Tartarugas
As tartarugas estão dando sopa na Ilha do Boi. Digo isso porque tenho visto, quase todo dia, grande quantidade delas vindo à tona para respirar. Isso em dois pontos diferentes: no final de duas ruas sem saída, que terminam diante do mar. Vejo-as do alto do paredão que existe em cada uma delas.
Do primeiro fim de rua avista-se a ilha Gaeta de Dentro e o Clube Ítalo, tendo ao fundo a barra, repleta de navios fundeados, e a ponta de Tubarão, cheia de chaminés, fumaça e tudo o mais. Ali, as águas são bem calmas, o que facilita bastante o serviço de identificar uma cabeça de tartaruga na superfície, mesmo estando a boa distância.
O outro fica de cara pra Ilha do Frade. Dependendo da hora, o mar fica agitado pela força do vento nordeste, que sopra com muita disposição nesta época do ano. Mesmo olhando de cima, o reflexo do sol, as pequenas ondas e os pedaços de madeira que aparecem boiando dificultam o trabalho de localizar as tartarugas, sobretudo as menores.
Nessa atividade, o observador tem que estar atento, com o olhar ligado em sistema de varredura e com a visão lateral em estado de alerta. As tartarugas são rápidas e podem aparecer em todos os lugares, a qualquer momento. Depois de um longo mergulho, elas vêm a superfície ganhar oxigênio para continuar nadando. Ao mergulharem de volta, mostram um pedaço do casco e as nadadeiras traseiras, exatamente como fazem os mergulhadores, que deixam à mostra os seus pés de pato.
Conheço bem esse movimento. Mergulhei por muitos anos para pegar lagostas. Com os pulmões reabastecidos, nada-se em direção ao fundo em busca da presa. Esse é sempre um momento de expectativa e esperança. Encontrar uma ponta de antena de lagosta é tarefa que exige atenção, e perspicácia. Sobretudo em águas turvas, onde a visibilidade é pouca. A vegetação sub aquática dança ao movimento das águas e confunde o mergulhador.
Gosto de pensar que tenho visão de águia. De gavião velho, talvez. Divirto-me exercitando a capacidade de perceber movimentos e de localizar coisas em volta. Passarinho na árvore, guruçá na areia, manga madura e, agora, tartaruga no mar. Acredito piamente que quem procura acha o que esteja precisando e o que nem imaginava existir por perto.
Tenho levado Theo e Manu para procurar tartarugas comigo. Os dois estão aprendendo na velocidade própria aos pequenos e já conseguem localizar as que estão nadando mais próximo das pedras. Tem sempre comemoração pela tartaruga que viram e gritos de satisfação por terem conseguido avistá-la. Em casa, o assunto está presente na hora de comer e, sobretudo, de dormir. Os olhinhos brilham só de ouvir falar a palavra mágica. As tartarugas encantam as crianças. Talvez porque, nos desenhos animados, elas sempre aparecem como personagens sábias, criaturas amistosas de olhar cativante.
Hoje cedo, ensinando neto a procurar tartaruga no mar, me vi participando do processo de transmissão de experiências e conhecimentos que a humanidade pratica desde sempre. Na volta pra casa, com menino pela mão ladeira acima, me dei conta que, para a grande maioria das pessoas, já não mais será preciso aprender a identificar a direção dos ventos, saber se vai chover ou localizar o norte. Bastará que escolham o que esteja à sua disposição nas prateleiras das lojas e nos sites da internet.
Já não sou criança faz um bom tempo, mas guardo na lembrança a imagem de uma tartaruga enorme, que os pescadores tiraram do mar, na Praia do Canto. Naquele tempo, matar tartaruga não era crime. O casco era quase do tamanho do teto de um fusca.
Vitória,02 de Outubro de 2011
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
