Viva Joaquim!

Viva Joaquim!

Na semana passada enfrentei uma gripe fortíssima, que começou com uma ardência no céu da boca que subia por trás do nariz, indicando que algo mais grave estava por acontecer. Ela surgiu de uma lufada do ar condicionado que tentava vencer o bafo quente da cabine do carro estacionado sob um sol de meio dia.

Sempre achei que gripe não chega a ser uma doença, sobretudo quando se instala de forma educada e relativamente amistosa. Mas, a depender da intensidade, ela faz do homem um ser totalmente debilitado em suas forças e faculdades e impróprio ao convívio.

Preso em casa, pude assistir ao vivo e a cores, como uma espécie de compensação, mais um capítulo do julgamento do mensalão. Estou ficando cada dia mais animado com o desenrolar desse emocionante seriado nacional baseado em fatos reais, protagonizado por um pequeno e seleto grupo de servidores públicos autorizados a fazer justiça. A sensação que tenho é a de que cada um deles, por suas próprias atitudes e méritos, entrará para a história que está ajudando a produzir. Uma história com intrincado enredo sobre um acerto de contas, pacífico e legal, em favor dos bons valores democráticos.

Começo a acreditar que o que está acontecendo no Supremo Tribunal Federal seja uma daquelas raras situações em que pessoas certas estão no lugar certo, em um dado momento muito especial da vida. Está relativamente fácil perceber, em conversas com amigos, que tem muita gente achando que os resultados desse julgamento poderão fazer brotar confiança onde impera o desencanto com o mundo da política e com os negócios que giram em torno dela. A condenação de pessoas envolvidas em desvio de dinheiro público poderá reduzir a sensação de impunidade que se instalou por aqui, ajudando a recuperar o significado da cidadania e a esperança na justiça.

Infelizmente, não consegui acompanhar por inteiro o voto em que o ministro Joaquim detalhou os esquemas de lavagem dos dinheiros que haviam sido saqueados dos cofres públicos, bem como a participação comprovada de cada um dos empresários denunciados. Mas, na quinta feira, fiquei de olhos grudados na TV por quase seis horas seguidas, conferindo os votos dos demais magistrados, formulados no tom e na exata medida do perfil de cada um.

Confesso que fiquei entusiasmado com tudo o que vi: a contundência da ministra Carmem Lúcia, a oportunidade das palavras do ministro Fux, a clareza do ministro Marco Aurélio, a consistência do voto do ministro Gilmar Mendes, a convicção do ministro Celso, o rigor da ministra Rosa e a serenidade do presidente Ayres Britto na condução dos trabalhos. Fiquei particularmente satisfeito com as reprimendas do ministro relator ao ministro Lewandowski e com os reparos jurídicos do ministro decano aos entendimentos do ministro Tóffoli, alvo também de finas ironias de seus pares.

Devo dizer que cresceu a minha admiração pelo ministro Joaquim. O trabalho consistente que realizou na fundamentação de seu voto tem possibilitado a condenação dos réus por maioria expressiva. Nesta semana ele seguirá na sua função de preparar terreno para a condenação, agora por crimes de corrupção, de mais de vinte pessoas, incluindo políticos, dirigentes partidários e um ex-ministro de estado.

Tomo a liberdade de sugerir aos distintos leitores que não percam os capítulos restantes desse reality show altamente educativo, sobretudo aqueles que estejam precisando urgentemente de um pouco de ânimo. De quebra, vão poder conhecer dez brasileiros que estão prestando relevantes serviços ao país.

Vitória, 16 de Setembro de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

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