fica uma maravilha em três minutos, na alta.
Minha mulher conta que viu um microondas pela primeira vez em 1969, em Nova York. Todos que estavam em volta do vendedor falante ficaram embasbacados diante da mágica da pipoca sendo feita pela ação de um calor misterioso, que não esquentava o papel do saquinho, mas fazia o milho explodir. Era a modernidade tecnológica entrando na cozinha.
Quando o nosso microondas parou de funcionar pela primeira vez, ganhamos um novo de presente. Era um modelo super sofisticado, desses que ensinam muitas coisas, reclamam quando você digita errado, calculam automaticamente o tempo de cozimento em função do objeto a ser cozinhado e apitam quando está pronto. Mas, para tanto, era indispensável ler o manual a cada tentativa de uso ou guardar na memória todos os procedimentos obrigatórios e na sequência correta. Além disso, era impossível ler as horas a mais de 3 metros, o que é falha grave de design funcional. Como detesto manuais e já sofria das vistas, preferi mandar consertar o velho, que voltou para o seu lugar.
Depois de consertá-lo mais uma vez, há uns dois anos, seu Natal, o faz tudo de Santa Lúcia, me disse que seria muito difícil consertá-lo novamente por absoluta falta de uma tal placa de acionamento. Sendo assim, desta vez, resolvemos apelar para a internet. Para nossa surpresa, foi mais fácil comprar na rede do que ir ao centro da cidade para garimpar uma raridade daquela. E saiu bem mais barato, se computados o gasto com a gasolina e o valor do estacionamento. Previdente que sou, tratei de encomendar três unidades, que foram entregues em quatro dias, conforme prometido.
Sem querer me gabar, digo que me atrevi a tentar substituir a tal placa defeituosa, munido de uma simples chave de fenda phillips. O pessoal da torcida aproveitou para dar uma boa limpeza nas partes internas, constatando que não havia sequer um ponto de ferrugem. Em pouco mais de vinte minutos, lá estava o nosso velho e valente microondas roncando outra vez, para a felicidade geral dos seus usuários. O sucesso foi tanto que trouxeram a balancinha da cozinha para que eu consertasse. A tirar pelo que se via no visor digital, o defeito estava bem acima das minhas habilidades. Muito provavelmente, o chip central tinha endoidado de vez e o conserto sairia mais caro do que uma balança nova.
Isso me fez lembrar da contrariedade que sentia em 1972 cada vez que tinha que jogar no lixo um isqueiro BIC novinho, produzido na França, criado para disputar mercado com os renomados Johnson e Zippo, de pavio embebido em fluido inflamável. O que me deixava atordoado era saber que sem gás, aqueles simpáticos e eficazes isqueiros tornavam-se objetos totalmente inúteis. Por mim, não havia lógica alguma em jogar fora todo aquele material industrializado, de valor bem superior ao do gás que vinha na cápsula. A era dos produtos descartáveis chegava para ficar.

Vitória, 13 de Maio de 2012.

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Kit Paraíba

Kit Paraíba

Aceitei de pronto o convite para a festa de cinquenta anos do filho mais velho de um casal de grandes amigos, que conhecemos quando moramos em João Pessoa durante quatro bons anos, no final da década de 70. Fazia muito tempo que procurava um motivo qualquer para voltar lá. A última vez foi há uns dez anos e só de passagem.

Ficamos hospedados em um sítio no caminho de Tambaba, a praia frequentada por pelados convictos, o mesmo que passamos muitos fins de semana na base de comida de fogão de lenha, partidas acaloradas de baralho, conversa besta regada a cachaça de cabeça, soneca em rede na varanda, muita água de coco e tudo o mais que o diabo recomenda. A casa foi ampliada e agora a mesa de jantar tem 16 lugares, sempre ocupados por gente animada, de bem com a vida. As pessoas estão mais velhas mas, em compensação, surgiram netos.

João Pessoa está bonita e bem cuidada. O centro e os bairros próximos continuam, tirando uns dois ou três prédios novos, exatamente iguais aos que conheci. Foi muito emocionante rever, intactas, a casinha na beira da praia que moramos no início e a casa que construímos depois. Elas ainda resistem à especulação imobiliária na região da orla. A cidade cresceu em direção às praias, inteligentemente. Soube que o prefeito anterior criou mais de trinta praças, todas com espaços para shows e esportes. O trânsito urbano já começa a complicar, mas fiquei com inveja das estradas de pista dupla que ligam João Pessoa a Recife, a Natal e a Campina Grande, embora os fluxos de veículos sejam bem menos dos que estão nos matando por aqui. Na beira da pista, três enormes cataventos brancos, com mais de setenta metros de altura, expressam modernidade e bom senso.

O mercado central nem parece o mesmo. Uma grande reforma vai deixando tudo mais limpo e organizado. Perde-se um pouco da originalidade mas ganha-se em conforto. As bancas estão repletas e coloridas, sobretudo pelas pilhas de uvas, melões, mangas e melancias produzidas no vale do rio São Franscisco. Antigamente os feirantes me tratavam por professor, em função da minha barba preta e dos cabelos longos. Agora, passados mais de trinta anos, foi a vez da minha cara de turista deslumbrado instigar o pessoal a caprichar nas ofertas. A visita ao mercado tinha algo de saudosismo, mas, na verdade, eu estava ali a serviço, querendo comprar os ingredientes básicos do chamado “Kit Paraíba”, com a intenção de prolongar o gostinho do passeio.

Não foi pouca coisa o que trouxemos nas malas e em uma boa caixa de isopor: quatro quilos de carne sol de alcatra e contra filé; feijão verde debulhado; farinha quebradinha e com goma, para engrossar o pirão; muita castanha de caju sem sal, sem nada; três tipos de queijo do sertão: de manteiga, de coalho – um tradicional e um pré-cozido; manteiga de garrafa; duas rapaduras, sendo uma bem escura; doce de caju em calda e em palito, cocada na quenga; biscoitinhos de goma; sequilhos; bolacha Sorda; um bom pedaço de quebra-queixo de coco verde e duas garrafas de cachaça Rainha, a minha preferida.

Além disso, veio também: um vidro de pimenta curtida da coleção do meu amigo Iveraldo Lucena; arroz negro e o da terra, vermelhinho, próprio para fazer o famoso arroz de leite, recheado com queijo; e, porque sou um apreciador fanático, tratei de trazer também uma buchada de bode completa.

A viagem foi tão boa que já aceitei o convite para passar os festejos de São João na granja e aproveitar para conhecer o Lajedo de Pai Mateus, perto de Cabaceiras, na região do Cariri paraibano.

Vitória, 29 de Abril de 2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA