Girando
Todo mundo sabe que as dificuldades de escrever uma boa crônica começam pela escolha de um bom assunto: um fato curioso, uma imagem expressiva, uma situação inusitada, uma história engraçada, o voo de uma gaivota. Alguma coisa que possa servir de elemento central de uma narrativa, que tenha consistência, que permita agregar ideias, emoções e tudo o mais.
Escrever uma crônica é parecido com resolver uma equação matemática. Disseca-se o assunto passo a passo, garantindo-se que o leitor possa encontrar razão para seguir em frente, até o fim. É sempre bom que tenha um começo instigante, um recheio rico em elementos de boa lógica e curiosidades e um final que possa ter alguma coisa de surpreendente.
Na infinidade de temas interessantes reside a maior dificuldade. Qualquer assunto pode resultar em uma crônica razoável, honesta o suficiente para que o leitor possa lê-la sem pressa e com atenção. A escolha não é nada fácil. Imagino o que seria dos alunos que estivessem fazendo prova de português no vestibular, cuja única questão fosse fazer uma redação sobre um assunto qualquer, à sua livre escolha. É bem provável que mais da metade não conseguisse escrever uma linha sequer.
Pois bem, hoje para mim essa tarefa ficou ainda mais complicada, depois que uma labirintite se apoderou da minha cabeça e fez de mim um homem zonzo, sem equilíbrio. Não sou pessoa de exageros, mas somente quando fico deitado, com a cabeça parada, é que o teto permanece em cima e as paredes na vertical. O bicho pega quando resolvo sair do quarto, me agarrando nas paredes e nos móveis. Quem me visse andando pela casa poderia achar que eu estava brincando de Homem Aranha.
Imagine você a sinuca em que estou nesta manhã de domingo, com labirintite e sem um tema para a crônica que tenho que entregar no começo da tarde de amanhã. Enfrento esse drama desde ontem, quando o tal desequilibro se instalou. Passei o dia pensando em como seria redigir nessas condições. Precavido, experimentei manter a cabeça firme na horizontal, alternando o olhar nas teclas e no monitor. Constatei que poderia ter sucesso, desde que não fizesse movimentos bruscos com os olhos nem balançasse a cabeça.
Como sempre acontece, durante a semana havia garimpado na memória, nos jornais, na TV e nas ruas alguns fatos promissores: mudanças na CBD; mais trocas de ministros em Brasília; novo vazamento de petróleo em Campos; anúncio da entrada em operação de mais um conjunto de chaminés de usina de pelotização; campanha milionária para convencer que empresa que polui é uma grande parceira de todos nós; associação de moradores exigindo que o Governo do Estado tome providências contra os emissores de pó preto; vitória do Fluminense; o vento sul que se instalou na sexta feira.
De tudo que vi, o que mais me chamou a atenção foi uma cena bem brasileira dos tempos atuais e dos que vêm vindo por aí: um casal descendo a pé a ladeira do Hospital Infantil, em pleno sol quente. A mãe, quase uma menina, carregava o filho recém-nascido com expressão aflita. Ao seu lado, de bermudão colorido, sandália de dedo, sem camisa e com óculos na cabeça, seguia um rapaz de menos de vinte anos, que parecia ser o pai da criança. Constrangido e sem graça, ele rodava sem parar a camiseta com a mão direita, possivelmente pensando na encrenca em que se metera. Ao dobrarem a esquina, me veio a sensação de que aquela união não duraria muito tempo e que, em breve, ele faria mais filho, em uma outra companheira de noitadas, fazendo a vida girar, construindo futuro.
Vitória, 18.03.2012
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
