Insônia

Insônia (COM PEQUENOS CORTES)

Sempre dormi que nem pedra. De sete a oito horas de sono por noite, como é comum entre as pessoas normais. Sim, no quesito sono sereno posso ser classificado como uma pessoa perfeitamente normal. Sempre dormi por volta da meia noite e acordei beirando as sete. Quase sempre, ainda deitado, tento adivinhar que horas são tomando por base o pouco de céu que vejo pela janela e, sobretudo o que me diz aquela espécie de relógio biológico que temos dentro da cabeça. Gosto de tentar acertar as horas e, sobretudo, os minutos.

Por acreditar indispensável à sobrevivência, sempre cuidei de saber as horas, a posição e o rumo. Também gosto de saber a direção do vento, a condição da maré, a fase da lua, se vai chover ou fazer sol. Tenho sempre a sensação de que a minha vida depende dessas informações. Talvez seja alguma coisa do homem antigo, de quem precisava caçar para comer e encontrar abrigo para dormir.

Por toda esta vida, sempre dormi a noite inteira e com boa tranquilidade. Felizmente, tenho passado as noites dormindo. Nada de ficar me debatendo na cama contra a insônia, perambulando pela casa em busca de algo pra fazer, semi-acordado diante da televisão esperando o sono, ou lendo um livro até deixá-lo cair no colchão. Comigo, acordar de madrugada, só mesmo para enfrentar viagens longas ou para pescar em alto mar.

Prefiro ir para a estrada antes de amanhecer, quando as saídas das cidades estão quase desertas e as estradas ainda estão bem vazias. A viagem rende. As viagens a bordo do nosso ônibus transformado em trailler mambembe sempre começavam no escuro, com a turma ainda dormindo lá atrás. Tratava de dirigir sem muitos solavancos para que ninguém acordasse assustado ou caísse da cama. Em passeios com a família, dava gosto ver os filhos pequenos acordarem com cara amassada e risonha. Imagino que hoje, já adultos, ainda se lembrem desses momentos, quando olhavam para o mundo pela janela, sem a mínima noção de onde estavam. Cada dia um lugar diferente, mas sempre a mesma sensação de aventura.

Nas pescarias de alto mar, as saídas sempre acontecem com o dia querendo começar a clarear. É condição para conseguir lançar as linhas na água no comecinho da manhã, quando se supõe que os peixes estejam mais famintos. Tem gente que gosta de aproveitar o tempo de navegação mar a dentro para dormir mais um pouco. É um sono intranquilo, sempre atento aos movimentos da lancha enfrentando o mar, normalmente mais calmo nessa hora do dia, quando o vento ainda está resolvendo o que fazer.

Sempre gostei de estar de olhos bem atentos ao que acontece no horizonte em volta da lancha, acompanhando o amanhecer, pensando na vida e nos peixes. Não há para onde ir, nem o que fazer. Durante mais de uma hora, pode-se ficar em silêncio, operando em regime de espera. Cada saída para pescar é sempre diferente de todas as demais. A condição do mar, as cores do céu, os problemas que ficaram em terra, as expectativas de ferrar um peixe maior são particulares de cada madrugada e isso, por si só, nos coloca diante do novo e do incerto, nos faz perceber que a vida está seguindo.

Hoje, não sei bem o porque, acordei antes do sol. Depois de rolar na cama por algum tempo, levantei com disposição para enfrentar muitos quilômetros de asfaltos ou milhas marítimas. O café preto que acabo de tomar, que fiz sem qualquer pressa, estava com o mesmo sabor dos que sempre tomei antes de sair da casa nessas ocasiões, que acabo de reviver com as pontas dos dedos batendo neste teclado preto.

Vitória, 17 de Outubro de 2011

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

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