Estacionamento
Um conhecido meu voltou de Salvador na semana passada com uma impressão muito negativa do trânsito da capital baiana. Contou que ficou preso em engarrafamento quilométrico durante um par de horas a caminho de uma empresa potencialmente interessada em comprar o que ele tinha para vender. Chegou atrasado na reunião, totalmente constrangido e achando que havia perdido a viagem. Para seu espanto, a explicação do seu atraso foi aceita com boa naturalidade e um pedido de desculpa do diretor por não ter se lembrado de avisá-lo da dificuldade diária em chegar na empresa no início da manhã. Ele me contou isso em pleno engarrafamento na Avenida Rio Branco, pouco depois do meio dia de quinta feira, quando pretendíamos almoçar em um restaurante natural na Praia do Canto.
Vencida a distância, foi preciso contornar o quarteirão duas vezes para estacionar. A comida estava ótima, mas tivemos que enfrentar trânsito pesado novamente até chegarmos a Santa Lúcia, agora passando pelas ruas Joaquim Lírio e Aleixo Neto. O que era doce se acabou. Quem viveu, viu. Quem viver, não viverá como eu nas ruas tranquilas e amistosas daquele bairro de casas simpáticas. Tenho tido, sim, saudades das ruas que frequentei na minha juventude de rapaz folgado. Vitória se transformou, e isso é definitivo, em uma cidade repleta de veículos de vidro fumê que escondem os passageiros.
Amiga minha, dona de restaurante, comentou que anda perdendo cliente por falta de vaga para estacionar nas redondezas. Disse que tem ouvido isso da boca de muita gente que não mais consegue almoçar no selfservice dela. Da minha parte, devo dizer que estou envolvido na realização de um workshop empresarial para umas 80 pessoas, ou melhor, para uns 60 automóveis. Prudente, adotei a disponibilidade de estacionamento como critério para a escolha do lugar. Resolvido isso, esperto, pedi que incluíssem com destaque no convite um importante atrativo do evento: “estacionamento gratuito no local”.
Tenho me lembrado de uma discussão que travei com um arquiteto americano especializado em projetos de campus universitário. Eu trabalhava no Ministério da Educação e ele dava assessoria por lá. Ele afirmava com convicção, e eu discordava com firmeza, que antes de estimar o espaço para salas de aula, laboratórios, biblioteca e tudo o mais, era preciso dimensionar a área necessária para os carros dos professores, alunos e funcionários. Até hoje tenho vergonha do meu desaviso. Corria o ano de 1974 e automóvel era coisa de alguns poucos naquele Brasil. Na terra dele, os automóveis chegaram junto com as ruas, os bairros e as construções nas cidades, paulatinamente. Aqui, apesar dos carros continuarem a chegar em ritmo de consumo democrático, ainda estão em vigor parâmetros de uso do solo inconsequentes: uma única vaga por sala, uma vaga e meia por apartamento.
A tendência é de piora. A quantidade de automóveis sem garagem cresce em ritmo chinês. A falta de lugar para estacionar entrou definitivamente nas conversas diárias da classe média. O centro da cidade já está praticamente inacessível para quem pretenda ir lá de carro durante o dia. Posso apostar que, muito em breve, haverá quem defenda tese de doutorado sobre os impactos da disponibilidade de estacionamento no desempenho dos negócios e no prazer do convívio social.
Vitória, 18.05.2011
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
