Desespero
A semana passada foi cheia de fatos que expressam os tempos que vivemos. Sem conexão direta entre si, retratam cenas novas de eternos embates pessoais, de grupos organizados e de governos. Lá fora e por aqui no Brasil.
Na Europa, em função da evolução da crise financeira que vai tomando corpo e dimensão grave, e da absoluta necessidade de tentar manter a situação sob controle, os donos do dinheiro do mundo trocaram um primeiro ministro queixudo, de cara simpática, por um senhor que já lhes havia prestado serviço em posição de confiança. Eles também ajudaram a defenestrar o mandatário de um outro país em situação de risco, usuário de cabelos implantados e cuidadosamente pintados, dono de uma péssima reputação pessoal.
No Rio de Janeiro, prenderam um poderoso chefe do tráfico que tentava escapar do cerco policial, escondido no bagageiro de um carro de luxo. Houve tentativas de suborno de policiais e discursos de dirigentes em solenidade para comemorar vitória. Aos poucos, com método e estratégia, o poder público vai tentando ocupar um espaço que perdeu faz tempo nas favelas cariocas, se é que já o teve. É disputa medida em palmos, visando a segurança de eventos mundiais.
Na Avenida Rio Branco, fizeram uma grande passeata pedindo justiça, respeito e o dinheiro do petróleo que vai jorrar no mar alto, daqui pra frente. A fotografia aérea me fez lembrar da Passeata dos Cem Mil que aconteceu naquele mesmo lugar em junho de 1968, em favor da liberdade, contra o regime militar. Amigos que estudavam no Rio me contaram que havia plena convicção na alma dos participantes e que tinha sido muito emocionante estar no meio daquela multidão de indignados.
Por aqui, o governo promoveu um ato público na Praça dos Namorados em Vitória para marcar posição ao lado dos cariocas e contra as expectativas de todos os demais Estados brasileiros. A intenção era sensibilizar a presidente de todos nós. Pude ver imagens e declarações pela televisão e ouvir ao longe a batida do rap e do samba no começo da noite. Soube que o governo promoveu a liberação das roletas dos ônibus e das cancelas do pedágio da Terceira Ponte na tentativa de engrossar a participação popular. Conseguiram trazer comitivas das cidades do interior, em ônibus fretados. Parece que teve gente que aproveitou para tomar um bom banho de mar ou dar uma passadinha no shopping.
Para muita gente, royalties é uma palavra difícil de escrever e de entendimento ainda bem mais complicado. Embora o petróleo seja nosso, por certo não será uma peleja fácil de vencer.
Soube pelo rádio do carro que, inconformados, funcionários de empresa tercerizada bloquearam a entrada principal de uma siderúrgica em protesto pela falta de pagamento dos salários atrasados. Revoltados, motoristas de caminhão bloquearam uma rodovia federal pela impossibilidade de entrarem no pátio da siderúrgica para descarregar. Prejudicado, o estagiário que saiu às sete horas de Jacaraípe, só chegou no escritório em Santa Lúcia depois do meio dia.
Em Brasília, pressionado por denúncias de corrupção, um ministro com cara de leitão resolveu falar grosso em defesa da lisura e dos próprios interesses. Esperto, pediu perdão declarando amor por quem poderia demiti-lo por razões políticas ou qualquer outro motivo oficial.
Restou uma reflexão meio marota: o que surtirá mais efeito, uma pressão política sob encomenda ou uma falsa declaração de amor? Pelos seus largos sorrisos no noticiário, tive a impressão de que a declaração amoleceu o coração da presidente.
Vitória, 14 de novembro de 2011
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
