Passado glorioso
Vista do alto, depois de 51 anos de inaugurada, Brasília espanta pela grande quantidade de construções que existem em volta do Plano Piloto, agora já praticamente tomado por prédios, vias e jardins. Quando sobrevoei a cidade pela primeira vez a bordo de um Electra da Varig, a cidade ainda estava bem no começo. Era outubro de 1972 e eu viajava por orientação do reitor da UFES, para uma entrevista no Ministério da Educação. Cursava o mestrado no Rio de Janeiro e ele me indicara para fazer parte da equipe do Departamento de Assuntos Universitários, que estava sendo montada com professores de várias universidades federais.
O terno de tirilene brilhante contrastava com a minha barba preta e com os cabelos nos ombros. A gravata apertava o pouco de pescoço que tenho e me fazia lembrar que aquela viagem não era de turismo. O sapato social fora comprado na ida para o aeroporto, pois tinha descoberto, minutos antes, que havia esquecido em Vitória o único par que eu tinha. Nessa época, andava-se de sandália de couro cru ou, no máximo, com um mocassin feito na Motex, em Copacabana.
A conversa com o diretor rendeu compromissos e três meses depois lá estava eu de volta à cidade, já casado, para trabalhar como assessor de um paraibano entusiasmado pela causa da educação. Muitos amigos haviam ponderado contra a minha ida e com razão. Estava em vigor um regime militar que impunha medo e limitações a quem se pretendesse independente e opinativo.
Vivendo longe de Brasília desde 1987, voltava agora para o lançamento de um livro sobre Edson Machado, matemático que se dedicou por mais de quarenta anos à educação, ciência e tecnologia, com quem trabalhei e convivi durante um bom tempo. Eu havia escrito um dos trinta depoimentos que compõem a publicação, que acabou virando um registro emocionado de fatos relevantes ocorridos na educação superior brasileira, nas últimas décadas.
Reencontrei-o em cadeira de rodas, inteiramente feliz por rever tantos amigos e colaboradores. Uma festa de reencontro de muitas pessoas que haviam trabalhado juntas e que não se viam há muitos anos. Pelo que pude perceber, estávamos todos orgulhosos de ter podido participar da história de Edson. Caçula daquela turma, muita gente achou graça na minha barba branca.
Pessoas que colaboram com Edson nos diversos momentos de sua trajetória a frente de órgãos públicos destacaram suas virtudes ao microfone. Célio, educador mato-grossense, lembrou sua habilidade de agregar pessoas em torno de propostas inovadoras; Hélio, sociólogo cearense, ressaltou sua capacidade de considerar as especificidades de cada região e dos níveis de ensino; Rodolfo, catarinense falante, destacou sua atenção com as práticas gerenciais; Roberto, físico carioca, enalteceu sua coragem na definição da política de informática; Mário, educador paranaense, lembrou sua habilidade de encontrar soluções duradouras.
Eunice, antropóloga paulista, fez questão de dizer que Edson sempre agiu movido por seus próprios valores e suas opiniões, livre de injunções político-partidárias e de limitações ideológicas, liderando equipes de técnicos e especialistas abnegados. Suas palavras colocaram o homenageado como contra-exemplo ao desmantelo de dirigentes e funcionários agindo como predadores dos dinheiros públicos, a serviço de interesses partidários da pior espécie.
Durante a leitura do livro, me dei conta da sorte que tive em poder trabalhar com gente da melhor qualidade, como todos aqueles senhores com quem conversei sobre o passado e abracei, emocionadamente.
Vitória, 08 de Agosto de 2011-08-08
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
