Desespero

Desespero

A semana passada foi cheia de fatos que expressam os tempos que vivemos. Sem conexão direta entre si, retratam cenas novas de eternos embates pessoais, de grupos organizados e de governos. Lá fora e por aqui no Brasil.

Na Europa, em função da evolução da crise financeira que vai tomando corpo e dimensão grave, e da absoluta necessidade de tentar manter a situação sob controle, os donos do dinheiro do mundo trocaram um primeiro ministro queixudo, de cara simpática, por um senhor que já lhes havia prestado serviço em posição de confiança. Eles também ajudaram a defenestrar o mandatário de um outro país em situação de risco, usuário de cabelos implantados e cuidadosamente pintados, dono de uma péssima reputação pessoal.

No Rio de Janeiro, prenderam um poderoso chefe do tráfico que tentava escapar do cerco policial, escondido no bagageiro de um carro de luxo. Houve tentativas de suborno de policiais e discursos de dirigentes em solenidade para comemorar vitória. Aos poucos, com método e estratégia, o poder público vai tentando ocupar um espaço que perdeu faz tempo nas favelas cariocas, se é que já o teve. É disputa medida em palmos, visando a segurança de eventos mundiais.

Na Avenida Rio Branco, fizeram uma grande passeata pedindo justiça, respeito e o dinheiro do petróleo que vai jorrar no mar alto, daqui pra frente. A fotografia aérea me fez lembrar da Passeata dos Cem Mil que aconteceu naquele mesmo lugar em junho de 1968, em favor da liberdade, contra o regime militar. Amigos que estudavam no Rio me contaram que havia plena convicção na alma dos participantes e que tinha sido muito emocionante estar no meio daquela multidão de indignados.

Por aqui, o governo promoveu um ato público na Praça dos Namorados em Vitória para marcar posição ao lado dos cariocas e contra as expectativas de todos os demais Estados brasileiros. A intenção era sensibilizar a presidente de todos nós. Pude ver imagens e declarações pela televisão e ouvir ao longe a batida do rap e do samba no começo da noite. Soube que o governo promoveu a liberação das roletas dos ônibus e das cancelas do pedágio da Terceira Ponte na tentativa de engrossar a participação popular. Conseguiram trazer comitivas das cidades do interior, em ônibus fretados. Parece que teve gente que aproveitou para tomar um bom banho de mar ou dar uma passadinha no shopping.

Para muita gente, royalties é uma palavra difícil de escrever e de entendimento ainda bem mais complicado. Embora o petróleo seja nosso, por certo não será uma peleja fácil de vencer.

Soube pelo rádio do carro que, inconformados, funcionários de empresa tercerizada bloquearam a entrada principal de uma siderúrgica em protesto pela falta de pagamento dos salários atrasados. Revoltados, motoristas de caminhão bloquearam uma rodovia federal pela impossibilidade de entrarem no pátio da siderúrgica para descarregar. Prejudicado, o estagiário que saiu às sete horas de Jacaraípe, só chegou no escritório em Santa Lúcia depois do meio dia.

Em Brasília, pressionado por denúncias de corrupção, um ministro com cara de leitão resolveu falar grosso em defesa da lisura e dos próprios interesses. Esperto, pediu perdão declarando amor por quem poderia demiti-lo por razões políticas ou qualquer outro motivo oficial.

Restou uma reflexão meio marota: o que surtirá mais efeito, uma pressão política sob encomenda ou uma falsa declaração de amor? Pelos seus largos sorrisos no noticiário, tive a impressão de que a declaração amoleceu o coração da presidente.

Vitória, 14 de novembro de 2011

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Insônia

Insônia (COM PEQUENOS CORTES)

Sempre dormi que nem pedra. De sete a oito horas de sono por noite, como é comum entre as pessoas normais. Sim, no quesito sono sereno posso ser classificado como uma pessoa perfeitamente normal. Sempre dormi por volta da meia noite e acordei beirando as sete. Quase sempre, ainda deitado, tento adivinhar que horas são tomando por base o pouco de céu que vejo pela janela e, sobretudo o que me diz aquela espécie de relógio biológico que temos dentro da cabeça. Gosto de tentar acertar as horas e, sobretudo, os minutos.

Por acreditar indispensável à sobrevivência, sempre cuidei de saber as horas, a posição e o rumo. Também gosto de saber a direção do vento, a condição da maré, a fase da lua, se vai chover ou fazer sol. Tenho sempre a sensação de que a minha vida depende dessas informações. Talvez seja alguma coisa do homem antigo, de quem precisava caçar para comer e encontrar abrigo para dormir.

Por toda esta vida, sempre dormi a noite inteira e com boa tranquilidade. Felizmente, tenho passado as noites dormindo. Nada de ficar me debatendo na cama contra a insônia, perambulando pela casa em busca de algo pra fazer, semi-acordado diante da televisão esperando o sono, ou lendo um livro até deixá-lo cair no colchão. Comigo, acordar de madrugada, só mesmo para enfrentar viagens longas ou para pescar em alto mar.

Prefiro ir para a estrada antes de amanhecer, quando as saídas das cidades estão quase desertas e as estradas ainda estão bem vazias. A viagem rende. As viagens a bordo do nosso ônibus transformado em trailler mambembe sempre começavam no escuro, com a turma ainda dormindo lá atrás. Tratava de dirigir sem muitos solavancos para que ninguém acordasse assustado ou caísse da cama. Em passeios com a família, dava gosto ver os filhos pequenos acordarem com cara amassada e risonha. Imagino que hoje, já adultos, ainda se lembrem desses momentos, quando olhavam para o mundo pela janela, sem a mínima noção de onde estavam. Cada dia um lugar diferente, mas sempre a mesma sensação de aventura.

Nas pescarias de alto mar, as saídas sempre acontecem com o dia querendo começar a clarear. É condição para conseguir lançar as linhas na água no comecinho da manhã, quando se supõe que os peixes estejam mais famintos. Tem gente que gosta de aproveitar o tempo de navegação mar a dentro para dormir mais um pouco. É um sono intranquilo, sempre atento aos movimentos da lancha enfrentando o mar, normalmente mais calmo nessa hora do dia, quando o vento ainda está resolvendo o que fazer.

Sempre gostei de estar de olhos bem atentos ao que acontece no horizonte em volta da lancha, acompanhando o amanhecer, pensando na vida e nos peixes. Não há para onde ir, nem o que fazer. Durante mais de uma hora, pode-se ficar em silêncio, operando em regime de espera. Cada saída para pescar é sempre diferente de todas as demais. A condição do mar, as cores do céu, os problemas que ficaram em terra, as expectativas de ferrar um peixe maior são particulares de cada madrugada e isso, por si só, nos coloca diante do novo e do incerto, nos faz perceber que a vida está seguindo.

Hoje, não sei bem o porque, acordei antes do sol. Depois de rolar na cama por algum tempo, levantei com disposição para enfrentar muitos quilômetros de asfaltos ou milhas marítimas. O café preto que acabo de tomar, que fiz sem qualquer pressa, estava com o mesmo sabor dos que sempre tomei antes de sair da casa nessas ocasiões, que acabo de reviver com as pontas dos dedos batendo neste teclado preto.

Vitória, 17 de Outubro de 2011

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Tartarugas

Tartarugas

As tartarugas estão dando sopa na Ilha do Boi. Digo isso porque tenho visto, quase todo dia, grande quantidade delas vindo à tona para respirar. Isso em dois pontos diferentes: no final de duas ruas sem saída, que terminam diante do mar. Vejo-as do alto do paredão que existe em cada uma delas.

Do primeiro fim de rua avista-se a ilha Gaeta de Dentro e o Clube Ítalo, tendo ao fundo a barra, repleta de navios fundeados, e a ponta de Tubarão, cheia de chaminés, fumaça e tudo o mais. Ali, as águas são bem calmas, o que facilita bastante o serviço de identificar uma cabeça de tartaruga na superfície, mesmo estando a boa distância.

O outro fica de cara pra Ilha do Frade. Dependendo da hora, o mar fica agitado pela força do vento nordeste, que sopra com muita disposição nesta época do ano. Mesmo olhando de cima, o reflexo do sol, as pequenas ondas e os pedaços de madeira que aparecem boiando dificultam o trabalho de localizar as tartarugas, sobretudo as menores.

Nessa atividade, o observador tem que estar atento, com o olhar ligado em sistema de varredura e com a visão lateral em estado de alerta. As tartarugas são rápidas e podem aparecer em todos os lugares, a qualquer momento. Depois de um longo mergulho, elas vêm a superfície ganhar oxigênio para continuar nadando. Ao mergulharem de volta, mostram um pedaço do casco e as nadadeiras traseiras, exatamente como fazem os mergulhadores, que deixam à mostra os seus pés de pato.

Conheço bem esse movimento. Mergulhei por muitos anos para pegar lagostas. Com os pulmões reabastecidos, nada-se em direção ao fundo em busca da presa. Esse é sempre um momento de expectativa e esperança. Encontrar uma ponta de antena de lagosta é tarefa que exige atenção, e perspicácia. Sobretudo em águas turvas, onde a visibilidade é pouca. A vegetação sub aquática dança ao movimento das águas e confunde o mergulhador.

Gosto de pensar que tenho visão de águia. De gavião velho, talvez. Divirto-me exercitando a capacidade de perceber movimentos e de localizar coisas em volta. Passarinho na árvore, guruçá na areia, manga madura e, agora, tartaruga no mar. Acredito piamente que quem procura acha o que esteja precisando e o que nem imaginava existir por perto.

Tenho levado Theo e Manu para procurar tartarugas comigo. Os dois estão aprendendo na velocidade própria aos pequenos e já conseguem localizar as que estão nadando mais próximo das pedras. Tem sempre comemoração pela tartaruga que viram e gritos de satisfação por terem conseguido avistá-la. Em casa, o assunto está presente na hora de comer e, sobretudo, de dormir. Os olhinhos brilham só de ouvir falar a palavra mágica. As tartarugas encantam as crianças. Talvez porque, nos desenhos animados, elas sempre aparecem como personagens sábias, criaturas amistosas de olhar cativante.

Hoje cedo, ensinando neto a procurar tartaruga no mar, me vi participando do processo de transmissão de experiências e conhecimentos que a humanidade pratica desde sempre. Na volta pra casa, com menino pela mão ladeira acima, me dei conta que, para a grande maioria das pessoas, já não mais será preciso aprender a identificar a direção dos ventos, saber se vai chover ou localizar o norte. Bastará que escolham o que esteja à sua disposição nas prateleiras das lojas e nos sites da internet.

Já não sou criança faz um bom tempo, mas guardo na lembrança a imagem de uma tartaruga enorme, que os pescadores tiraram do mar, na Praia do Canto. Naquele tempo, matar tartaruga não era crime. O casco era quase do tamanho do teto de um fusca.

Vitória,02 de Outubro de 2011
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Cozido

Cozido

Sou um cozinheiro de comidas para grandes públicos. Gosto de cozinhar pra gente que gosta de comer rindo, falando alto. Comida farta para juntar amigos em volta de mesas coloridas e fumegantes. Pai de cinco filhos e irmão de quatro, tenho feito almoços para quarenta e até cinquenta pessoas de bom apetite. Feijoadas completas, panelas enormes de arroz de polvo, moquecas de camarão miúdo, paellas e cozidos sortidos.
Gosto de cozinhar em cozinha cheia e barulhenta, mas trabalho em silêncio, concentrado no fio da faca, na largura das tirinhas da couve, na busca da melhor sequência das atividades. Prefiro dividir o serviço com pouca gente, de preferência com quem já esteja acostumado com minhas manias e que não precise de instruções detalhadas.
Engenheiro de produção, adoto conceitos e métodos que racionalizam o trabalho e economizam tempos e movimentos. Detesto cozinha suja. Uso e lavo talheres, pratos, travessas e panelas o tempo todo. Nada de acumular louças e utensílios dentro de pia cheia de água engordurada. Bancadas devem estar sempre limpas e desimpedidas, para se poder trabalhar com conforto.
Pois bem, esta semana fui convocado para fazer um cozido para comemorar o aniversário do casal de irmãos mais velhos e a aposentadoria do irmão mais novo. Tarefa de responsabilidade. Resolvi fazer um cozido sortido usando aipim manteiga, batatas doce, inglesa e baroa; milho, cebola, cenoura, maxixe, quiabo e jiló; abóboras vermelha e japonesa, couve e couve flor, repolhos roxo e verde; vagem, ervilha torta e banana da terra. Alho, cebola, salsa e cebolinha. Carne seca, fraldinha, carne de sol, costeleta de porco, bacon magro, paio, três tipos de linguiça, um bom pedaço de um embutido recomendado pelo rapaz que vende defumados na feira e uma dúzia de ovos. Sendo difícil calcular as quantidades, melhor fazer para sobrar. Todo mundo sabe que cozido no dia seguinte é mais gostoso ainda.Gosto de escolher pessoalmente os ingredientes. Tentar encontrar legumes em formato e tamanho homogêneos faz parte da diversão. Facilita o preparo e realça a apresentação na hora de servir.
Os portugueses e os espanhóis fazem cozido com poucos ingredientes. A mãe de uma amiga nossa faz o pessoal ficar triste de tanto comer seu cozido galego, feito só com batata inglesa, grão de bico, repolho e couve, paleta e embutidos bem curtidos.
Aprendi, com um cozinheiro de voz poderosa, a usar aquelas redinhas de plástico amarelas de embalar laranja: um grande macete que garante total controle do processo de cozimento dos legumes, a maior dificuldade no preparo desse prato. O ideal é usar uma para cada coisa. Aos que demonstram preocupação com a possibilidade de a redinha desmanchar na panela, digo que o plástico só derrete em temperaturas bem mais altas e trato de mudar de assunto, rapidamente.
Para quem não sabe, deve-se cozinhar primeiro as carnes mais duras em molho bem temperado, tendo-se em mente a necessidade de contar com um caldo farto para cozinhar, em panela bem grande, os legumes e as verduras. O ideal é começar pelo que demora mais a amolecer, deixando as abóboras e as verduras verdes para o final. Quando tudo estiver pronto, basta dar uma esquentada e ir abrindo redinha por redinha. Tem quem goste de montar as travessas jogando com o contraste das cores, para realçar a presença de cada alimento.

Desta vez a mandioca não amoleceu, mas o vento sul esfriou o tempo, o que ajudou bastante o pessoal a comer com bom estusiasmo.

Vitória, 19.09.2011

Alvaro Abreu

Escrita para  A GAZETA.

Sob pressão

Sob pressão

Na semana passada fui visitar um casal que acabara de se mudar para uma rua perto da nossa e encontrei o amigo em meio a muitas caixas de papelão, terminando de arrumar os livros na estante da sala. Quando cheguei, o que era considerado relevante já estava no devido lugar. Restava agora a pior parte: selecionar o que continuaria a guardar por mais uns tempos. Restaram pilhas de publicações diversas, incluindo uma enciclopédia, catálogos, dicionários de capa dura, mapas desatualizados, manuais de instruções, uma bela coleção de revistas em inglês e muito, muito mais.

Perguntei se os meninos da casa gostavam de livros como ele. Com um olhar resignado, ele confessou que os dois preferem o computador. Disparado. Deu dó de ver aquele professor cinqüentão constatando a inutilidade de muitas das coisas que acumulou durante anos, pensando nos filhos. Um serviço feito com parcimônia e generosidade, seguindo o exemplo do próprio pai. Tristonho, ele estava diante da verdade dos fatos: muito do que guardou havia perdido, de repente, a razão de ser. Na internet, a busca pelo que se quer é bem mais rápida, certeira e cômoda do que procurar em uma estante entulhada.

Aquela cena me fez lembrar de quando comprei um computador pra nossa casa. A filharada ficou eufórica, sobretudo o mais velho, que agora me lembrar que era um 386 com processador de 25 MegaHertz, 1 MB de memória RAM e monitor colorido. Tecnologia de última geração, em pleno ano de 1993. Fiz a compra por telefone. O vendedor veio de avião do Rio de Janeiro, especialmente para fazer a instalação e nos repassar as instruções de uso. Lembro-me que fiquei incomodado com a truculência com que ele conectava os cabos e batia os dedos nas teclas. Aquele homem enorme demonstrava pressa e nervosismo, talvez por saber que fazia algo fora da lei. Soube depois que o recheio dos computadores era trazidos dos EUA na bagagem de turistas.

Aquilo era uma grande novidade e fazia sucesso com os amigos e com os colegas dos meninos. Muito pouca gente tinha computador em casa. A internet era usada apenas para a troca de e-mails e a conexão ocupava a linha de telefone, provocando muita discussão. Havia fila para jogar Tetris, um jogo russo. Era fascinante remendar o texto, cortar e colar, trocar o corpo das letras, eletronicamente. Um amigo emprestou uma impressora matricial que imprimia as letras com nove agulhas. Fazia barulho, porém facilitava a vida.

Pois bem, estes últimos dias foram de grande inovação na vida familiar e no ambiente de trabalho. É que chegaram, depois de ansiosa espera, os iPhone 4, aparelhos que, acionados com a ponta de um ou, no máximo, dois dedos, permitem ao cidadão comum acessar praticamente tudo o que está disponível no mundo digital. Inclusive coisas que ele não imaginava existirem e das quais nem precisava. De fora, pude observar a excitação individual e o frenesi de pequenos grupos em torno dos aparelhos brancos, esfregando, mostrando, exclamando, experimentando, tocando, ouvindo, fotografando, enviando e recebendo, contando, pedindo, mostrando, telefonando… Tábua de maré, condições metereológicas, conta de banco, GPS, mapas e itinerários, chegadas de aviões, compra de ingresso, posição dos astros, rádio, telefonema de graça, música, lanterna, medidor de batimento cardíaco e muito mais.

Definitivamente, o futuro chegou por aqui. Confesso que estou me sentindo imprensado pela tecnologia da informação e acho que vou acabar tendo que começar a usar celular, nem que seja um daqueles já ultrapassados.

Vitória, 05.09.2011

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Mamíferos

Mamíferos

Vitória era um lugar pacato nos anos 60. Uma ilha de população bem pequena, risonha, muito animada e razoavelmente conservadora. Por onde se andasse, encontrava-se amigos, gente conhecida que se sabia de onde era ou o que fazia. As pessoas eram identificadas pelo nome ou apelido – quase todo mundo tinha o seu – e pela escola em que estudavam, por seu lugar de trabalho, pelo bar que frequentavam, pelo carro que dirigiam, pela rua em que moravam. Praticamente não havia gente desconhecida em cada um dos bairros.

A movimentação das pessoas era bem pequena. Quando necessário, ia-se ao centro da cidade para fazer compras, consultar o dentista ou colocar carta nos Correios. Meia dúzia de sinais ordenavam o trânsito, quando muito. Os duzentos metros de areia da antiga praia do Barracão eram mais do que suficientes para abrigar os banhistas da cidade.

Dançava-se na cidade inteira. Na saleta do Iate Club e no salão do Náutico, em Caratoíra; nos pisos de tábua corrida do Praia Tênis Clube, do Saldanha e do Clube Vitória. Os conjuntos de Hélio Mendes e Edson Quintaes animavam os bailes e as eletrolas mágicas de Jairo Maia animavam as festas. No Álvares Cabral, na Praça Costa Pereira, na pista da Odontologia, no alto do prédio do Banco Mineiro, no porão do IBEU e no anexo da FAFI, dançávamos com moças mais experientes.

Paralelamente aos sons da bossa nova, recrudesciam os tempos de insegurança em função da  política dura e do desacato das autoridades. Mundo afora, a juventude defen posições libertárias nas coisas do sexo, das drogas, das artes e da política. No Brasil, a turma da Tropicália marcava o ritmo e dava o tom da contra cultura.

Aqui, a vanguarda era a banda Os Mamíferos. Os animais não eram muitos. Afonso Abreu, Marco Antônio Grijó e Mário Ruy formavam a base. Arlindo Castro, Rogério Coimbra e Sérgio Régis engrossavam a ala dos compositores, ao lado de Aprygio Lírio, que soltava a voz e mostrava as garras na linha de frente.

O quartinho dos fundos da nossa casa na Rua Madeira de Freitas foi transformado em estúdio para ensaios acalorados. Sem ar condicionado. Os palcos disponíveis para bandas de rock eram bem poucos. A boate Macumba e o Teatro da ABI eram as opções. Os festivais de música foram momentos de glória e de muita pirraça. Tocar em público era uma batalha, sempre. Os instrumentos eram escassos, não havia mesa de som, os plugs teimavam em não funcionar e a microfonia era algo bem comum.

Os Mamíferos ovam a caretice, o status quo, o bem comportado. Convictos, eles provocavam o público com sons inovadores e estridentes, letras líricas e contundentes, roupas estranhas e rostos pintados. Os fãs não eram tantos, naturalmente, mas suas crias foram muitas, nas décadas seguintes.

Escrevo tudo isso porque fui ver a Banda Aurora Gordon reviver Os Mamíferos no Teatro Carlos Gomes, na semana passada, e sai de lá com um CD nas mãos e o passado na cabeça.

Foi emocionante ouvir novamente a sugestão de Mário Ruy e Sérgio Régis: “Se você tem um problema prá resolver, presta atenção no que eu vou dizer: agite antes de usar” e os apelos de Rogério, em “Antonieta, Antonieta, arranca a maçaneta dessa porta que te fecha” e de Afonso, em “Mônica, Verônica, atômica, atônita. Sem seus passos nas calçadas e as pessoas congeladas as vidas pedem silêncio; tira a poeira dos seus olhos…”. Pena que não tocaram Via Aérea, avisa: “Olho, amo e grito, corro e choro, mas não canto estribilhos, nem tampouco imploro. Sou meu próprio vôo”.

Vitória, 21 de Agosto de 2011

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Passado glorioso

Passado glorioso

Vista do alto, depois de 51 anos de inaugurada, Brasília espanta pela grande quantidade de construções que existem em volta do Plano Piloto, agora já praticamente tomado por prédios, vias e jardins. Quando sobrevoei a cidade pela primeira vez a bordo de um Electra da Varig, a cidade ainda estava bem no começo. Era outubro de 1972 e eu viajava por orientação do reitor da UFES, para uma entrevista no Ministério da Educação. Cursava o mestrado no Rio de Janeiro e ele me indicara para fazer parte da equipe do Departamento de Assuntos Universitários, que estava sendo montada com professores de várias universidades federais.

O terno de tirilene brilhante contrastava com a minha barba preta e com os cabelos nos ombros. A gravata apertava o pouco de pescoço que tenho e me fazia lembrar que aquela viagem não era de turismo. O sapato social fora comprado na ida para o aeroporto, pois tinha descoberto, minutos antes, que havia esquecido em Vitória o único par que eu tinha. Nessa época, andava-se de sandália de couro cru ou, no máximo, com um mocassin feito na Motex, em Copacabana.
A conversa com o diretor rendeu compromissos e três meses depois lá estava eu de volta à cidade, já casado, para trabalhar como assessor de um paraibano entusiasmado pela causa da educação. Muitos amigos haviam ponderado contra a minha ida e com razão. Estava em vigor um regime militar que impunha medo e limitações a quem se pretendesse independente e opinativo.

Vivendo longe de Brasília desde 1987, voltava agora para o lançamento de um livro sobre Edson Machado, matemático que se dedicou por mais de quarenta anos à educação, ciência e tecnologia, com quem trabalhei e convivi durante um bom tempo. Eu havia escrito um dos trinta depoimentos que compõem a publicação, que acabou virando um registro emocionado de fatos relevantes ocorridos na educação superior brasileira, nas últimas décadas.

Reencontrei-o em cadeira de rodas, inteiramente feliz por rever tantos amigos e colaboradores. Uma festa de reencontro de muitas pessoas que haviam trabalhado juntas e que não se viam há muitos anos. Pelo que pude perceber, estávamos todos orgulhosos de ter podido participar da história de Edson. Caçula daquela turma, muita gente achou graça na minha barba branca.

Pessoas que colaboram com Edson nos diversos momentos de sua trajetória a frente de órgãos públicos destacaram suas virtudes ao microfone. Célio, educador mato-grossense, lembrou sua habilidade de agregar pessoas em torno de propostas inovadoras; Hélio, sociólogo cearense, ressaltou sua capacidade de considerar as especificidades de cada região e dos níveis de ensino; Rodolfo, catarinense falante, destacou sua atenção com as práticas gerenciais; Roberto, físico carioca, enalteceu sua coragem na definição da política de informática; Mário, educador paranaense, lembrou sua habilidade de encontrar soluções duradouras.

Eunice, antropóloga paulista, fez questão de dizer que Edson sempre agiu movido por seus próprios valores e suas opiniões, livre de injunções político-partidárias e de limitações ideológicas, liderando equipes de técnicos e especialistas abnegados. Suas palavras colocaram o homenageado como contra-exemplo ao desmantelo de dirigentes e funcionários agindo como predadores dos dinheiros públicos, a serviço de interesses partidários da pior espécie.

Durante a leitura do livro, me dei conta da sorte que tive em poder trabalhar com gente da melhor qualidade, como todos aqueles senhores com quem conversei sobre o passado e abracei, emocionadamente.

Vitória, 08 de Agosto de 2011-08-08

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Já Era

JÁ ERA

Não sei se você reparou, mas o agasalho da nossa seleção, que já foi chamada de Canarinho, era preto. Não sei de onde surgiu essa novidade. Talvez para realçar a marca dos patrocinadores. O fundo escuro garante o indispensável contraste.

Que se saiba, o preto nunca esteve presente em nossos uniformes desportivos. Sempre o verde, o amarelo, o azul e o anco. As cores da bandeira, as cores do Brasil. Somos conhecidos no mundo inteiro por nossas cores vivas e alegres. Os povos tentam expressar nas suas bandeiras elementos de seus valores. Gosto da bola vermelha da bandeira japonesa e da folha da canadense.

Entendo quase nada de cores. Mas sei que o preto é a ausência total delas e que o anco resulta da soma de todas, como se pode comprovar fazendo girar um disco pintado com as cores básicas em gomos. É uma experiência criada por Newton que fascina crianças e adultos no Parque da Ciência da cidade. O anco surge como num passe de mágica, por oa e graça das leis da física. Não dá para querer culpar a cor dos agasalhos pela eliminação do nosso escrete.

Está mais do que comprovado que um gol pode determinar um resultado final de uma partida. Motiva quem o fez e deprime quem o sofreu. Gol com falha de goleiro é sempre desestabilizador. Fui goleiro e sei disso. Júlio César falhou no primeiro gol holandês, duplamente. Errou a trajetória da bola e empurrou o zagueiro que acertaria a cabeçada salvadora. A imagem da sua dor, mostrada em câmera lenta, me preocupou. Seu sofrimento foi tanto que atordoou a nossa dupla de zagueiros veteranos. Apesar de ser o melhor do mundo, ele deveria ter o direito de errar.

Quando a seleção sofreu o primeiro gol da Suécia, na final da copa de 58, Didi, o céreo do time, recolheu a bola no fundo da rede e, com ela debaixo do aço, caminhou pausadamente até o meio do campo. Olhou em volta, colocou a pelota no centro do gramado e partimos para o memorável cinco a dois, sob palmas da torcida sueca. Pelé, ainda bem novinho, chorou nos aços do time inteiro. A atitude do craque garantiu a estabilidade emocional do time, indispensável nas batalhas futebolísticas. No jogo contra a Holanda, vi nosso valente capitão desesperado, querendo resolver a partida na raça. Melhor seria se acalmasse os colegas e passasse instruções.

É provável que outro treinador fizesse melhor. Dunga é cabeça dura, mas o grupo que ele reuniu se mostrou coeso e alegre. Dava gosto de ver o time comemorando o gol. O problema é que faltou gol nos holandeses para comemorar. O pânico se alastrou com a falha do goleiro, com o nervosismo dos zagueiros, com os passes errados, com a firmeza da defesa adversária. O tal Fabuloso não viu a bola, nem chutou a gol. Pessoalmente, preferia Ganso e Neymar tabelando com Robinho, ganhando jogos com a descontração das molecagens de meninos e das jogadas geniais. Sem voluntarismos nem pancadas.

Prepotência não é atitude recomendável nas relações entre pessoas. A história tem demonstrado que ela também não funciona no futebol. O Ronaldo português que o diga. Gabava-se de ser o rei da cocada e voltou pra casa com cara de tacho e pés vazios.

A TV mostrou que havia uma bandeirinha asileira na camisa holandesa. Uma demonstração de fairplay que será guardada como troféu da vitória soe o time de Dunga, de uma era que também acabou.

Vitória, 07 de Julho de 2010

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Conforme previsto

Conforme previsto

Há algum tempo, escrevi aqui sobre a escolha da minha mãe como Cachoeirense Ausente No 1 de 2011 e falei da maratona que é o ciclo de homenagens e os eventos que acontecem em Cachoeiro nesta época, com total regularidade, há mais de sete décadas.

Neste ano comemora-se o centenário do nascimento de Newton Braga, poeta maior do sul do Estado e idealizador da festa da cidade. Isto fez a animação aumentar ainda mais.

Em plena quarta-feira lá fomos nós, em comitiva familiar, levar Dona Gracinha para abrir os festejos e receber as primeiras homenagens de seus conterrâneos.

Sentada ao lado da janela, ela se manteve em silêncio, observando a paisagem da estrada, durante quase todo o trajeto. Atenta, parecia conferir o que havia de novo ao longo do caminho, por onde já passara centenas de vezes. Acho que, enquanto chupava uma balinha de coco queimado Itabira, mamãe ia se lembrando da sua infância em Cachoeiro, da sua vida de menina estudante, da animação de mocinha se arrumando para passear na praça e ir dançar no Caçadores.

É quase certo que o coração dela deve ter acelerado ao máximo ao ouvir a bandinha tocando Meu Pequeno Cachoeiro quando a van estacionou diante das mais de cem pessoas que a esperavam no trevo do Horto União, em plena estrada da Safra.

Quando a porta de correr se abriu ela pode ter a exata dimensão da força das palmas, da altura dos gritos, do barulho dos foguetes, da montoeira de máquinas fotográficas em busca de uma imagem daquela senhora, meio atônita e inteiramente feliz com todo aquele alvoroço.

De braços abertos, mais do que sorridentes, ali estavam amigos de infância, parentes distantes, amigos dos filhos, gente entusiasmada de todo tipo e idade. Uma verdadeira festa da confraternização, uma recepção de fazer chorar marmanjo velho, senhoras elegantes e a caçula da família.

Pois lá estava Dona Gracinha atirando beijos para o público, recebendo abraços apertados, dando entrevista, declarando amor eterno pela sua terra, fazendo pose de artista famosa, plena de orgulho e de razões.

O quadro que ela havia pintado da casa onde nasceu fora transformado em um enorme banner, completado com uma fotografia dela aos trinta e poucos anos, elegante que só, metida em uma roupa escura e com sorriso amistoso e olhar meio maroto. Pano de fundo perfeito para fotos históricas.

A bordo de um sedã Mercedes Benz verde ela seguiu com o Prefeito e sua esposa para a Rua 25 de Março, à frente de uma carreata escoltada por carros de polícia com giroflex ligado, anunciando a chegada da Cachoeirense Ausente.

A solenidade no Centro Operário, situado bem de fronte da casa onde ela nasceu, foi emoção do começo ao fim, na forma de discurso, declarações de amor, música e poesia feita por amigo. Da janela que dá para a calçada, mamãe bateu palmas para a Lira de Ouro, de tantos carnavais de outrora.

À noite, na sessão solene da Câmara de Vereadores, vestida de vermelho vibrante, ela recebeu o título das mãos do seu Presidente. Com voz firme e boa entonação, discursou em agradecimento. Ganhou aplausos de mais de quatrocentas pessoas, inclusive de Elke Maravilha, outra homenageada.

Na volta pra casa, com a melhor cara deste mundo, declarou que iria descansar bastante para estar em plena forma para dançar no baile de gala no sábado. Mas isso é uma outra história.

Vitória, 28 de Junho de 2011
Alvaro Abreu

Escrita para A Gazeta

Perdeu

“Perdeu!”

O primeiro caderno da edição de A Gazeta do sábado, 11 de Junho, trouxe, em manchetes, leads e legendas, um retrato do que tem acontecido por aqui e redondezas. Ainda bem que tinha uma crônica de Marcos Alencar pra desopilar o fígado e ensinar um pouco mais sobre a alma das mulheres. As notícias me fizeram lembrar o espanto ingênuo de antigamente quando, por muito menos, se ouvia dizer que o mundo estava pelo avesso. Vejam parte do que li:
“Conselho de medicina dá ultimato ao Estado e às Prefeituras: Hospitais reprovados na blitz dos médicos. Macas enferrujadas, lixo perto dos leitos e corredores superlotados estão entre as mazelas nas unidades da Grande Vitória. Vigilâncias Sanitárias não se manifestam”;
“Mais uma devassa no Detran. Máfia dos pátios. Automóveis roubados são legalizados com documentos furtados nas Ciretrans do Estado. Mais de 100 veículos fraudados nas ruas. A suspeita é que o esquema ocorria desde 2007”;
“Telefonemas provam ligação entre delegada e traficante. Ligações e mensagens feitas por telefone celular revelam que eles negociavam favores. Mais um PM é investigado”;
“Todo bandido tem ética. Uma regra de quem é do crime: nunca entrega parceiro. Em toda profissão tem ética“ afirmou o advogado do rapaz que assassinou um estudante na USP, em São Paulo;
“Polícia apreende 1,8 toneladas de carne em açougue. Produto estragado era vendido em feira livre, aos sábados e às quartas. Dono foge, mas abatedouro é fechado. ‘Os donos desses açougues vão sofrer processo administrativo, que deve gerar multa’, disse o chefe da fiscalização”;
“Estudante esfaqueado na saída da escola. O colega que estava ao lado dele também levou um soco no rosto. Na mesma região, duas garotas foram assaltadas. Os bandidos estavam de bicicleta e fugiram com o cordão e o celular”;
“Professora flagrada com aluno no motel. Foi o marido dela quem fez a denúncia à polícia”;
“Conselheiros vão pedir renúncia do presidente do Tribunal de Contas do Estado. O STJ o condenou a dois anos e meio de prisão por ter recebido dinheiro de origem ilícita”;
“Liberdade para 439 bombeiros presos após invasão do quartel central da corporação, em manifestação por melhores salários e condições de trabalho”;
“Os envolvidos na morte do ex-prefeito vão recorrer da sentença em liberdade”;
“Governador afirma que não vai receber estudantes… manifestantes dizem que vão continuar com protestos nas ruas”;
“Aquaviário volta em 2012 para durar pelo menos cinco anos”.
Nas edições dos dias 14 e 15, a vida seguiu no mesmo diapasão:
“BR 101 mortes. Colisão com veículo que levava pacientes mata cinco e fere nove”;
“Justiça pede afastamento de dois policiais civis acusados de extorsão”;
“Diretor de presídio dividia lucro de criação de porcos com preso. Negócio acontecia na casa de custódia de Vila Velha, onde dupla também vendia lavagem e alumínio”;
R$20 por senha para marcar consulta médica”;
“Nove táxis clandestinos são apreendidos no aeroporto”;
“Cocaína em loja de brinquedo”.
Que Nossa Senhora da Penha nos proteja!

Vitória, 15 de junho de 2011.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA