Demorou…
O ano nem bem começou e um amigo que não vejo há muito tempo me enviou mais umas tantas mensagens do tipo conscientizadoras. Não é novidade. Ele vem fazendo isso com boa frequência e regularidade nos últimos dois anos. Normalmente são notícias inteiras de jornais, artigos assinados e indicativos de reportagens. Vez por outra ele manda sugestões de livros que estão sendo lançados e textos de clássicos da economia política.
As duas últimas remessas trataram de dinheiro. A primeira enaltece o saldo recorde no balanço comercial – a diferença entre os dólares que entram e os que saem do país. Ai incluídos os que resultam das compras e vendas de bens e serviços, os dos pagamentos de royalties, os que vieram para compor investimentos produtivos e, também, aqueles dólares desconfiados e espertinhos, que vieram pra cá em busca de juros generosos, safados, pra falar a verdade.
A outra mensagem trata do orçamento da União para 2012, indicando como fonte de informações a Câmara dos Deputados. Parece coisa oficial e verdadeira. Traz um número assustador: 47,19% do total que vier a ser arrecadado pelo governo federal durante o ano serão destinados ao pagamento de Juros e Amortização da Dívida Pública. Exatos R$ 1,014 trilhão, dinheiro que daria para pagar a conta do programa bolsa família durante uns 80 anos seguidos. Um absurdo sem medidas.
Confesso que levei um grande susto ao fazer essa conta, que trato de dividir com os leitores que pagarão impostos diariamente, como eu. É mais do que sabido que o Brasil paga as maiores taxas de juros do mundo e que pratica a maior carga tributária do planeta, sem qualquer dó da sua população e das suas empresas. É duro de dizer, mas o brasileiro fica com cara de otário nesse filme de terror ambientado nesse início de milênio, no momento em que a Europa e os Estados Unidos, cada qual ao seu modo, experimentam a decadência e começam a dar sinais de esgotamento no comando de um sistema econômico perverso, que concentra riquezas e poderes de forma radical.
Falando nisso, ontem terminei a leitura de A Refundação do Brasil, livro recém-escrito por Luiz Gonzaga Souza Lima, um amigo de longa data, apaixonado pelo Brasil. Ele é convicto da oportunidade e da urgência de buscarmos formas mais harmoniosas e generosas de seguirmos em frente, na busca de uma sociedade centrada na vida e em substituição ao que ele denomina de sistema econômico da exclusão e da morte.
Fundamentado em reflexões pessoais e no que aprendeu com Darcy Ribeiro, Caio Prado Jr, Joaquim Nabuco, Raymundo Faoro, Gilberto Freire, Celso Furtado, Leonardo Boff e tantos outros, ele relata a formação econômica e política do nosso país – inteiramente voltada para a produção destinada ao mercado mundial – e entende que a nossa cultura plural e única pode ser um poderoso instrumento para que o Homem possa alcançar alegria e felicidade, vivendo em sociedades que aceitem as diferenças e valorizem a vida.
Assim como eu, Jeanne Bilich e muita gente, Luiz está convencido de que já estamos em mais um fim de ciclo da civilização e destaca que isso abre espaço para novas atitudes, proposições e querecências mais ousadas, capazes mesmo de nos tirar do atoleiro e da beira do precipício.
Tendo a concordar com ele e a torcer para que as mudanças possam acontecer o quanto antes. Resta saber como será enfrentar os bancos que dominam o mundo e, simultaneamente, a China, que vem vindo por ai com gosto de gás, atropelando na reta, engolindo mercados inteiros, com o apetite de um novo império.
Vitória, 08 de Janeiro de 2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
