Bambu e linguiça
Posso apostar que pouca gente já viu bambu preto. É bem provável que a grande maioria das pessoas sequer tenha ouvido falar que existe bambu preto. Pois saibam que dei de cara com uma touceira deles num sítio em São Paulinho, onde fui procurar por uma linguiça de porco maravilhosa, por recomendação de um amigo que encontrei numa vendinha em Marechal Floriano. A conversa era entre pessoas que saem de casa para comer coisas feitas em casa e no quintal. A informação me fora dada, com uma ponta de orgulho por quem conhece bem a região e confirmada pelo brilho dos olhos de quem fica com água na boca só de pensar no gostinho do tempero.
Só saímos em busca da tal maravilha depois de comer codorna ecológica rodeada de polenta fresca, o mais recente lançamento do restaurante de um conhecido de infância, descendente de quem desbravou a região de Pedra Azul nos anos cinquenta. No caminho, aproveitei para passar em revista a touceira de bambuí que tem logo no início da estrada que liga a BR 262 a Vargem Alta, de onde sempre trago umas varas escolhidas. Pena que, dessa vez, a lua não estava própria para a colheita.
Um pouco mais adiante confirmei que a bela touceira de bambu balde realmente não resistiu ao fogo que usaram para exterminá-la. Não sei das razões de gesto tão tresloucado, já que o maior perigo que o bambuzal pode trazer, sobretudo quando plantado em lugar descampado, é ficar balançando de um lado pro outro quando o vento sopra mais forte. O barulhinho do roçar das folhas é cantiga para ninar marmanjo.
Ainda tenho em casa, guardado com algum cuidado e consumido com parcimônia, o último dos pedaços que consegui apanhar quando passei por lá anos atrás, logo depois do fogaréu. É uma lasca de pouco mais de um metro de comprimento e uns quinze centímetros de largura, com uma das pontas queimada. A espessura dela é estreita. O gomo devia ser da parte de cima da vara.
A tabuleta escrita à mão era bem pequena, mas o olhar de turista guloso não deixou passar a oportunidade de poder comprar cogumelos frescos direto do produtor. Eu nunca tinha visto um cultivo de cogumelos. Dentro de um pequeno galpão escuro os sacos com composto de terra preta, farelo de cana, ureia e outros ingredientes são colocados em grande prateleiras. Os cogumelos brotam em pequenas pencas e são colhidos diariamente durante três meses, quando tudo tem que ser renovado.
A horta ao lado da casa era pequena, mas tinha um pouco de muito. Ao ajudar na colheita das folhas de couve, encontrei no chão um pequeno pedaço de bambu preto. Com a lâmina do canivetinho que carrego no chaveiro pude confirmar o meu achado e constatar que somente a casca é escura. A madeira é bem dura e mais clara, o que proporciona bom contraste. Tenho procurado por esse tipo de bambu desde quando vi uma touceira dele lá nos jardins de Alhambra, em Granada, na Espanha. Cheguei a pensar em tentar arrancar uma vara pra trazer, mas a prudência foi bem maior.
Instigado, um dos sócios do sítio fez aparecer alguns pedaços já secos e duas varas ainda verdes. Melhor ainda, ele me deu de presente uma muda já robusta daquela raridade, que vai ficar na janela da cozinha até que seja replantada em um vaso grande, porque alastra demais.
Com uma das varas será feito um berimbau pro meu neto. Devo ter saído do sítio com cara de quem carrega troféus. Mas também é bom que saibam que consegui comprar um saquinho da tal linguiça de porco deliciosa e que já estou em condições de validar a indicação que recebi como prova de estima e consideração.
Vitória, 11 de Junho de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
