Tempestades
O domingo está cinza, coberto por nuvens sem forma. Ontem, no fim da tarde, bateu um pé d’água fortíssimo por aqui, desses de tremer os vidros e fazer pensar na vida. Não durou muito, mas imaginei que a festa de fim de ano da empresa teria de ser adiada para quando Deus desse bom tempo. A chuva veio trazida por um vento muito forte e encharcou tudo o que havia sido arrumado para receber umas trinta pessoas.
A tempestade me fez lembrar daquela que enfrentamos na praia de Regência, exatamente ali onde construíram a sede do Projeto Tamar. Chegamos no início da tarde para pegar a maré subindo, quando, reza a crença dos pescadores, os peixes ficam mais interessados em comer as iscas que lhes são oferecidas traiçoeiramente, recheadas com anzol.
Tempo firme, mar completamente calmo e vento soprando do leste. Estava fácil avançar mar a dentro, ultrapassar o valão com água nos peitos e braços para o alto até atingir o banco de areia que existia poucos metros adiante. Com água nas canelas, podia-se fazer o arremesso com categoria, lançando as iscas para além da arrebentação onde, se supõe, nadam os robalos maiores.
Naquele dia os peixes estavam vorazes como nunca. Em pescaria promissora, barraca mal armada. De olho nas varas de bambu e correndo na areia quente para tentar ferrar bicho graúdo, nossa barraca fora montada de qualquer jeito. Ela ficara presa ao solo apenas por pequenos grampos de ferro enfiados na areia fofa. Terminada a pescaria, ninguém se lembrou de ancorá-la com cordinhas resistentes.
Turma de pescaria é uma instituição. Normalmente ela dura uma vida inteira, mesmo que falte peixe, mesmo que se pare de pescar. Sempre tive uma turma para pescar de mergulho e uma outra para a pesca de vara de arremesso em praia e do alto de pedra. A de pesca de linha incluía pelo menos duas figuras indispensáveis. Um grande bebedor de cerveja e um eterno esfomeado.
O primeiro, dono de grandes bigodes, sempre se incumbiu de providenciar um isopor enorme, repleto de garrafas. Ele sempre colocava as cervejas para gelar de véspera. Antes da viagem, religiosamente, escorria a água e completava a carga de gelo, garantindo, assim, que beberíamos o líquido estupidamente gelado.
O outro sempre cuidou do rancho, com atenção redobrada para as carnes, o sal grosso, as panelas e os espetos. Jamais deixou de levar uma boa cachaça. Esse, nem bem terminávamos de tirar as tralhas do carro, já saia em busca de um punhado de graveto para acender o fogo e de um toco grande para colocar ao lado do buraco cavado na areia. Em poucos minutos, lá estava o primeiro frango recebendo o calor do fogo, quase sempre recheado com gomos de laranja. O serviço era feito com um copo de cerveja na mão, muitas reclamações e frases de impacto. Reclamar de tudo e falar bobagens o tempo inteiro fazia parte do personagem. Nunca houve pescaria sem discussão, mas sempre tinha gente morrendo de rir. “Abre mais uma gelada, bonitão” era grito ouvido com frequência, sempre seguido da reclamação de que iria faltar cerveja.
Tarde da noite, de barriga cheia e cabeça meio mole de cachaça, entramos na barraca para dormir com céu limpo e a Via Láctea inteiramente à mostra, majestosa, sobre nós.
Custei a entender o que estava acontecendo quando senti aquele pano molhado bater no meu rosto. Uma tempestade com ventos fortíssimos havia jogado tudo no chão. Só nos restou tomar um bom banho de chuva, abrir mais uma gelada e lançar linha ao mar. Amanhecia.
Vitória, 12 de Dezembro de 2011
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
