Bom de ver

Bom de ver

Andei esses dias por Minas Gerais. Fui dar palestra para alunos de engenharia de produção num encontro lá em São João Del Rey e aproveitei para passear um pouco pelas Alterosas, coisa que não fazia há um bom tempo. Vestido de turista, aproveitei para visitar a igreja de São Francisco, uma maravilha da arquitetura barroca, com altares enormes em madeira entalhada e duas imagens de olhos esbugalhados, feitas por Aleijadinho. Deixei as demais igrejas da cidade para uma próxima vez. Sem dó, pra falar a verdade.
É que Inhotim estava na pauta turística há anos, tendo mesmo influenciado na aceitação do convite para ir falar coisa séria tão longe de casa. Está ficando cada vez mais frequente encontrar quem fale com entusiasmo daquele lugar e quem declare vontade de conhecer o paraíso que um mineiro rico criou no meio do mundo. Muitos dizem querer voltar para ver o que não viram, por falta de tempo.
Trata-se de um jardim botânico belíssimo com construções em arquitetura moderna feitas para abrigar obras de arte contemporânea de grande expressão. Lá, pode-se ouvir o som da terra saído de um buraco de 202 metros de profundidade, ver uma máquina enorme de arrancar árvores presa em uma cúpula geodésica, dar de cara com as placas de aço de Amilcar de Castro na grama e ficar pensando na vida diante de enormes estacas metálicas cravadas no cimento, bem no meio do nada.
Os jardins foram idealizados por Burle Marx, que passou por lá logo no começo e deixou recomendações, inclusive a de preservar uma gigantesca árvore da qual não guardei o nome. Em Inhotim até velhos eucaliptos fazem pose de artista. Ganhei, porque pedi com insistência, um pedaço de bambu preto que só tinha visto em Alhambra, na Espanha.
Em Belo Horizonte, fui visitar o Museu de Artes e Ofícios instalado na antiga estação central da cidade. Ali, uma bela exposição mostra o Brasil de antigamente. Uma aula de história contada com utensílios, ferramentas e artefatos usados na produção de cachaças, queijos, sapatos, tecidos, jóias, panelas, móveis e muito mais. Isso sem falar em balança de escravos, cadeira de dentista, moinhos de pedra, foles de couro, rodas d’água, fogão de catre. Tudo gasto pelo uso intenso e impregnado de tempo. Os processos estão explicados com palavras inspiradas, boas de ler. Trabalho cuidadoso feito por iniciativa de família rica, que recolheu e guardou aquelas peças ao longo de décadas. Diante daquilo tudo, eu fiquei pensando no bem que aquele lugar faz às pessoas, sobretudo às crianças, que têm pouca noção de como era a vida por aqui, quando tudo era feito à mão, com muito esforço e engenhosidade.
Na véspera da viagem, tinha ido ver uma exposição de quadros e esculturas no MAES, instalado no prédio da antiga Imprensa Oficial, bem no centro de Vitória. Lá estão peças criteriosamente seleccionadas na coleção de um empresário amigo meu, que teve a ousadia de criar e manter por quase três anos, no final da década de 80, a galeria Usina, de arte contemporânea, em uma bela residência na Praia do Canto. Foi muito bom poder ver de perto mais de 100 obras de renomados artistas brasileiros, incluindo Dionísio Del Santo, César Cola, Regina Chulam e Hilal.
O que vivi durante esta semana me fez reconhecer mais uma vez a força da generosidade, atitude própria dos homens senhores de si.

Vitória, 01 de Junho de 2011

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Estacionamento

Estacionamento

Um conhecido meu voltou de Salvador na semana passada com uma impressão muito negativa do trânsito da capital baiana. Contou que ficou preso em engarrafamento quilométrico durante um par de horas a caminho de uma empresa potencialmente interessada em comprar o que ele tinha para vender. Chegou atrasado na reunião, totalmente constrangido e achando que havia perdido a viagem. Para seu espanto, a explicação do seu atraso foi aceita com boa naturalidade e um pedido de desculpa do diretor por não ter se lembrado de avisá-lo da dificuldade diária em chegar na empresa no início da manhã. Ele me contou isso em pleno engarrafamento na Avenida Rio Branco, pouco depois do meio dia de quinta feira, quando pretendíamos almoçar em um restaurante natural na Praia do Canto.

Vencida a distância, foi preciso contornar o quarteirão duas vezes para estacionar. A comida estava ótima, mas tivemos que enfrentar trânsito pesado novamente até chegarmos a Santa Lúcia, agora passando pelas ruas Joaquim Lírio e Aleixo Neto. O que era doce se acabou. Quem viveu, viu. Quem viver, não viverá como eu nas ruas tranquilas e amistosas daquele bairro de casas simpáticas. Tenho tido, sim, saudades das ruas que frequentei na minha juventude de rapaz folgado. Vitória se transformou, e isso é definitivo, em uma cidade repleta de veículos de vidro fumê que escondem os passageiros.

Amiga minha, dona de restaurante, comentou que anda perdendo cliente por falta de vaga para estacionar nas redondezas. Disse que tem ouvido isso da boca de muita gente que não mais consegue almoçar no selfservice dela. Da minha parte, devo dizer que estou envolvido na realização de um workshop empresarial para umas 80 pessoas, ou melhor, para uns 60 automóveis. Prudente, adotei a disponibilidade de estacionamento como critério para a escolha do lugar. Resolvido isso, esperto, pedi que incluíssem com destaque no convite um importante atrativo do evento: “estacionamento gratuito no local”.

Tenho me lembrado de uma discussão que travei com um arquiteto americano especializado em projetos de campus universitário. Eu trabalhava no Ministério da Educação e ele dava assessoria por lá. Ele afirmava com convicção, e eu discordava com firmeza, que antes de estimar o espaço para salas de aula, laboratórios, biblioteca e tudo o mais, era preciso dimensionar a área necessária para os carros dos professores, alunos e  funcionários. Até hoje tenho vergonha do meu desaviso. Corria o ano de 1974 e automóvel era coisa de alguns poucos naquele Brasil. Na terra dele, os automóveis chegaram junto com as ruas, os bairros e as construções nas cidades, paulatinamente. Aqui, apesar dos carros continuarem a chegar em ritmo de consumo democrático, ainda estão em vigor parâmetros de uso do solo inconsequentes: uma única vaga por sala, uma vaga e meia por apartamento.

A tendência é de piora. A quantidade de automóveis sem garagem cresce em ritmo chinês. A falta de lugar para estacionar entrou definitivamente nas conversas diárias da classe média. O centro da cidade já está praticamente inacessível para quem pretenda ir lá de carro durante o dia. Posso apostar que, muito em breve, haverá quem defenda tese de doutorado sobre os impactos da disponibilidade de estacionamento no desempenho dos negócios e no prazer do convívio social.

Vitória, 18.05.2011
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Declaração

Declaração

Como acontece todo ano, o mês de abril terminou numa declaração de imposto de renda.
Devo confessar que o preenchimento dos formulários consumiu pouco tempo e que o processo transcorreu de forma razoavelmente tranqüila.

Posso informar também que a entrega da declaração foi realizada com sucesso via internet e que os cálculos dos ajustes nos impostos a pagar favoreceram o leão, como era de se esperar.
As despesas dedutíveis com saúde, educação e afins, diminuíram quase que a zero depois que a nossa casa foi ficando vazia de filhos e começando a se encher de netos. Não foi preciso preencher a relação de dependentes nem a linha do cálculo do valor total do respectivo desconto padrão. Muito menos abater a correspondente parcela da temida renda sujeita a tributação.

Notei que os formulários foram aprimorados para facilitar o trabalho do contribuinte e reduzir o nível de incerteza na hora de fazer os lançamentos dos valores recebidos a título de rendimentos tributáveis e não tributáveis. O sistema faz boa parte das contas e transporta os resultados automaticamente para a planilha de cálculo do imposto devido. A atualização da relação de bens e das dívidas e ônus reais ficou muito fácil de fazer com a criação de uma tabela onde aparece o que foi lançado até o período anterior. Ainda mais porque nessa altura da vida, a relação de itens que compõem o patrimônio familiar se mantém praticamente a mesma, exceto uma troca de carro, a atualização dos valores da conta corrente, da poupança e de aplicações financeiras de curto e médio prazo.

Este ano me voltou à lembrança o sofrimento de fazer uma declaração completa no formulário do imposto de renda antigamente. Era uma verdadeira maratona. Centenas de papéis de recibos e canhotos de cheques espalhados sobre a mesa da sala, durante muitos dias. As emoções que tenho guardadas são de desespero e de insegurança. Os lançamentos eram feitos mês a mês e os valores tinham que ser corrigidos, um a um, em busca de números livres da inflação, normalmente na casa de dois dígitos. Como não existia computador, as contas eram feitas na ponta do lápis e, depois de tudo pronto e conferido, era preciso passar a limpo para entregar no banco. Enfrentando fila, naturalmente.

Recentemente, ao esvaziar gavetas em busca de espaço para guardar coisas mais novas, encontrei a primeira declaração de imposto de renda que fiz depois que comecei a receber como professor universitário. Um emprego e tanto, diga-se de passagem, pois consegui comprar à vista um Corcel 73 novinho em folha com quatro salários. Como estava recém-casado com uma universitária, tinha uma única dependente para deduzir despesas.

Pois saibam que, apesar disso, o total de imposto de renda que paguei não chegou a cinco por cento de tudo o que havia recebido durante aquele ano inteiro. Se fosse agora, pagaria quatro a cinco vezes mais. Sem esquecer do tanto que se paga de ICMS, ISS, IPVA, IPTU, taxa de marinha e muitos mais, que também aumentaram absurdamente. Dói no bolso e na alma de qualquer cidadão de bem que vive de salário e que, ainda por cima, se vê forçado a arcar com plano de saúde, mensalidade escolar, lista de material, e tudo o mais que deveria ser obrigatoriamente suprido pelos governos que arrecadam tantas taxas e impostos.

Viitória, 02 de maio de 2011
Alvaro Abreu
Escrita para A Gazeta

Lista de Material

Lista de Material

Outro dia me mostraram uma extensa lista do material que deveria ser comprado pelos pais dos alunos de uma creche para o ano letivo de 2011. O material deveria ser adquirido e entregue de uma única vez na escola, quando seria conferido item a item. Como opção, os pais poderiam fazer o pagamento em cinco parcelas iguais,somadas às mensalidades.

Imagino que a quase totalidade dos pais preferiu pagar a conta, apesar de meio salgada. É mais um preço que se paga pela correria diária, pela falta de tempo, pela preguiça de ir de loja em loja, pela simples falta de estacionamento diante das papelarias. Pagar é mais rápido e economiza chateação.

Taxa de material escolar é mais um daqueles itens que foram sendo incorporados nas despesas da sobrevivência de qualquer casal com filhos pequenos. Criar filhos está ficando cada vez mais caro. Criamos os nossos numa época em que as coisas eram mais simples e mais baratas.

Dia desses ouvi pelo rádio do carro uma entrevista com alguém que se dizia especialista em economia doméstica, autor de livros e tudo o mais. Acho que fazia parte da campanha de lançamento de mais um best seller, desses de auto ajuda que existem para todos os gostos.

A jornalista perguntava com alguma malícia e o especialista respondia com convicção que criar filho era um investimento de retorno garantido, sobretudo se a moeda utilizada como parâmetro fosse o reconhecimento e o carinho recebido do filho adulto.
Quando comecei a prestar atenção na conversa, ele anunciava os resultados de uma pesquisa que andaram fazendo por aí, que atesta que o brasileiro gasta em torno de 240 mil reais com um filho até que ele se forme em uma faculdade. Imaginei que a tal lista de materiais poderia ser tomada como prova inconteste da validade dos resultados da tal pesquisa.

Fiquei pensando que a mensalidade cobre apenas o direito de frequentar as instalações da escola e de receber as atenções de tias sorridentes. Pelo que sei, nas escolinhas a oferta de facilidades e atividades complementares é cada vez mais diversificada, incluindo-se aí inglês, capoeira, ginástica olímpica e natação. Tudo acessível a preços compensadores, no mais tradicional estilo do usou, pagou. Quase que um self service educacional, onde os estímulos ao consumo são sutis e de difícil percepção, sobretudo por pais dispostos a oferecer o que há de melhor para os filhos, ainda que isso lhes custe os olhos da cara.

O marketing dos chamados negócios educacionais reforça essa atitude legítima dos pais e explora, com força, o sentimento de culpa materna por não poder ficar em casa com os filhos durante o dia e o danado do olho grande no filho do vizinho. Como faz com os vinhos, a mensagem planta a idéia que a relação custo benefício da educação é muito favorável. Compensa gastar.

Voltando pra tal lista, confesso que me assustei com o que vi. Ela tinha mais de 100 itens, incluindo resma de papel, rolo de barbante, papéis especiais para aquarela, muitos pincéis, caixa de lápis de doze unidades e até caneta para retroprojetor. Fiquei pensando no esforço que teria uma criança de menos de dois anos para conseguir usar e gastar aquilo. Nestes tempos de reciclagem, as crianças estão frequentando escolas ou centros de formação de consumistas desvairados? 

Vitória, 20 de Abril de 2011

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Repique

Repique

Esta semana, um amigo de longa data mostrou no jornal, mais uma vez, a palma da mão direita suja do pó preto vindo lá da ponta de Tubarão. A foto ilustrava matéria sobre a ação que o Ministério Público Federal está movendo contra uma empresa que polui a cidade e, também, contra o órgão que deve cuidar da questão ambiental no Estado.

Fiquei animado com a notícia, que fez lembrar um amigo e ecologista ativo que perdemos. Cláudio Noé foi quem usou pela primeira vez a imagem da palma da mão cheia de pó de minério para denunciar a poluição na campanha para vereador de Vitória. Era um vídeo curtinho, mas de grande impacto emocional. Mesmo assim, ele perdeu a eleição. Muito pouca gente achou que ele merecia um simples voto. Isso foi a mais de 15 anos.

Hoje, a tirar pelos muitos comentários que recebi sobre a crônica dos grandes empreendimentos que estão chegando, ele seria muito bem votado. Cada alma, uma atitude; cada olhar, uma emoção. Compartilho com o leitor o tanto que cabe neste espaço:

“Praia das Neves não!!! Tudo bem que já têm um montão de anos que não volto lá, mas aquela praia azuli com espuma super branca com um porto? Ah, que me desculpe o progresso, mas um porto ali não combina mesmo. Que noticia mais triste!  E Anchieta também, que é um cantinho maravilhoso! ”

“Perdemos todas essas batalhas. O ES fez a sua escolha. Vamos virar um mega pólo de petróleo, aço, celulose, gás, granito e mármore. Feridas na terra que nunca vão cicatrizar. Tudo ao mesmo tempo e agora mesmo. Esses três empreendimentos por si só já vão atrair milhares de pessoas e grandes bolsões de miséria se formarão no entorno deles. É o fim do bucolismo nas praias do sul.” ”Enquanto isso, os caras do pó preto fingem que nem viram, né?”

“Há duas opções: transformá-lo portenhamente em nostalgia ou preparar o terreno para os tempos de eco bonança: espiritossantos duelando com espiritosdeporcos…” “Estou muito impressionada com o impacto das intervenções drásticas no litoral capixaba, com uma paisagem tão rica.” “Louvo os esforços contra a maré. A questão é muito séria e merece atenção. A guerra parece perdida, mas quem sabe… ”

“Parece que as pessoas continuarão a esquecer dos pés, enquanto os sapatos não apertarem demais…” “É verdade, são muitas pessoas para estragar e poucos para conservar”.  “Tem horas que tenho vontade de fugir deste mundo!”

“Leio com indescritível incômodo o que anda acontecendo nas “costas” dos capixabas. O que fazer? A quem pedir as informações corretas sobre as novas usinas no ES? Quem é isento neste processo? A quem beneficia essas implantações? O Ministério Público está se mexendo? Vamos acionar o pessoal do Greenpeace? Vamos chamar Marina Silva para um debate sobre estes impactos? Qual instituto ou ONG pode se mexer para questionar essas instalações? Estas perguntas têm respostas? Se acontece uma coisa dessas na Europa, todo mundo se mexe.”

“Entendo a sua preocupação, Alvareto, mas você ainda não viu nada. Espere até chegarem as refinarias, os complexos químicos e as usinas nucleares. Vamos sentir saudades dos tempos em que poluição eram só partículas de pó preto no ar.” Quem viver, verá. Mas, por enquanto e oportuno, torço para que a justiça se faça e que vigore a lei.

Vitória, 24 de Março de 2011

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Definitivos

Para sempre

Os últimos dias foram determinantes para o Espírito Santo e talvez muita gente nem tenha se dado conta disso. Soube-se pelos jornais que foram aprovados mais três mega empreendimentos ao longo da costa capixaba: um porto na Praia das Neves , um estaleiro em Aracruz e uma siderúrgica enorme disso, foi anunciado o início da construção de mais uma usina de pelotização, bem ali no planalto de Carapina. É muita coisa.

Li também que as obras do aeroporto devem ser retomadas no segundo semestre deste ano, embora ninguém garanta. Essa novela já virou questão militar: o Exército está encarregado de elaborar os projetos executivos que deveriam ter sido feitos obrigatoriamente antes, para fundamentar a concorrência pública. Contratar uma obra dessas sem ter as informações técnicas detalhadas é como pretender fazer um hospital sem conhecer as especificações das fundações, sem saber a quantidade de apartamentos nem a posição do centro cirúrgico. É entregar a faca, o queijo e a goiabada para a festa da bandidagem.

As notícias sobre os projetos disputaram espaço com as do carnaval, com fotografias de mulheres saradas na passarela. A siderúrgica ganhou página inteira, recheada de declarações cuidadosas, enquanto os outros projetos mereceram apenas umas poucas linhas, com informações superficiais e truncadas. A proibição do jogo de frescobol na praia ganhou mais espaço na imprensa e atenção dos leitores.

A fotografia do auditório onde se decidia a sorte da siderúrgica mostrava homens ansiosos. Estavam em jogo um intrincado conjunto de interesses e muito dinheiro. Bem posso imaginar a esperança dos donos de empresas de engenharia e de imobiliárias que vendem terrenos e apartamentos, dos proprietários de postos de gasolina, dos gerentes de supermercado, das pessoas que precisam trabalhar e até dos vendedores de caranguejo. Todos a favor da aprovação. Objetivos e pragmáticos, os homens se movem por suas expectativas de curto prazo. Os responsáveis pelo empreendimento devem ter realçado seus benefícios econômicos para reforçar posições junto à população e aos governos.

Por lei, as questões ambientais foram obrigatoriamente consideradas pelo plenário. Mesmo porque tem gente sendo muito bem paga pelo empreendedor para identificar os impactos potenciais da obra e, sobretudo, para minimizar o que deve ser feito para prevenir tragédias, compensar os estragos e consertar o que será detonado. São os tais negócios ambientais.

Bem posso imaginar as dificuldades técnicas e a impotência de uns poucos abnegados ao pretenderem discutir os resultados dos estudos apresentados. Nessas situações, apontar fragilidades e imperfeições no trabalho alheio é sempre visto como algo inoportuno. Exigir que o responsável assuma a conta inteira do conserto, mais ainda.

O fato é que o colegiado decidiu pela autorização da construção de uma usina que vai funcionar para sempre o bem e para o mal. E é justamente aqui onde mora o perigo da conjugação do poder de compra das grandes empresas com os interesses imediatos dos homens, o beneplácito do poder público e a desinformação coletiva. Uma siderúrgica é uma indústria muito incômoda. Quem mora perto de uma delas, como eu, sabe muito bem disso.

Vitória, 09 de Março de 2011

Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Para sempre 2

Para sempre

Os últimos dias foram determinantes para o Espírito Santo e pode ser que muita gente não tenha se dado conta disso. Soube pelos jornais que foram aprovados mais três mega empreendimentos ao longo da costa capixaba: um porto na praia das Neves em Presidente Kennedy, um estaleiro em Aracruz e uma siderúrgica enorme em Anchieta. Além disso, foi anunciado o início da construção de mais uma usina de pelotização, bem ali no planalto de Carapina. É muita coisa.

Li também que as obras do aeroporto devem ser retomadas no segundo semestre deste ano, embora ninguém garanta. Essa novela já virou questão militar, pois o Exército está encarregado de elaborar os projetos executivos que deveriam ter sido feitos obrigatoriamente para fundamentar a concorrência pública. Contratar uma obra dessas sem ter as informações técnicas detalhadas é como pretender fazer um hospital sem conhecer as especificações das fundações, sem saber a quantidade de apartamentos, nem a posição do centro cirúrgico. É como entregar a faca, o queijo e a goiabada para a festa da bandidagem.

As notícias sobre os projetos disputaram espaço com as do carnaval, com fotografias de mulheres saradas na passarela. A siderúrgica ganhou página inteira, recheada de declarações cuidadosas, mas os outros projetos mereceram apenas umas poucas linhas, com informações superficiais e truncadas. A proibição do jogo de frescobol na praia ganhou mais espaço na imprensa e atenções dos leitores.

A fotografia do auditório onde se decidia a sorte da siderúrgica mostrava homens ansiosos. Estavam em jogo um intrincado conjunto de interesses e muito dinheiro. Bem posso imaginar a esperança dos donos de empresas de engenharia e de imobiliárias que vendem terrenos e apartamentos, dos proprietários de posto de gasolina, dos gerentes de supermercado, das pessoas que precisam trabalhar e até dos vendedores de caranguejo. Todos a favor da aprovação. Objetivos e pragmáticos, os homens se movem por suas expectativas mais imediatas. Os responsáveis pelo empreendimento devem ter realçado os seus benefícios potenciais para reforçar suas posições junto a população e aos governos.

Preocupações com o futuro da região também devem ter sido consideradas. Tem gente ganhando um bom dinheiro identificando os impactos potenciais da obra e tentando minimizar o que deve ser feito para prevenir tragédias, compensar os estragos e consertar o que será detonado. São os negócios com o meio ambiente.

Bem posso imaginar as dificuldades técnicas e a impotência de uns poucos abnegados em pretender discutir os resultados dos estudos apresentados. Apontar fragilidades e imperfeições no trabalho alheio é sempre visto como algo inoportuno. Exigir que o responsável assuma a conta inteira do conserto, mais ainda.

O fato é que o colegiado decidiu pela autorização da construção de algo definitivo, de uma usina que vai funcionar para sempre em Anchieta. Para o bem e para o mal, também. E é justamente aqui onde mora o perigo da convergência entre ganância dos homens, fragilidade do poder público e desinformação coletiva. Uma siderúrgica é uma indústria muito incômoda. Quem mora perto de uma delas, como eu, sabe muito bem disso.

Vitória, 09 de Março de 2011

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Newton Braga

Newton Braga

Na semana passada, uma comitiva oficial da Prefeitura de Cachoeiro veio especialmente a Vitória para comunicar a Dona Gracinha, minha mãe, que ela tinha sido escolhida para ser a Cachoeirense Ausente de 2011. O nome dela, Anna Graça Braga de Abreu, foi definido por aclamação em reunião convocada especialmente para tratar dos festejos do centenário de nascimento de seu irmão, o saudoso Newton Braga.

Durante a conversa, ela, que não cabia em si por se saber lembrada pela gente da sua terra, declarou disposição em participar de todos os eventos da programação. Para quem não sabe, a maratona começa no trevo da Safra, na BR 101, com a entrega da chave da cidade ao homenageado, que depois é levado em cortejo até o Centro Operário de Proteção Mútua, onde se reafirma a tradição de saudar pessoas honradas. Desta vez se lembrarão de seu pai, Chico Braga, primeiro prefeito de Cachoeiro e fundador daquela entidade centenária de ajuda às famílias mais carentes.

A Câmara de Vereadores se reunirá em sessão festiva para a entrega do título à Cachoeirense Ausente e de diplomas a outros conterrâneos, por seus feitos e méritos, tudo isso após os discursos de praxe. Na manhã seguinte haverá desfile escolar com a Banda do Liceu tocando alto para cadenciar a marcha dos alunos e o malabarismo das balizas que rodopiam à sua frente. O sol estará quente, mas ninguém arredará o pé do palanque montado perto da antiga Estação da Leopoldina. É bem provável que mamãe se emocione nessa hora, pois sempre se gaba de ter sido baliza do Liceu. É uma pena, mas este ano o tradicional baile de gala não será no Caçadores, onde ela dançava nas domingueiras e nos bailes de carnaval. Mesmo assim, ela encomendará um vestido longo, pois não pode perder a festa.

Soubemos que a escolha de seu nome provocou fortes emoções no poeta Athayr Cagnyn, seu amigo de infância. A sugestão fora dada por pessoa querida, que mora no Rio de Janeiro, como mais uma das muitas homenagens que serão prestadas a Newton Braga: reedição de seus livros, publicação de suas críticas literárias e de um livro novo feito por suas filhas, lançamento de selo comemorativo, concurso de poesia nas escolas, reinstalação de monumento na praça e uma nova sede da escola com seu nome.

Bem sei que pouca gente ouviu falar nesse irmão de Rubem Braga. É que tio Newton, que morreu em 1962, era pessoa muito reservada e modesta por convicção. Em Cachoeiro, ele criou fama de homem generoso e inteiramente dedicado aos assuntos de interesse coletivo. Poeta lírico, escritor refinado, crítico literário rigoroso, tabelião que não aceitou o terno obrigatório, pescador de robalos e piabas, letrista de marchinhas de carnaval, sócio da primeira agência de publicidade da cidade, Newton foi amigo de muitos e um valente beque central do Estrela FC.

Ele inventou a festa de Cachoeiro e a figura do Cachoeirense Ausente para animar o reencontro da cidade com os que haviam saído para estudar ou tentar a sorte. Atiçou o sentimento de pertencimento em tanta gente e de forma tão competente que a coisa se transformou no famoso bairrismo cachoeirense, que todos conhecem e alguns até admiram. Prova disso é o orgulho de sua irmã caçula em ter nascido no sobrado da família na Rua 25 de Março, na margem direita do rio Itapemirim, bem diante do Itabira.   

Vitória, 6 de Abril de 2011

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Quebra Molas

Quebra-molas

Lá pelos idos de 1990 levei a família para passear em Marataízes, lugar das minhas férias de menino criado em Cachoeiro, e aproveitar para conhecer a pequena casa de veraneio que papai tinha construído em terreno bem grande de esquina, na avenida principal, bem perto da estação do trem. O muro era baixinho e permitia ver quem passasse na rua. A casa tinha acabado de receber melhorias, depois de anos alugada. As janelas foram pintadas de verde e o reboco ganhara uma boa caiação.

Tenho lembranças do pé de pinha, da fresca da varanda virada para o nordeste, das camas beliche e da bomba manual de tirar água do poço. No quintal havia castanheiras e alguns pés de flamboyant, árvore muito apreciada antigamente, mas que virou espécie politicamente incorreta por romper calçadas com suas raízes. Pena, porque flamboyant florido é coisa muito bonita de se ver.

Fomos no ônibus branco e simpático que eu havia comprado e transformado em trailer mambembe, com cama, poltronas, mesas, pia, toalete a bordo e tudo mais que se mostrou necessário para levar com algum conforto a família numerosa e alguns parentes e agregados.

A viagem começou no maior alvoroço, com a garotada rindo muito e falando alto. Mamãe estava toda prosa por estar indo passear no lugar de sua vida de filha de pai desbravador, de mocinha namoradeira, de mulher de médico que adorava pescar e de mãe de muitos filhos. Para ela, Marataízes era sinônimo de tempos de felicidade. Guardo uma foto de papai ao lado de umas seis pescadas enormes dependuradas em um remo sustentado nos ombros. Ele com cara de pescador orgulhoso com o resultado daquela saída ao mar.

A Terceira Ponte não estava pronta e era preciso passar por dentro de Vila Velha para acessar a Rodovia do Sol e chegar em Guarapari para depois seguir viagem pela estrada beirando o mar, passando por dentro de Anchieta, Piuma, Itaipava, Itaóca, Barra do Itapemirim e, finalmente, Marataízes. A viagem levou mais de 4 horas. Contamos exatos 87 quebra-molas, entre os urbanos e os rodoviários.

Definitivamente o ônibus detestava quebra-molas. Era penoso enfrentar aqueles obstáculos transversais. Ele era praticamente obrigado a parar duas vezes diante de todos eles. Uma vez para com cada um dos seus eixos.

A suspensão dianteira era bem macia, mas a traseira era com feixe de molas, bem mais seca e dura. A cada quebra-mola o pessoal reclamava das pancadas do pneu no cimento e, depois, no asfalto.

Estou dizendo tudo isso porque acabo de chegar do sul da Bahia e muito do que vi por lá me fez recordar dos verões em Marataízes, inclusive três belas pescadas amarelas de mais de cinco quilos sendo tiradas do barco por pescadores.

Também encontrei por lá centenas de quebra-molas, de todo tamanho, forma e tipo: civilizados, prepotentes, trepidantes, miseráveis, traiçoeiros, estúpidos, disfarçados, com abas e corcovas e por aí a fora. Inconvenientes, todos eles.

Dirigindo o carro novo, pude constatar na prática que câmbio automático é recurso de grande utilidade para enfrentar a aporrinhação dos quebra-molas, mas nem tanto para minimizar a chateação de viajar lentamente em comboios liderados por caminhões com 30 metros de comprimento, lotados de toras de eucalipto.

Vitória, 16 de Fevereiro de 2011-02-16

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Último tipo

ÚltimoTipo

Resolvi trocar o meu carro. Não que ele estivesse velho, caindo aos pedaços. Até que está bem conservado para a idade que tem. Saiu da fábrica em 2003 e nem rodou 65.000km. Ainda está em perfeitas condições de uso e pode durar um bom tempo nas mãos de um outro dono razoavelmente cuidadoso como eu.

Não sou do tipo que tem mania de carro, que fica mandando esfregar por dentro e por fora toda semana. Pra mim, o carro tem que estar com a manutenção em dia, com pneus em bom estado, com óleo dentro das especificações recomendadas. Pronto para viagem.

Confesso que não sei bem se estou agindo por vontade própria ou em resposta aos estímulos do marketing a que estamos, todos, cada vez mais submetidos.

A propaganda nos faz querer coisas, nos faz sentir que estamos precisando de algo que uma determinada empresa esteja pagando para nos fazer precisar. Compramos por um desejo honesto ou até por pura inveja dos que já possuem o que as fábricas já conseguiram vender para eles. Nós, consumidores, estamos ficando cada vez mais invejosos, egoístas e insaciáveis.

O bombardeio da tv e dos anúncios em jornais nos faz ficar olhando o carro do vizinho com olho grande, a prestar atenção nos carrões que estejam parados em volta do nosso carro velho nos engarrafamentos ou passando correndo diante de nossos olhos atentos quando estamos esperando o sinal abrir.

Tenho acompanhado o frisson que se estabelece nas pessoas diante de cada celular mais moderno que surge. Tenho visto, sem qualquer ânimo, conversas intermináveis sobre as novas funcionalidades que foram ou serão embutidas naqueles objetos que antigamente serviam para fazer ligações telefônicas lá da calçada. Percebe-se pelos olhos compridos – como nossas avós diziam da vizinha que olhava as suas plantas – que muitas pessoas se sentem ultrapassadas e infelizes enquanto não possuem cada nova função que estão disponíveis. Fico impressionado como as pessoas conversam sobre celulares.

Mas vamos lá, essa crônica é sobre carro, mais especificamente sobre carro novo. Digo isso porque acabei comprando um deles, desses bem sofisticados. Pretendia, como sempre fiz, passar para um mais novo, pouco rodado. Comprar carro usado não é coisa para amador nem pessoa distraída. É uma operação razoavelmente perigosa. A oferta é muito grande, nosso tempo é cada vez mais curto e os vendedores são sempre mais espertos do que os compradores. Se bobear, compra-se gato por lebre.

Procurei nos classificados, telefonei, estive em agências, rodei de um lado para outro. Diante das dificuldades e com viagem marcada, tomei a decisão de comprar um carro zero.

A moça da loja sabia todos os truques para vender tecnologia de última geração, botões mágicos, espaços enormes, segurança total, conforto pleno, sistemas automáticos, espelhos que giram, ar condicionado personalizado, direção super leve, sinalizador de perigo, computador de bordo e mais um sem fim de itens de uso bem pouco provável, como acontece com os dos televisores modernos. Comprei tudo.

Agora, o pessoal de casa e lá do escritório está caindo na minha pele, rindo por ter me rendido aos encantos da modernidade. Tem gente dizendo que agora só falta eu adotar o celular.

Vitória, 01 de Fevereiro de 2011

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA