Festas de casamento

Festas de casamento

Na semana passada fui, de terno e gravata, a uma festa de casamento de uma grande amiga de um dos nossos filhos, que frequentou a nossa casa durante muitos e muitos anos, durante o tempo de escola. Na ida e na volta da praia, em festas de aniversário e, vez por outra, em churrasco animado, movido a cerveja.

Não tinha como deixar de ir. Não é que não goste de festa nem que tivesse alguma coisa contra aquela união. Pelo contrário, gosto muito de dançar e o noivo era filho de amigo de longa data. Além do mais, festa é lugar para encontrar pessoas que já não se vê faz tempo. O inchaço da cidade dificultou os encontros casuais nas calçadas, por onde já não se anda, e na praia, que já não se frequenta. Circula-se de carro entre uma garagem e outra, sempre com os vidros escuros e inteiramente fechados. De uns anos pra cá, raramente vejo uma cara conhecida ao entrar num restaurante.

O que me incomoda, e muito, é o som alto. Música em festa de casamento é sempre muito contundente, a ponto de fazer tudo tremer, como um bate-estaca. Tenho uma perda auditiva razoável, uma grande restrição à minha sobrevivência em ambientes sonoramente agressivos. Prevalecendo o som mais alto, fica difícil entender o que as pessoas estão dizendo. E isso pode ser extremamente perigoso para as amizades. Em lugares barulhentos, o surdinho consegue, quando muito, identificar o assunto da conversa. Mesmo usando aparelhos de surdez corre o risco de parecer pouco interessado no que lhe esteja sendo dito, de dar a impressão de ter ficado metido a besta e até de estar meio maluco, ao dar uma resposta totalmente sem sentido.

Por prudência, ocupamos uma mesa bem distante da pista de dança e, com o apoio da vizinhança, desligou-se a caixa de som que havia ali por perto. Embora tenha sido um alívio para os ouvidos, não foi suficiente para que pudesse conversar direito com um simpático casal que dividiu a mesa conosco. Consegui saber que o marido plantava eucalipto no sul da Bahia e que adorava pescar robalo, mas não deu para conhecer detalhes do negócio nem para saber qual a isca que ele usa para enganar os peixes.

Aprendi, na prática, que as primeiras desculpas por não ter entendido o que foi dito são aceitas de pronto e que pedir para repetir a primeira ou a última palavra da frase funciona razoavelmente. Sei também que levar a orelha para perto do interlocutor pode ajudar a ouvir melhor, embora impeça o uso do olhar e denuncie surdez em estado avançado. Um abraço efusivo e a demonstração de alegria pelo encontro pode garantir a interação por alguns instantes, mas o que sustenta mesmo a comunicação é a consistência das perguntas e a precisão das respostas. O whisky pode, em boa dose, ajudar a relativizar o peso de algumas frases sem sentido, mas o melhor mesmo é dar mais um abraço e inventar uma boa desculpa para interromper a conversa, antes que a má impressão se instale na alma do seu amigo.

Mesmo com som alto, a festa estava ótima, com os noivos dançando o tempo inteiro, animadíssimos. O serviço estava perfeito, profissional: bebida farta e honesta, canapés finíssimos, variados e na temperatura adequada, como se espera dos cerimoniais de primeira linha. Aquela fartura toda e a movimentação dos garçons me fez lembrar de uma festa de casamento no início dos anos setenta, que fora anunciada com grande insistência pelos colunistas sociais da cidade como o acontecimento do ano. Dentro dos melhores padrões da época, tudo o que serviram aos convidados de pé no pátio de um colégio foi bolo com guaraná.

Vitória, 01 de outubro de 2012

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

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