Vale Tudo

Vale Tudo

Viajar deveria ser obrigatório. Sobretudo quando se consegue conjugar trabalho e lazer. Homem experiente, agendei viagem a São Paulo para visitar as filhas e aproveitar para trabalhar um pouquinho. O musical sobre a vida de Tim Maia era o item principal da programação cultural. Na temporada do Rio de Janeiro o espetáculo foi visto por mais de cem mil pessoas. Os ingressos foram comprados com boa antecedência, mas só conseguimos cadeiras na penúltima fila. Na plateia, a maioria era de gente mais velha, como eu. Há algum tempo venho pagando meia entrada, uma espécie de compensação por ter conseguido passar dos sessenta.

Sou fã do Tim desde o final dos anos 60, quando ele começou a mostrar sua ginga e sua alma cheia de dores, poesia e sarcasmo. Mais tarde, achei graça de Jorge Ben prometendo chamar Tim Maia, o síndico, para botar ordem no pedaço.

Foram três horas de espetáculo movimentado e muito emocionante, com roteiro baseado na biografia escrita por Nelson Motta. O trabalho de direção é muito bom e não vi nem um ator global em cena. A começar por Tiago Abravanel, que encarna o personagem central, os artistas me eram desconhecidos. Todos têm cara de gente da turma do Tim e cantam muito bem. Uma banda competente, colocada na parede do fundo do palco, garante o ritmo da festa.

Abravanel consegue dar vida a Tim Maia nas diferentes épocas de sua rica e conturbada trajetória pessoal. Tem suingue e expressão gestual convincente e um vozeirão afinado no tom do homenageado. Passagens curiosas e cenas magistrais se sucedem no palco. A ingenuidade do primeiro conjunto com Erasmo e Roberto Carlos, os anos vividos nos Estados Unidos, os encontros com Elis Regina e Edu Lobo, a descoberta do som de João Gilberto, os altos e baixos da vida amorosa com Janete, o envolvimento com as drogas lícitas e ilícitas, a temporada no mundo do fanatismo religioso, os seus famosos atrasos enervantes, a viagem alucinada dos funcionários da gravadora que aceitaram LSD que ele deu de presente. Lá estão também a energia de shows contagiantes, a prepotências dos famosos, a dor criativa da solidão, o processo irreversível de engordar, o começo e o fim da decadência, o infarto no palco, em Niterói.

Dá gosto de ver. O público, inteiramente tomado por lembranças pessoais e fortes emoções, bate palmas ao longo do espetáculo e, sobretudo, no final da festa. Só desafinou um pouquinho quando Abravanel agradeceu a Deus solenemente pelo sucesso e pediu aos presentes que prometessem ir ao teatro, sempre.

Estou há quase uma semana cantarolando Vale Tudo, Vou Pedir Pra Você Voltar e Do Leme ao Pontal. Foi muito bom para desopilar o fígado. Março terminara com mais notícias escabrosas vindas do mundo político, de matar de vergonha parentes e colegas de trabalho: um senador por Goiás denunciado por ajudar a operar esquema de corrupção de um poderoso contraventor. Parece uma retaliação mafiosa por quebra unilateral de contrato. Ao lado disso, a Comissão de Ética da Presidência da República finalmente decidiu pedir explicações ao ministro acusado de receber 2 milhões de reais por serviços de consultoria especializada que haveria de prestar aos “investidores” mineiros após a eleição presidencial.

A prática do chamado toma-lá-dá-cá vai sendo institucionalizada com total descaramento. Há quem diga que sempre foi assim e que só agora a bandalheira está aparecendo na imprensa. Prefiro pensar que a coisa está degringolando de tal forma que vai ser difícil encontrar síndicos que possam dar jeito nisso.

Vitória, 02 de Abril de 2012.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

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