Girando

Girando

Todo mundo sabe que as dificuldades de escrever uma boa crônica começam pela escolha de um bom assunto: um fato curioso, uma imagem expressiva, uma situação inusitada, uma história engraçada, o voo de uma gaivota. Alguma coisa que possa servir de elemento central de uma narrativa, que tenha consistência, que permita agregar ideias, emoções e tudo o mais.

Escrever uma crônica é parecido com resolver uma equação matemática. Disseca-se o assunto passo a passo, garantindo-se que o leitor possa encontrar razão para seguir em frente, até o fim. É sempre bom que tenha um começo instigante, um recheio rico em elementos de boa lógica e curiosidades e um final que possa ter alguma coisa de surpreendente.

Na infinidade de temas interessantes reside a maior dificuldade. Qualquer assunto pode resultar em uma crônica razoável, honesta o suficiente para que o leitor possa lê-la sem pressa e com atenção. A escolha não é nada fácil. Imagino o que seria dos alunos que estivessem fazendo prova de português no vestibular, cuja única questão fosse fazer uma redação sobre um assunto qualquer, à sua livre escolha. É bem provável que mais da metade não conseguisse escrever uma linha sequer.

Pois bem, hoje para mim essa tarefa ficou ainda mais complicada, depois que uma labirintite se apoderou da minha cabeça e fez de mim um homem zonzo, sem equilíbrio. Não sou pessoa de exageros, mas somente quando fico deitado, com a cabeça parada, é que o teto permanece em cima e as paredes na vertical. O bicho pega quando resolvo sair do quarto, me agarrando nas paredes e nos móveis. Quem me visse andando pela casa poderia achar que eu estava brincando de Homem Aranha.

Imagine você a sinuca em que estou nesta manhã de domingo, com labirintite e sem um tema para a crônica que tenho que entregar no começo da tarde de amanhã. Enfrento esse drama desde ontem, quando o tal desequilibro se instalou. Passei o dia pensando em como seria redigir nessas condições. Precavido, experimentei manter a cabeça firme na horizontal, alternando o olhar nas teclas e no monitor. Constatei que poderia ter sucesso, desde que não fizesse movimentos bruscos com os olhos nem balançasse a cabeça.

Como sempre acontece, durante a semana havia garimpado na memória, nos jornais, na TV e nas ruas alguns fatos promissores: mudanças na CBD; mais trocas de ministros em Brasília; novo vazamento de petróleo em Campos; anúncio da entrada em operação de mais um conjunto de chaminés de usina de pelotização; campanha milionária para convencer que empresa que polui é uma grande parceira de todos nós; associação de moradores exigindo que o Governo do Estado tome providências contra os emissores de pó preto; vitória do Fluminense; o vento sul que se instalou na sexta feira.

De tudo que vi, o que mais me chamou a atenção foi uma cena bem brasileira dos tempos atuais e dos que vêm vindo por aí: um casal descendo a pé a ladeira do Hospital Infantil, em pleno sol quente. A mãe, quase uma menina, carregava o filho recém-nascido com expressão aflita. Ao seu lado, de bermudão colorido, sandália de dedo, sem camisa e com óculos na cabeça, seguia um rapaz de menos de vinte anos, que parecia ser o pai da criança. Constrangido e sem graça, ele rodava sem parar a camiseta com a mão direita, possivelmente pensando na encrenca em que se metera. Ao dobrarem a esquina, me veio a sensação de que aquela união não duraria muito tempo e que, em breve, ele faria mais filho, em uma outra companheira de noitadas, fazendo a vida girar, construindo futuro.  

Vitória, 18.03.2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Vale Tudo

Vale Tudo

Viajar deveria ser obrigatório. Sobretudo quando se consegue conjugar trabalho e lazer. Homem experiente, agendei viagem a São Paulo para visitar as filhas e aproveitar para trabalhar um pouquinho. O musical sobre a vida de Tim Maia era o item principal da programação cultural. Na temporada do Rio de Janeiro o espetáculo foi visto por mais de cem mil pessoas. Os ingressos foram comprados com boa antecedência, mas só conseguimos cadeiras na penúltima fila. Na plateia, a maioria era de gente mais velha, como eu. Há algum tempo venho pagando meia entrada, uma espécie de compensação por ter conseguido passar dos sessenta.

Sou fã do Tim desde o final dos anos 60, quando ele começou a mostrar sua ginga e sua alma cheia de dores, poesia e sarcasmo. Mais tarde, achei graça de Jorge Ben prometendo chamar Tim Maia, o síndico, para botar ordem no pedaço.

Foram três horas de espetáculo movimentado e muito emocionante, com roteiro baseado na biografia escrita por Nelson Motta. O trabalho de direção é muito bom e não vi nem um ator global em cena. A começar por Tiago Abravanel, que encarna o personagem central, os artistas me eram desconhecidos. Todos têm cara de gente da turma do Tim e cantam muito bem. Uma banda competente, colocada na parede do fundo do palco, garante o ritmo da festa.

Abravanel consegue dar vida a Tim Maia nas diferentes épocas de sua rica e conturbada trajetória pessoal. Tem suingue e expressão gestual convincente e um vozeirão afinado no tom do homenageado. Passagens curiosas e cenas magistrais se sucedem no palco. A ingenuidade do primeiro conjunto com Erasmo e Roberto Carlos, os anos vividos nos Estados Unidos, os encontros com Elis Regina e Edu Lobo, a descoberta do som de João Gilberto, os altos e baixos da vida amorosa com Janete, o envolvimento com as drogas lícitas e ilícitas, a temporada no mundo do fanatismo religioso, os seus famosos atrasos enervantes, a viagem alucinada dos funcionários da gravadora que aceitaram LSD que ele deu de presente. Lá estão também a energia de shows contagiantes, a prepotências dos famosos, a dor criativa da solidão, o processo irreversível de engordar, o começo e o fim da decadência, o infarto no palco, em Niterói.

Dá gosto de ver. O público, inteiramente tomado por lembranças pessoais e fortes emoções, bate palmas ao longo do espetáculo e, sobretudo, no final da festa. Só desafinou um pouquinho quando Abravanel agradeceu a Deus solenemente pelo sucesso e pediu aos presentes que prometessem ir ao teatro, sempre.

Estou há quase uma semana cantarolando Vale Tudo, Vou Pedir Pra Você Voltar e Do Leme ao Pontal. Foi muito bom para desopilar o fígado. Março terminara com mais notícias escabrosas vindas do mundo político, de matar de vergonha parentes e colegas de trabalho: um senador por Goiás denunciado por ajudar a operar esquema de corrupção de um poderoso contraventor. Parece uma retaliação mafiosa por quebra unilateral de contrato. Ao lado disso, a Comissão de Ética da Presidência da República finalmente decidiu pedir explicações ao ministro acusado de receber 2 milhões de reais por serviços de consultoria especializada que haveria de prestar aos “investidores” mineiros após a eleição presidencial.

A prática do chamado toma-lá-dá-cá vai sendo institucionalizada com total descaramento. Há quem diga que sempre foi assim e que só agora a bandalheira está aparecendo na imprensa. Prefiro pensar que a coisa está degringolando de tal forma que vai ser difícil encontrar síndicos que possam dar jeito nisso.

Vitória, 02 de Abril de 2012.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Rei do Carapau

Rei do Carapau

Não tenho visto mais as tartarugas vindo à tona para respirar. Imagino que tenham ido nadar em outras águas. Em compensação, dia desses avistei três cardumes fazendo evoluções no mar da Curva da Jurema. Eram pequenos e, pela época, deviam ser de carapau.

Não sei se o leitor já viu um cardume ao vivo, indo de um lado para o outro, sumindo e reaparecendo. Um olhar atento localiza um cardume de longe, com alguma facilidade. A superfície do mar fica mais escura e meio encapelada, em função da movimentação dos peixes.

Tem gente que vive de localizá-los em mar aberto para orientar o lançamento da rede de arrasto. Falando nisso, na praia de Itapoã a pesca de manjuba já está a pleno vapor. É um bom programa de final de tarde pra quem gosta de estar à beira mar. Em breve será o tempo das sardinhas.

Tem gente que vive de filmar peixes para programas de TV. Os cardumes são flagrados de pertinho, de dentro mesmo. É sempre um espetáculo vivo e colorido. Tão logo se acostumam com os mergulhadores, os holofotes e as câmeras, os peixes voltam a se movimentar de forma compassada. Esbaforidos, mesmo, eles ficam quando são atacados por seus predadores. Já vi cenas eletrizantes de ataque desfechado por um leão marinho faminto e de um outro, enigmático, de baleias que cercavam um cardume enorme, agindo de forma inteiramente coordenada.

Voltando ao mar daqui de perto, é bom lembrar que março é tempo de carapau. Normalmente eles chegam em cardumes, junto com os ventos fracos de fevereiro, e nadam por aqui durante uns dois meses. Não mais do que isso. Não sei dizer de onde eles vêem nem pra onde vão.

Para quem não conhece, o carapau é um peixe prateado com escamas esverdeadas na parte de cima. Trata-se de animal arisco e bem malandro, que rouba isca ao menor descuido. É parente de pampo, xaréu, chicharro, olho de boi e muitos outros. Deve ser o menor da família, mas é ligeiro e muito valente. Quando se vê fisgado, enfrenta o pescador nadando para o fundo.

Atividade coletiva que proporciona fortes emoções, a pescaria de carapau é também uma disputa entre pescadores. Poderia muito bem ser elevada à condição de esporte de competição, com campeonatos anuais para aficionados de diferentes categorias e idades. Digo isso por saber que pegar grandes quantidades deles exige equipamento adequado, conhecimentos técnicos, concentração, reflexos apurados e, sobretudo, pensamento positivo e muita disposição para enfrentar gozação durante horas seguidas.

Mesmo em um barco de uns quatro metros, acontece, e com boa frequência, o pescador da popa cansar de matar carapau e o que está sentado na proa nem ver sinal deles. Isso, com os dois usando a mesma isca. E se algum invejoso ousar lançar linha nas águas do colega afortunado, aí é que ele não pega mais nada até o fim do dia. A urucubaca do carapau pode atingir uma embarcação inteira, deixando sua tripulação a ver navios enquanto a do barco ao lado vai enchendo o balaio. A bordo, a gozação entre amigos pela falta de peixe faz parte da brincadeira, mas entre desafetos, pode ser perigosa.

Para pescar carapau basta uma varinha de bambu retinha e de ponta bem fina que, por medida de segurança, deve ser encastoada até uns dois palmos, em direção ao cabo. É recomendável usar nylon bem fino, anzol pequeno e chumbo levinho. A isca oficial é o camarão descascado, de preferência o do lameirão, que é menor e mais durinho. Um macete de veterano: descascar e cortar o camarão com antecedência economiza tempo e ajuda você a ganhar campeonatos.

Vitória, 01 de março de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Folião

Folião

Chegamos em Manguinhos por volta do meio dia, junto com  a chuva. Estacionamos em frente a um self service e aproveitamos para fazer uma boquinha enquanto Deus dava bom tempo. A primeira batucada que passou era de fazer chorar, mas foi só apressar o passo para alcançar o bloco que ia mais adiante. A bandinha era formada por músicos profissionais, colegas de batuque de outros carnavais. A chegada na pracinha, ainda meio vazia, foi triunfal.

Faz tempo que toco tamborim no carnaval em Manguinhos. Irmão, pai, sogro e tio de músicos, é no sábado de carnaval que posso tocar sem maiores exigências. Movido a cerveja e abastecido com o risole de camarão do Geraldo, ofereço os meus serviços aos blocos que passam. Quase sempre sou recebido com boa satisfação e até com algum entusiasmo. Acho que o som do tamborim assanha o pessoal.

Em casa, quando fazia uma baqueta de bambu, me dei conta de que não chego a ser um folião dos mais animados. Sinto que sempre vou meio a reboque. Mas experiente, posso garantir que sou.

O carnaval de menino de Cachoeiro era lá em Marataizes, no clube construído sobre uma pedra enorme à beira mar. Já mais taludo, frequentei as matinês de sábado no Praia Tenis Clube para ver as mamães animadas e as tias mais rebolativas. Nos bailes do Siribeira, em Guarapari, ficava de olho nas morenas cheias de charme que vinham do Rio em busca de diversão. Acabei casando com uma delas, de olhos fundos.

Foi lá também que me vi no centro de uma briga famosa que não era minha. A pancadaria aconteceu em duas etapas no lado de fora do clube, na manhã da quarta feira de cinzas. Até hoje tem gente que não acredita que eu tenha saído dela sem um arranhão sequer. Vestido de mulher, junto com uns poucos amigos, bati lata pelas ruas de Guarapari em pleno sol quente e, por duas vezes, saí no bloco das Desvirtuadas, com gente querendo organizar a brincadeira a todo custo.

No verão de 1972 chegamos na Praça Castro Alves pulando atrás do trio elétrico do Dodo, sem qualquer sufoco, cantando chuva,suor e cerveja. Tirei uma foto de Caetano sentado numa escada, ao lado de uma baiana fritando acarajé. Deixamos a barraca armada perto das dunas da praia de Piatã, sem a menor preocupação.

No final dos anos setenta, o carnaval de rua de João Pessoa era quase deprimente. O bloco Muriçocas do Miramar, só surgiu anos depois que nos mudamos de lá. Em compensação, naquela época as ladeiras de Olinda eram transitáveis e animadíssimas. Era o carnaval do pessoal mais alternativo, que dançava ao som de frevos e maracatus ao lado de Alceu Valença e Elba Ramalho.

Tenho coragem de dizer que tentei reger, sem qualquer sucesso, a banda do irreverente do Pacotão, bloco criado por jornalistas e funcionários públicos para debochar do regime militar. Cantávamos com toda convicção o Sanatório Geral, do Chico, em plena Avenida W3 deserta, bem no coração de Brasília. Desfilei uma única vez em escola de samba. Foi por volta de 1990, lá na Barra de Itapemirim, na rua onde passavam os trilhos da estrada de ferro que existiu por ali. Não deu muito certo, não.

Quando estudava no Rio de Janeiro, frequentei a Banda de Ipanema ao lado de moradores do bairro sambando sob a animação radiante de Leila Diniz. Era uma verdadeira festa da pegação à luz do dia. Recentemente, levei um baita susto quando, nem bem cheguei na concentração e um fortão desses mais assanhados agarrou na minha barba e me chamou de “meu Dom Pedro”. E eu nem estava fantasiado nem tocando tamborim.

Vitória, 20 de Fevereiro de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Festa das pedras

Festa das pedras

Esta semana tem feira de mármore e granito em Vitória. Um evento espetacular que só perde em tamanho para as feiras de Verona e Carrara, na Itália. Mais de quatrocentas empresas estarão expondo uns seiscentos tipos diferentes de mármores, granitos, ardósias e muito mais. Uma explosão de cores e formas para serem vistas sem pressa e com olhar atento. Lá estará também o que de melhor existe em termos de máquinas, equipamentos, ferramentas e serviços. São esperados mais de vinte mil visitantes, vindos do mundo inteiro.

Modéstia à parte, é bom que se saiba que esse negócio de feira de mármore começou lá em Cachoeiro de Itapemirim. Foi com orgulho de cachoeirense que mamãe me contou ao telefone que tinha ido visitar a terrinha com o irmão e que eles ficaram impressionados com as indústrias que serravam blocos enormes de mármore, fazendo um barulho danado. Era 1987 e eu tinha acabado de voltar para Vitória para dar aulas na UFES e trabalhar no BANDES com Odilon Borges, que insistia em me apresentar como seu assessor de rabo preso.

Atento à novidade, logo descobri que mais de trezentas empresas atuavam no setor, mobilizando umas dez mil pessoas. Feitas as contas, vi que quase cinquenta mil capixabas já viviam da pedra, embora pouca gente se desse conta disso. Os olhos das pessoas e as atenções do governo estavam voltadas para as grandes empresas que se instalavam por aqui. A indústria da pedra funcionava heroicamente nas cidades do interior, no meio do mato, utilizando-se de máquinas e processos rudimentares, passíveis de aprimoramentos de toda ordem. Os padrões de acabamento estavam longe dos que eram vistos lá fora. Davam vergonha, até.

Pretendendo melhorar a qualidade dos produtos e aumentar a lucratividade dos negócios, tratou-se de estimular as empresas a usar a balança, a régua e o relógio para medir e controlar o que faziam. Entendeu-se, também, que as vendas, feitas de forma bem amadora, deveriam passar a contar com o apoio da propaganda e do marketing. Era preciso marcar dia e local para mostrar a beleza das nossas pedras para muita gente, inclusive aos arquitetos e decoradores, que não distinguiam mármore de granito.

A ideia de se criar uma feira em Cachoeiro foi ventilada em reunião animada com os empresários locais. Ela deveria acontecer logo, antes da que estavam pretendendo fazer lá em São Paulo. Tomada a decisão, era preciso contar com alguém com experiência no assunto e muita disposição. Odilon chamou Cecília Milanez, pessoa despachada e generosa, para enfrentar a empreitada. Posso garantir que foi uma doideira fazer tudo em menos de um mês. Improviso era a palavra de ordem e correria o ritmo permanente.

O parque de exposições era a única opção disponível para abrigar os trinta e poucos audazes expositores. Os stands foram montados dentro dos galpões, nas baias de grandes animais. As empresas maiores ficaram ao ar livre.

O transformador não resistiu à demanda e explodiu minutos antes do discurso que o governador faria para empresários, homens de governo e famílias inteiras vestidas com a melhor elegância. No meio da noite, Curuca, o dono do restaurante mais famoso de Meaipe, avisou que iria fechar porque estava faltando água. Alguém deu solução e a festa continuou.

Dava gosto ver a alegria das pessoas se abraçando como se estivessem comemorando algo muito relevante. Na verdade, era uma celebração entre amigos, concorrentes, clientes e fornecedores. Durou até a madrugada. Exaustos, fomos dormir em Vargem Alta, por falta de hotel na cidade.

Vitória, 06 de Fevereiro de 2012.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Doces da vida

Doces da vida

Ganhei um tupperware cheio de canudinhos recheados de doce de leite e balas de mel enroladas em triângulos de papel manteiga. Em regime de convalescença, aqueles doces me levaram de volta a lugares que não frequento faz muito tempo.

O gostinho da bala é bem parecido com o das do bar do Nagib em Marataízes, delícia feita em pequenas quantidades, com receita caseira de avó de antigamente. Aliás, as avós de hoje, exuberantes e dispostas, não fazem mais biscoitinhos de nata nem ovos nevados. Compram sobremesa pronta ou dão preferência para receitas práticas como as de mousses de liquidificador.

Veio junto o sabor de infância da bala de coco queimado Itabira, que reencontrei há poucos anos no balcão do Bar Missagia, em Iconha, onde a compro em pacote de quilo quando passo por lá. Ela é feita para ser chupada aos pouquinhos, revelando os fiapos de coco incrustados no açúcar. Lembrei-me também do torrone de marshmellow, que vinha embrulhado em papel verde claro e só era vendido na Vila de Itapemirim. Nunca mais vi desses. Agradeceria se algum leitor desse uma pista de onde encontrar aquela maravilha, se é que ela ainda existe, se é que dela alguém ainda se recorda.

De quebra, pude sentir também o gostinho do sorvete de abacaxi que seu Dessaune vendia pelas ruas da cidade empurrando uma carrocinha azul (ou seria verde?) e que o calor cachoeirense derretia ao menor descuido do menino que o lambia.

Devo dizer que tenho preferência pelos os doces de fruta em calda. Adoro o de laranja amarga, que me traz a figura amistosa de Vovó Celina, vizinha de frente lá em Cachoeiro. Como faz tempo que não encontro a fruta para comprar, tenho me virado com o que é produzido em larga escala longe daqui, lá em Limeira.

Sendo o assunto sabor de infância, não poderia me esquecer da bananada Santana, vendida num armazém na Avenida Jerônimo Monteiro. Era bem escura e pastosa, quase sem açúcar. Pois foi depois de comer uma boa fatia daquela maravilha que um político nordestino, amigo de papai, declarou solenemente que “preferia doce de banana a banana pessoalmente”.

Hoje, na casa de mamãe, goiabada cascão com queijo fresco é sobremesa obrigatória, independentemente de tudo o mais que exista em oferta, inclusive a ambrosia que ela gosta de fazer e o seu famoso pudim de miolo de pão, ao qual acrescenta raspas de noz moscada e passas, o que dá um toque de nobreza à sua composição simplória.

Acho que se pode falar em doces de família. No caso da nossa, os mais apreciados são a torta de banana da terra frita, com as tiras mergulhadas em creme e cobertas com suspiro, o pavê de bicoitos champanhe embebidos em calda de chocolate, o famoso pudim de leite de tia Gilca, o quindão de Tia Má e a torta de limão que os meninos daqui de casa aprenderam a fazer, movidos pela gulodice.

Sem qualquer modéstia, incluo aqui o doce de orelha que fazia em tempo de alta produção caseira de goiaba, até que a nossa goiabeira precisou ser derrubada para aumentar o espaço para os carros. Na maioria das safras, as frutas estavam saudáveis e desabitadas. Foi pensando nisso que dia desses experimentei fazer um doce de lâminas de mamão verde colhido no quintal, cozidas em calda rala com canela em pau e al dente. Um docinho bem honesto, pode-se dizer.

Acho que seria justo incluir nesta crônica o doce de jaca em forma de dedo, vendido em saquinhos, que um tio meu guloso que só pedia pra gente levar pra ele, no Rio. E comia tudo sozinho, suspirando, matando saudades dos tempos de menino de cidade do interior.

Vitória, 22 de Janeiro de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Demorou

Demorou…

O ano nem bem começou e um amigo que não vejo há muito tempo me enviou mais umas tantas mensagens do tipo conscientizadoras. Não é novidade. Ele vem fazendo isso com boa frequência e regularidade nos últimos dois anos. Normalmente são notícias inteiras de jornais, artigos assinados e indicativos de reportagens. Vez por outra ele manda sugestões de livros que estão sendo lançados e textos de clássicos da economia política.

As duas últimas remessas trataram de dinheiro. A primeira enaltece o saldo recorde no balanço comercial – a diferença entre os dólares que entram e os que saem do país. Ai incluídos os que resultam das compras e vendas de bens e serviços, os dos pagamentos de royalties, os que vieram para compor investimentos produtivos e, também, aqueles dólares desconfiados e espertinhos, que vieram pra cá em busca de juros generosos, safados, pra falar a verdade.

A outra mensagem trata do orçamento da União para 2012, indicando como fonte de informações a Câmara dos Deputados. Parece coisa oficial e verdadeira. Traz um número assustador: 47,19% do total que vier a ser arrecadado pelo governo federal durante o ano serão destinados ao pagamento de Juros e Amortização da Dívida Pública. Exatos R$ 1,014 trilhão, dinheiro que daria para pagar a conta do programa bolsa família durante uns 80 anos seguidos. Um absurdo sem medidas.

Confesso que levei um grande susto ao fazer essa conta, que trato de dividir com os leitores que pagarão impostos diariamente, como eu. É mais do que sabido que o Brasil paga as maiores taxas de juros do mundo e que pratica a maior carga tributária do planeta, sem qualquer dó da sua população e das suas empresas. É duro de dizer, mas o brasileiro fica com cara de otário nesse filme de terror ambientado nesse início de milênio, no momento em que a Europa e os Estados Unidos, cada qual ao seu modo, experimentam a decadência e começam a dar sinais de esgotamento no comando de um sistema econômico perverso, que concentra riquezas e poderes de forma radical.

Falando nisso, ontem terminei a leitura de A Refundação do Brasil, livro recém-escrito por Luiz Gonzaga Souza Lima, um amigo de longa data, apaixonado pelo Brasil. Ele é convicto da oportunidade e da urgência de buscarmos formas mais harmoniosas e generosas de seguirmos em frente, na busca de uma sociedade centrada na vida e em substituição ao que ele denomina de sistema econômico da exclusão e da morte.
Fundamentado em reflexões pessoais e no que aprendeu com Darcy Ribeiro, Caio Prado Jr, Joaquim Nabuco, Raymundo Faoro, Gilberto Freire, Celso Furtado, Leonardo Boff e tantos outros, ele relata a formação econômica e política do nosso país – inteiramente voltada para a produção destinada ao mercado mundial – e entende que a nossa cultura plural e única pode ser um poderoso instrumento para que o Homem possa alcançar alegria e felicidade, vivendo em sociedades que aceitem as diferenças e valorizem a vida.

Assim como eu, Jeanne Bilich e muita gente, Luiz está convencido de que já estamos em mais um fim de ciclo da civilização e destaca que isso abre espaço para novas atitudes, proposições e querecências mais ousadas, capazes mesmo de nos tirar do atoleiro e da beira do precipício.

Tendo a concordar com ele e a torcer para que as mudanças possam acontecer o quanto antes. Resta saber como será enfrentar os bancos que dominam o mundo e, simultaneamente, a China, que vem vindo por ai com gosto de gás, atropelando na reta, engolindo mercados inteiros, com o apetite de um novo império.  

Vitória, 08 de Janeiro de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Limpeza

Limpeza

Tudo começou com a decisão de tirar os parasitas da orquídea que deveria ser transferida para um vaso de barro clarinho. De longe, parecem fazer parte da planta. São pontos escuros agarrados nos dois lados das folhas e nos caules. Olhando com mais atenção, vê-se que não deveriam estar ali.

Antes mesmo de terminar o serviço, vi que todas as demais orquídeas do jardim – mais de trinta – sofriam do mesmo mal. Como se não bastasse, todas elas estavam cobertas com uma camada fina e homogênea de pó preto, agregado com a umidade da maresia, coisa farta por aqui.

Com tempo sobrando, tratei de limpar uma por uma, cuidadosamente, com as pontas dos dedos e uma esponja de cozinha. Um trabalho maneiro e de resultados imediatos. A planta recupera suas cores naturais, um aspecto saudável e você fica recompensado, como se tivesse salvado a humanidade.

Estávamos em plena arrumação para as festas de fim de ano, dando os últimos retoques no alpendre construído na lateral da casa, onde poderemos enfrentar o calor de verão em condições bem favoráveis. Comer, coçar e limpar, basta começar.

Nem precisei de óculos para ver que as pedras ao redor da casa estavam totalmente cobertas por uma grossa camada de pó de minério. Algo medonho, mas nada que não pudesse ser removido com a ajuda de uma dessas máquinas de lava-a-jato, que adotei faz tempo. Práticas, portáteis e eficientes, elas também servem de brinquedo para marmanjos desocupados.

Com movimentos estudados e sistemáticos, limpei primeiro as pedras da entrada da casa e em seguida as da lateral. Dava gosto ver a sujeira ir sendo retirada pelo impacto do jato d’água sob alta pressão. A textura do granito ia reaparecendo aos poucos, deixando o piso bem mais claro e contrastado.

Um simples erro de pontaria fez surgir o bege claro do muro, que parecia limpo. Reajustei o jato para que ficasse mais difuso e a cor original surgiu, agradecida. Um olhar atento mostrou troncos de ibisco cobertos por uma mistura de pó preto com lodo velho. Um jato mais concentrado trouxe de volta o amarelado da casca. O verde das folhas foi obtido com água em regime de pulverização.

Ao desligar a bomba, lembrei-me dos dois homens que limpam as praias no começo das manhãs. Eles cumprem uma rotina serena e coordenada. Varrem as folhas das castanheiras e tudo que o mar deixa na areia, incluindo pedaços de pau, plásticos e sementes de mangue. Recolhem, com muito mais esforço, a sujeira produzida por homens, mulheres e crianças em dias de lazer à beira mar. Uma montoeira de coisas descartáveis: garrafas pet de todo tipo, cadeiras quebradas, plásticos, papéis, palitos de picolé e uma enorme quantidade de casca de côco verde. Varrem tudo, formam montinhos, colocam tudo em sacos enormes que carregam até a calçada e levam, em um carrinho, para onde o caminhão possa recolhê-los. Trabalham em silêncio e tranquilos.

Vê-los no ofício de limpar aquele pedaço do mundo sempre me faz pensar na vida. Passo por eles ao andar de um lado para o outro, em busca de saúde. A nossa saudação é sempre cordial e solidária. Imagino que saibam que aprecio aquele trabalho discreto e generoso, embora pouco valorizado pelos que usufruem dos seus resultados.

Há quem pense que sujar o mundo seja um direito inalienável do homem consumidor, quem adote o pressuposto de que sempre haverá quem limpe o que ele sujar. Imagino que algo parecido passe pela cabeça de quem decide o funcionamento das empresas que processam minério de ferro e carvão na Ponta de Tubarão e sujam tudo por aqui.

Vitória, 26 de dezembro de 2012

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Tempestades

Tempestades

O domingo está cinza, coberto por nuvens sem forma. Ontem, no fim da tarde, bateu um pé d’água fortíssimo por aqui, desses de tremer os vidros e fazer pensar na vida. Não durou muito, mas imaginei que a festa de fim de ano da empresa teria de ser adiada para quando Deus desse bom tempo. A chuva veio trazida por um vento muito forte e encharcou tudo o que havia sido arrumado para receber umas trinta pessoas.

A tempestade me fez lembrar daquela que enfrentamos na praia de Regência, exatamente ali onde construíram a sede do Projeto Tamar. Chegamos no início da tarde para pegar a maré subindo, quando, reza a crença dos pescadores, os peixes ficam mais interessados em comer as iscas que lhes são oferecidas traiçoeiramente, recheadas com anzol.

Tempo firme, mar completamente calmo e vento soprando do leste. Estava fácil avançar mar a dentro, ultrapassar o valão com água nos peitos e braços para o alto até atingir o banco de areia que existia poucos metros adiante. Com água nas canelas, podia-se fazer o arremesso com categoria, lançando as iscas para além da arrebentação onde, se supõe, nadam os robalos maiores.

Naquele dia os peixes estavam vorazes como nunca. Em pescaria promissora, barraca mal armada. De olho nas varas de bambu e correndo na areia quente para tentar ferrar bicho graúdo, nossa barraca fora montada de qualquer jeito. Ela ficara presa ao solo apenas por pequenos grampos de ferro enfiados na areia fofa. Terminada a pescaria, ninguém se lembrou de ancorá-la com cordinhas resistentes.

Turma de pescaria é uma instituição. Normalmente ela dura uma vida inteira, mesmo que falte peixe, mesmo que se pare de pescar. Sempre tive uma turma para pescar de mergulho e uma outra para a pesca de vara de arremesso em praia e do alto de pedra. A de pesca de linha incluía pelo menos duas figuras indispensáveis. Um grande bebedor de cerveja e um eterno esfomeado.

O primeiro, dono de grandes bigodes, sempre se incumbiu de providenciar um isopor enorme, repleto de garrafas. Ele sempre colocava as cervejas para gelar de véspera. Antes da viagem, religiosamente, escorria a água e completava a carga de gelo, garantindo, assim, que beberíamos o líquido estupidamente gelado.

O outro sempre cuidou do rancho, com atenção redobrada para as carnes, o sal grosso, as panelas e os espetos. Jamais deixou de levar uma boa cachaça. Esse, nem bem terminávamos de tirar as tralhas do carro, já saia em busca de um punhado de graveto para acender o fogo e de um toco grande para colocar ao lado do buraco cavado na areia. Em poucos minutos, lá estava o primeiro frango recebendo o calor do fogo, quase sempre recheado com gomos de laranja. O serviço era feito com um copo de cerveja na mão, muitas reclamações e frases de impacto. Reclamar de tudo e falar bobagens o tempo inteiro fazia parte do personagem. Nunca houve pescaria sem discussão, mas sempre tinha gente morrendo de rir. “Abre mais uma gelada, bonitão” era grito ouvido com frequência, sempre seguido da reclamação de que iria faltar cerveja.
Tarde da noite, de barriga cheia e cabeça meio mole de cachaça, entramos na barraca para dormir com céu limpo e a Via Láctea inteiramente à mostra, majestosa, sobre nós.
Custei a entender o que estava acontecendo quando senti aquele pano molhado bater no meu rosto. Uma tempestade com ventos fortíssimos havia jogado tudo no chão. Só nos restou tomar um bom banho de chuva, abrir mais uma gelada e lançar linha ao mar. Amanhecia.

Vitória, 12 de Dezembro de 2011
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Caras Pintadas

Caras Pintadas

Resolvi finalizar o que tinha escrito e, por um pequeno descuido, desses que você não esquece para o resto da vida, deletei tudo o que havia feito. Diante da tela acinzentada, fiquei pensando na durabilidade das palavras quando escritas em uma folha de papel com uma tinta apropriada. O texto era mais ou menos assim.

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Em uma reportagem espetacular, o jornal “O Estado de São Paulo”, na sua edição de domingo, 20 de novembro de 2011, informa e comprova que foi uma banda capixaba de rock a primeira a subir aos palcos com as caras pintadas. Até então, esse mérito era atribuído às bandas de Alice Cooper e de David Bowie. Os Secos & Molhados carregavam a fama de terem lançado a moda no Brasil, cantando com pouca roupa, muitas plumas e maquiagem pesada. Lembro-me de um show deles em Brasília por volta de 1973, tempo em que o Dzi Croquettes, uma animada trupe de rapazes, dava espetáculos de música e dança sofisticadíssimos, sob a batuta do dançarino americano Lennie Dale. Vivendo em comunidade, eles se utilizavam de uma fina linguagem de deboche contra o mundo careta e o regime militar, que tudo proibia. Foram-se todos para a França, para deleite do mundo.
O reparo veio depois de mais de 40 anos de espera. Finalmente, Afonso Abreu, Marco Antônio Grijó, Mario Rui e outros Mamíferos de criação foram reconhecidos como os primeiros roqueiros a subir nos palcos usando fantasias e caras pintadas para chocar o público. O “Estadão” dedicou ao tema duas páginas inteiras do seu Caderno matéria de capa, com diagramação primorosa e texto convicto, traz fotos e depoimentos de artistas famosos, de gente que fez e de gente que viu. O feito se deu durante a apresentação de um rock pesado num festival de música popular em fins dos anos 60, no ginásio lotado do SESC, nas imediações do Parque Moscoso.
Trago esta notícia ao conhecimento dos leitores na tentativa de compensar os impactos negativos do noticiário dos últimos dias e, sobretudo, para mostrar que nem tudo está perdido. Falo do vazamento de petróleo na Bacia de Campos e da provável extinção do sistema FUNDAP, dois temas que estão presentes em qualquer roda de empresários e gente de governo. Há muita indignação e desassossego no ar.
Pelo que se pode saber, as falhas ocorridas em alto mar foram frutos da ganância e do descaso de uma companhia petroleira reincidente. O vazamento foi comunicado à população por meio de uma nota cínica, que tentava mostrar o desastre como algo natural e de menor importância. Os fatos deixaram a nu o despreparo de empresas e de órgãos de governo. O que se viu foram homens públicos dando cabeçadas, disputando holofotes ou brincando de pique esconde. A corrida desenfreada por aumentos expressivos na produção de petróleo e a batalha pelos royalties ganharam um novo elemento. Determinante do uso de bom senso em larga escala, espero.
Como se isso não bastasse, a iminente eliminação do FUNDAP, incentivo fiscal criado em tempos de vacas magérrimas e café aguado, representa uma grande ameaça à felicidade geral aqui no Espírito Santo. Há quem diga que, no começo, o estrago maior se dará na região da Grande Vitória, onde muitas empresas fecharão as portas e muita gente ficará sem emprego. Em seguida, o comércio e o mercado imobiliário sofrerão o baque da falta de dinheiro e de confiança. Depois, faltará merenda escolar e recursos para pagar o funcionalismo em praticamente todos os municípios. Os mais sarcásticos estão dizendo que, em compensação, vai faltar verba para manter as Câmaras de Vereadores.         

Vitória, 28 de Novembro de 2011
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA