Águas de Janeiro

Águas de Janeiro

Soube que Tom Jobim escreveu Águas de Março no sítio dele lá na região serrana do estado do Rio, após uma chuvarada.

Não imagino o que a tragédia que por lá acontece esteja inspirando às pessoas que enfrentaram as enxurradas e que agora tentam conviver com as perdas de parentes e amigos, animais de estimação, casas, carros e objetos que juntaram durante a vida. Tenho visto gente chorar diante da TV vendo imagens da destruição e da solidariedade que surgiu por toda parte.

Por muito menos Newton Braga, o poeta maior de Cachoeiro, escreveu há décadas:  De vez em quando o rio cresce sobre a cidade, brutal, arrasador. A força irresistível de suas águas carrega árvores, casas, lavouras, vidas humanas. Todos o olham, então, com o temor supersticioso com que deveriam os antigos povos bárbaros receber terremotos e tempestades: ódios desencadeados e incontíveis de deuses rancorosos e vingativos.

Quem me lembrou disso foi Higner Mansur, amigo atento que recolheu informações sobre as enchentes na minha terra. É que o rio Itapemirim subiu muito, como não o fazia desde 1934. Suas águas molharam a escada do antigo Grupo Escolar Bernardino Monteiro, construído bem na praça central da cidade, quando educação era coisa séria.

Veio junto trecho da crônica Trovões de Antigamente, que Rubem Braga escreveu em 1958:  Então vinham todos dormir em nossa casa. Isso para nós era festa, aquela faina de arrumar camas nas salas, aquela intimidade improvisada e alegre. Parecia que as pessoas ficavam todas contentes, riam muito. Como se fazia café e se tomava café tarde da noite! E às vezes o rio atravessava a rua, entrava pelo nosso portão, e me lembro que nós, os meninos, torcíamos para ele subir mais e mais. Sim, éramos a favor da enchente, ficávamos tristes de manhãzinha quando, mal saltando da cama, íamos correndo para ver que o rio baixara um palmo – aquilo era uma traição, uma fraqueza do Itapemirim…

Ele mandou também relatos da política local, dentre elas, uma decisão desastrosa do Prefeito Attílio Vivácqua em 1920 autorizando, por decreto, a cessão de terrenos municipais beira-rio, no centro da cidade, para construção com fundos para o rio. Uma pá de cal no que havia sido decidido na Sessão da Câmara de 6 de fevereiro de 1873, isso mesmo, 1873:  Numa petição de Manoel do Prado para edificar uma casa com frente na rua Moreira para o rio, a Câmara resolveu indeferir a este requerimento visto que tem adotado a providência de não deixar edificar casas do lado do rio não só porque enfeia o arruamento das margens do rio como também tira a vista aos moradores cujas casas têm frente para este.

Manoel Gonçalves Maciel não deixou barato no livro De volta ao Cachoeiro Antigo, de 2003:  Se Cachoeiro tivesse sido governada por homens que adotassem também a idéia, teria crescido com extensas, arejadas e alegres avenidas beira-rios. Mas, se todos os governantes fossem inteligentes, não teríamos de quem falar.

Da minha parte, digo que tudo isso me faz pensar na construção de prédios, usinas, portos e estaleiros enormes e definitivos na beira do nosso mar e, confesso, a acreditar que se o pessoal tivesse respeitado o que ficou decidido em 1873, Cachoeiro poderia ter ficado tão maravilhosa quanto Paris. 
 
Alvaro Abreu
Vitória, 19 de Janeiro de 2011-01-18
Escrita para A GAZETA

Fora do script

Fora do script

Pois é, cá estamos todos nós começando um ano novo, novamente. Como uma boa parte dos anos que ficaram para trás, 2010 foi um tempo suficientemente rico em coisas boas e em chateações de natureza sortida e de tamanhos bem variados, coisas típicas do mundo dos negócios, do âmbito familiar, do plano pessoal.
Alguns deles serão esquecidos rapidamente por banais que foram. Outros serão tomados como referências de vida, como passagens a serem contadas em momento oportuno a título de argumentação e justificativa. A nossa existência vai acontecendo entre tombos e topadas, que deixam marcas para uso posterior.
Por alguma razão misteriosa, somos levados a reclamar da vida, realçar o ruim, lembrar das perdas. Parece que ao fazê-lo conseguimos desculpas pelo que não fizemos, adquirimos o direito de querer mais, recebemos perdão pelos pecados, ganhamos uma nova chance. A sensação que tenho neste início de ano é a mesma de quem conseguiu escapar do tiroteio, de quem raciocinou rápido no momento da queda, de quem pulou do bonde com categoria, de quem segurou a corda com força suficiente.
Tenho acreditado que já possuo mais do que o suficiente para só querer aquilo que produza satisfação, facilite o entendimento e melhore o conforto. Coisa pouca, bem pouca. Simples de tudo.
Estamos de governador novo e temos uma presidenta, assim mesmo, no feminino, como ela prefere ser tratada, embora contrariando o vernáculo e seus defensores. Dizem que quem pode mais, pode menos. Quem quiser que se acostume com o novo estilo presidencial.
Nestes dias de festas, lembrei-me do que senti na noite da virada para 1995, sentado na minha cadeira de balanço trazida do sertão da Paraíba. Completamente debilitado em função das coronárias razoavelmente entupidas, acho que cheguei a rezar para ficar vivo e poder aproveitar a temporada que começaria a correr a partir da posse de Fernando Henrique como presidente do país, de Vitor Buaiz como governador do estado e de Paulo Hartung como prefeito da capital. As expectativas políticas eram muito animadoras e não seria justo que eu ficasse de fora daqueles novos tempos que estavam chegando. Eu bem que merecia permanecer vivo.
Neste réveillon, da varanda da casa de Afonso, meu irmão, fiquei vendo o pipocar dos fogos de artifício por cima dos prédios da orla, pensando na vida. Confesso que o impacto do aumento absurdo dos salários dos congressistas e seus desdobramentos e efeitos colaterais em escala aprovado nas vésperas minou o clima de festa, desmontou minhas expectativas e esperanças. Puro descaramento.  
De ressaca, assisti na TV a posse do nosso novo governador, que usava uma gravata muito parecida com a do seu antecessor. Logo depois acompanhei a da nossa presidenta, que me pareceu tremendamente solitária e fora de lugar, em meio aos políticos profissionais que estavam diante dela, no plenário da Câmara dos Deputados.
No parlatório do Palácio do Planalto a esposa do vice-presidente, de trança lateral e poucos sorrisos, roubou a cena e se transformou numa atração inesperada para telespectadores menos entusiasmados, como eu.

Vitória, 05 de Janeiro de 2011.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

40 anos

40 anos
 

Antigamente, 40 anos era tempo mais do que suficiente para expressar uma existência. Hoje, equivale a metade de uma vida. Vivemos bem mais que o pessoal que chegou antes da penicilina, do antibiótico, dos exames de ressonância magnética e coisa e tal.

Digo isso porque desses estive no jantar de comemoração de 40 anos de formatura da minha turma de engenharia da UFES, ao lado de bem mais da metade dos sobreviventes. Todos sessentões saudáveis e satisfeitos da vida. Não havia ninguém com cara de derrotado.

Alegria contagiante, abraços apertados entre pessoas amigas que não se viam há anos. Veio gente do Rio, São Paulo e Salvador. Houve quem trouxesses fotos comprobatórias, livro caixa com as receitas e despesas da viagem por terra a Bariloche, da solenidade no Cine Juparanã e da festa no Clube Libanês. Ouvimos e contamos histórias passadas em sala de aula e no pátio de recreio, lembranças marcantes, guardadas em detalhes por quem tem boa memória.

Fizemos discursos emocionados, ressaltamos o valor da amizade e do pertencimento, a alegria de estarmos vivos e a satisfação de podermos festejar juntos. Teve gente que acompanhou tudo calado, por timidez intrínseca ou prudência coronariana. Alguns, por razões similares, sentaram-se longe da cadeira que servia de púlpito para que engenheiros mais corajosos pudessem abrir o peito e dizer palavras afetuosas aos colegas de cabeça branca.

A única engenheira da turma estava presente, chorando de tanto rir, como lhe é próprio. Alguém lembrou que não passavam de meia dúzia as mulheres que freqüentavam as salas de aula da Escola Politécnica, no bairro de Itararé.

Também estavam na festa muitas das namoradas dos Engenheirandos 70, transformadas em companheiras de vida toda e, mais recentemente, em avós animadíssimas. Soube que depois de contarem vantagens e gracinhas dos netos, elas reclamaram indignadas do pó preto brilhante que teima em sujar as mãozinhas, os joelhos e os pezinhos dos que engatinham pela casa.

No segundo ano da escola, freqüentei festas na casa de hóspedes de Tubarão, recém construída. O porto de embarque de minério já operava calmamente, expressando progresso. Um daqueles sorridentes engenheiros defendeu, com convicção técnica e muito bom senso, ao voltar da Inglaterra, que a usina siderúrgica fosse implantada mais ao norte, lá para os lados de Aracruz. Evitaria a sujeira trazida pelo vento Nordeste. Não antou.

Na semana passada, minha filha caçula apresentou o projeto de graduação em oceanografia, em que comprovou cientificamente que o minério de ferro interferiu negativamente no desenvolvimento das larvas dos ouriços-do-mar que tiramos na ponta da Ilha do Boi.

Ano passado, por não acreditar nos homens, pedi a Papai Noel que resolvesse o problema do pó que cai sobre nós, riamente. Tendo a acreditar que a ventania que derrubou dois descarregadores de carvão tenha sido coisa dele.

Mais animado, neste Natal vou pedir ao novo Governador que lance mão de seus poderes e habilidades para ajudar o bom velhinho a resolver o nosso problema e aproveitar para não permitir que se repitam lá em Anchieta os mesmos erros cometidos aqui em Vitória, há quase 40 anos, tempo mais do que suficiente para aprender o valor da vida.

Vitória, 22 de Dezembro de 2010.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA

Como vinho

Como vinho

Convocado pela filha caçula, me sentei para assistir pela TV um compacto do show de Paul McCartney no estádio do Morumbi em São Paulo, no domingo passado. Fã dos Beatles, eu achei que veria um espetáculo incompleto, pelas metades, já que no palco estariam faltando John Lennon, Ringo Starr e George Harrison.

Nunca tive preferência por nenhum deles em particular. Sempre achei o Paul meio almofadinha e esnobe. Tido como cabeça pensante, John, me parecia um pouco presunçoso. Talvez por modéstia, Ringo ficava sempre na retaguarda. As poucas palavras de George me diziam mais do que os trejeitos dos demais.

Durante anos esperou-se a chegada dos discos novos dos Beatles trazendo as músicas e as modas. Se no começo eles subiam no palco de terninho e gravata, aos poucos foram se transformando em expressão de liberdade, em protagonistas do movimento de contracultura, ainda que bem comportados. Os cabelos cresceram e as roupas ficaram coloridas. As atitudes assustavam e inspiravam, marcando o ritmo da vida e a troca da era.

Surgiram seguidores em todos os cantos do planeta. Aqui não foi diferente. Alguns devem se lembrar da temporada dos Brazilian Beatles em Guarapari, no final dos anos sessenta. Cabeludos e debochados, eles faziam as mães recolherem as filhas moças pra dentro de casa, em pânico. Coloridos e delirantes, aqueles rapazes tinham a imagem que seria adotada pela juventude que buscava espaço e experiências.

Os Beatles foram à Índia pelas mãos de George e de lá trouxeram o que muita gente sequer tinha ouvido falar: meditação transcendental, cítara, macrobiótica, ioga, incenso e tantas outras coisas que ajudariam a aumentar o tamanho do mundo e a alargar o horizonte das pessoas. As cores vivas da estética psicodélica ganharam lugar no gosto de uma geração. Britânicos famosos, os quatro receberam medalha da Rainha por merecimento, depois de terem colocado a Inglaterra de volta no mapa mundial. E que se danassem os conservadores.

Amadureci, namorei e escolhi rumos de vida ouvindo o som mágico da banda de Liverpool, que preferia em relação ao som radical dos Rolling Stones. Eu também fiquei triste quando o grupo se desfez e passei um bom tempo aguardando a notícia do reencontro, que não chegou. A morte violenta de John Lennon, anunciada na TV, me pegou saindo do banho em um hotel de Recife e me fez pensar na brutalidade dos homens. A de George não doeu tanto porque era esperada, em função da doença que sofria.

Soube que Ringo se mantém um baterista ativo ao completar 70 anos dia desses. Com alguma freqüência leio sobre o que Paul anda fazendo. Acompanhei a perda da Linda, o novo casamento e o desquite litigioso e, agora, as notícias da tournée pelo Brasil.

Nem levantei para beber água. Acompanhei, emocionado, os movimentos daquele senhor energizado, simpaticíssimo, afável e afinado. Paul cantou macio e deu gritos agudos tocando baixo elétrico, violão, banjo, piano e guitarra. Tudo com a mão trocada, canhoto que é. Ele parecia um homem inteiramente feliz e cheio de si com o entusiasmo de milhares de pessoas, muitas das quais nem haviam nascido quando os Beatles tocaram juntos pela última vez, há mais de 40 anos.

Soube depois que ele levou um tombo ao final do espetáculo. Mas isso eu não vi.

Vitória, 24 de Novembro de 2010

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Colheres no Banco

COLHERES NO BANCO

O primeiro convite me fora feito em tom de cobrança amistosa, durante uma solenidade. Como de costume, fiz corpo mole e desconversei. A cabeça estava completamente tomada por coisas da vida e do trabalho. Melhor seria deixar pra depois, pois é assunto relevante demais para misturar com qualquer outro. Digo isso porque sei muito bem que montar uma exposição mobiliza emoções e exige providências de toda ordem.

A segunda investida veio por escrito. As palavras eram amáveis, mas não deixavam margem para despistes nem permitiam postergações. Estava encerrado o prazo para mais um “devo, não nego, pagarei quando puder”. O convite incluía o pedido para que contasse o que sei e mostrasse como faço.

Muita gente sabe que gosto de fazer colheres de bambu, um servicinho que realizo quase diariamente, há muitos anos e sem preocupações. Pra mim, fazer colher é fácil, preparar uma exposição é que são elas, ainda mais em prazo apertado.

Achei prudente convocar a família inteira para tratar da produção. Cada qual na sua especialidade: a filha do meio para cuidar das questões de curadoria e montagem, a mais velha para tratar das peças gráficas, a caçula para fotografar as colheres, o primogênito para atualizar o site, o quinto filho para filmar a festa e, naturalmente, a mãe de todos eles, para arrumar cuidadosamente as peças nas vitrines.

Como não poderia deixar de ser, fiquei com a tarefa de tirar das caixas as muitas centenas de colheres guardadas, avaliar uma por uma e separá-las por tipo e tamanho para facilitar a seleção. Sempre me foi difícil escolher as peças que ficarão expostas. Separei umas 300 razoavelmente diferentes umas das outras, mas muitas das minhas preferidas terão que ficar pra trás.

Resolveu-se que as peças ficarão em mostruários abertos, sem a proteção de vidro ou acrílico, para melhor serem vistas. Umas tantas outras poderão ser tocadas.

As ferramentas de trabalho ajudarão a dar uma idéia de como as peças são feitas. As colheres que foram atacadas pelas brocas mostrarão que os insetos adoram comer bambu tirado fora de época. As que usamos na nossa cozinha poderão atestar que o que faço pode ter boa utilidade, que não é só pra boniteza, como me disse um vendedor de beira de estrada querendo valorizar o cesto de taquara que oferecia.

Sorte que hoje em dia boa parte do trabalho pode ser feita à distância: fotografa-se na varanda da casa, formata-se o catálogo em São Paulo para ser impresso aqui em Vitória. O texto da curadora de design foi enviado lá da Finlândia e os projetos do layout da sala e das vitrines foram preparados a bordo de um barco gaiola subindo o Amazonas.

A lista de providências se renova a cada dia: atualizar endereços e e-mails para enviar os convites; contratar marcenaria, imprimir fotos e palavras para fixar nas paredes, conferir as provas de cor na gráfica, resolver a iluminação, comprar uma camisa bonita e assim por diante. Nem imagino como seria fazer tudo isso na base da comunicação por envelopes, com a minha velha Rolleiflex e, sobretudo, sem o telefone celular.

Tudo isso está me fazendo lembrar das fortes emoções durante a preparação das primeiras feiras de mármore e granito de Cachoeiro, quando trabalhava no BANDES, de onde partiram os tais convites.

Vitória, 10 de Novembro de 2010.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Depois

Depois

Tenho visto muita gente incomodada com o andar desta eleição para presidente. Eu também ando sentindo desconforto com o rumo dos acontecimentos. Cada vez mais fico com a sensação de estar diante de uma espécie de peleja por cargos e poderes. Quem está dentro não quer sair, quem não está mais, pretende voltar.

Tenho amigos de todas as cores e tendências. Com alguns, consegui apostar nos resultados. Com outros, tenho preferido nem comentar as possibilidades de derrotas. Já não leio mais nada do que me enviam defendendo ou atacando candidatos. O preconceito tomou conta de meio mundo, a raiva transparece nas palavras.

Até o presidente, no alto de popularidade nunca vista, tem exacerbado. Tanto que me faz pensar no que será de nosso presidente quando estiver fora do cargo, seja influenciando a sucessora que inventou ou ficando ressentido com o candidato paulista que tenha lhe tirado o doce da boca. Ainda não consigo imaginar Lula como um ex-presidente. A popularidade dele é real, inusitada e deve perdurar. Preocupa um ex-presidente com tamanho prestígio marcando presença no cotidiano de quem esteja governando. A alternativa de ingressar em organismos internacionais, como se cogitou há algum tempo, pode estar comprometida pelo que andou fazendo durante a campanha.

Lemei-me do encontro que tive com Juscelino Kubitschek em pleno engarrafamento no viaduto soe a Praça 15, no Rio de Janeiro, numa manhã ensolarada de 1971. Ele surgiu ao meu lado quando a fila da esquerda andou mais rápido que a nossa. Eu estava ao volante de um Citroen preto de pára-lamas dianteiros longos e arredondados, igualzinho aos usados pelos bandidos nos filmes franceses, que um amigo do peito acabara de comprar.

Pois ali estava, a menos de um metro de mim, o homem que modificou a cara do Brasil, que estimulou o novo e fez surgir Brasília. Agora, cassado nos seus direitos políticos e banido da vida pública, enfrentava os mesmos engarrafamentos cariocas que todos nós. Em silêncio, ele apreciava a paisagem da Baía de Guanabara.

Ao ver que eu o cumprimentava respeitosamente com a cabeça, um sorriso começou a se air naquele rosto conhecido e a contração das bochechas fez seus olhos ficarem apertados. Ato contínuo, com a mão para cima, levemente espalmada para dentro, reviveu o gesto do estadista saudando o público. Um agradecimento feito com naturalidade e um olhar muito amistoso.

Embora aquele Opala escuro não fosse o Rolls Royce conversível da presidência e o engarrafamento nem de longe lemasse um desfile de 7 de Setemo, o passageiro que aparecia na sua janela da frente demonstrava satisfação por ter sido reconhecido pelo motorista do carro do lado. O trânsito da nossa faixa começou a fluir e, aos poucos, nos afastamos um do outro. Comigo ficou a sensação de que ambos, cada qual a seu modo, seguimos de alma leve naquela manhã de ail.

A magia daquele encontro voltaria a se repetir mais uma vez na praia de Copacabana, em circunstâncias bem parecidas. A cordialidade com que nos saudamos nas duas oportunidades me fez ficar com a impressão de ser um velho conhecido do Presidente JK, em quem eu nem cheguei a votar.

Não consigo ver Lula preso em engarrafamentos.

Vitória, 27 de Outuo de 2010.

Alvaro Aeu

Escrita para A GAZETA

Arroz de Festa

Arroz de Festa

Fui passear na feira de Jardim da Penha na friagem da manhã de sábado. Há tempo que não a via tão cheia e animada. Quase uma festa, sobretudo para candidatos que faziam o corpo a corpo em busca de votos e apoio. Deve ser bom fazer campanha em feiras livres. O ambiente de camaradagem favorece o contato pessoal, o que não acontece em supermercados e nas ruas vazias dos bairros de classe média.

O movimento era grande no trecho das barracas de caldo de cana, ponto de parada obrigatória para comer pastel e, por alguns instantes, voltar no tempo. Como sempre, de pé, com a boca cheia e as mãos ocupadas, as pessoas pareciam estar de alma leve, respirando largo, inteiramente disponíveis para conversas amenas e abordagens de candidatos desconhecidos. Os mais gulosos, e não eram poucos, comiam o farto sanduíche de pernil acebolado.

Gosto de andar na feira sem rumo certo em busca de coisas para levar pra casa. As conversas com feirantes conhecidos são sempre amistosas e decisivas na hora da compra, inclusive pelos descontos que concedem. Acho que a expressão fim de feira começa a perder o seu sentido de preço de ocasião.

Sou freguês eventual da barraca de um homem falante que vende carne de porco e seus derivados, com quem sempre troco umas palavras. Dessa vez, ao velho estilo de João Moraes, pedi que embrulhasse um pedaço de chouriço, um pouco de lingüiça apimentada, uma manta pra fazer torresmo e um belíssimo joelho de porco defumado pra comer assado. Isso, na mais perfeita consciência de que tudo aquilo era relativamente rico em colesterol, mas de altíssima qualidade, é bom que se diga.

Mais adiante, quando escolhia aipim manteiga que estivesse soltando a casca com facilidade, um teste infalível para saber se vai amolecer ao cozinhar, me apareceu um casal de amigos, que não via há tempos. Feira também é lugar para encontrar pessoas que já não mais estão à vista nas cidades que crescem rápido. Pelo jeito, os pequenos prazeres domésticos haviam entrado na vida daqueles dois. Estavam realizados. As sacolas ecológicas trazidas de casa estavam abarrotadas. Antes, eles só iam à feira em missão de panfletagem de candidatos de oposição. Isso, até conseguirem ganhar as primeiras eleições.

Rindo, lembramos do jantar de inauguração do apartamento que eles haviam comprado pra casar. Sem qualquer intimidade com os assuntos do lar, resolveram convidar amigos para comemorar a novidade na base do “ajunta pratos” e muito vinho tinto chileno de boa relação custo-benefício.

Casa cheia e animada. Na varandinha, a conversa dos maridos girava em torno das eleições que se aproximavam. Na sala, amigas desde o tempo da universidade e do movimento estudantil, as mulheres discutiam assuntos da administração da cidade. É que elas tinham passado da militância política para a prática contundente.

Mas a graça dessa história aconteceu na cozinha, onde encontrei a dona da casa e duas amigas inteiramente mobilizadas com os preparativos para servir o jantar. Para ajudar, tratei de ligar o forno novinho para esquentar as travessas de torta de bacalhau e acender a boca de fogo da panela de bobó de camarão, enquanto elas debatiam alternativas para equacionar um outro problema relevante. Nenhuma daquelas influentes executivas sabia como esquentar o arroz.

Vitória, 18 de agosto de 2010.

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Aposta

Aposta

Ganhei uma aposta que fiz com um grande amigo. Apostei que haveria segundo turno nas eleições presidenciais. Uma aposta simbólica, apenas para arranjar assunto para a nossa conversa de mais de três décadas e muitas eleições.

A aposta foi modesta, um simples pedaço de queijo. Na verdade, peguei carona na discussão que se formou na saída do prédio e tratei de entrar na aposta que dois amigos acabavam de fazer, tendo por prêmio duas garrafas de um bom vinho. Achei por bem casar um pedaço de queijo. Assim, poderíamos saborear a vitória com mais satisfação, qualquer que fosse o vencedor.

Tenho gosto pela análise do quadro político. Divirto-me acompanhando os acontecimentos que se sucedem no mundo dos homens e das coisas da política, do que se move pela força das conveniências e convicções pessoais e das oportunidades que surgem. Gosto de juntar fragmentos de notícias, palavras ditas, gestos fotografados e reuniões anunciadas. Tento entender o que dizem os jornais diários e as televisões abertas e fechadas, que estão sempre querendo distrair as minhas atenções e dissipar o meu cansaço.

Vejo pouco o que circula na internet, o suficiente para ter noção da movimentação de pessoas agindo em favor do que acreditam, totalmente fora do encalço de quem pretenda controlar as suas idéias, ligações e palavras.

Minha caixa de mensagens anda abarrotada de manifestos e denúncias de todo tipo, além de maldades engraçadas e deboches para todo gosto. Um perigo para qualquer candidato feio, careca, cabeça dura e para qualquer candidata dentuça, inventada, mãe disso e daquilo. A caricatura desnuda as características cuidadosamente escondidas pelos marqueteiros. A graça da piada dissolve a sisudez dos textos raivosos e dá cor às denúncias e cobranças que circulam na rede. O riso continua sendo uma arma mortífera.

Chegam, também, mensagens relembrando declarações, gestos e discursos acontecidos em outros tempos quem infernizam a vida dos candidatos. Não há como escapar do impacto de uma imagem verdadeira.

Curioso, tenho pedido a opinião de pessoas que encontro no elevador, na fila do restaurante, na barraca da feira sobre os resultados do segundo turno. Vencida a desconfiança, recebo respostas que expressam estados de alma consistentes, fonte de voto convicto. As justificativas são variadas, mas quase sempre expressam a força da propaganda, o poder do marketing, os interesses de igrejas. Quase nada sobre programas de governo.

O que parecia ser uma vitória líquida e certa se transformou em algo imprevisível. Eu bem que gostei de ter um segundo turno. Abre espaço para embates mais verdadeiros entre os candidatos e força a revisão de acordos entre forças políticas. Aos eleitores, ele oferece chance para avaliações mais ponderadas.

Na véspera do feriado, em volta de uma grande mesa, comemos o queijo e bebemos o vinho da tal aposta entre amigos. Riu-se muito das opiniões sinceras e dos desejos inconfessos, das análises tendenciosas e, sobretudo, das controvérsias. Sem qualquer possibilidade de acordo sobre os resultados da eleição, decidiu-se abrir nova rodada de apostas, embora não tenha sido possível fixar o percentual de votos de quem vai perder a chance de ser presidente do Brasil.

Alvaro Abreu

Vitória, 13 de Outubro de 2010

Escrita para A GAZETA

Faxina

Faxina

Há tempos os cupins haviam comido boa parte do armário de um dos quartos da nossa casa. Longe dos olhos do dia a dia, o assunto foi ficando pra depois, até que a hora da desocupação chegou de supetão. O marceneiro viria à tarde e era preciso esvaziar as prateleiras e gavetas que haviam sobrado.

Naquele armário corroído em suas estruturas, estava boa parte do que foi sendo acumulado pelos filhos até saírem de casa, levando apenas o que lhes pareceu indispensável para viver em outro lugar. Como o que vem vindo pela frente é incerto, melhor é partir aliviado do que precisará ser guardado no novo destino. Todo mundo faz isso. É coisa do bicho homem, isso de não dispensar o que foi juntado durante anos. Também foi assim comigo, quando fui estudar no Rio. Ainda bem. Dia desses, recolhi da casa de mamãe uma caixa de cartas de remetentes já quase esquecidos. Trouxe junto uma caderneta do Salesiano. Os objetos velhos servem para preservar vínculos com épocas e lugares.

Eu sabia que iria encontrar naquele armário somente coisas sem qualquer utilidade aparente para os atuais moradores da casa. Inservíveis, como se diz no jargão do serviço público. Objetos desgastados pelo uso, surgidos de modismos passageiros, obsoletos pelos avanços tecnológicos, inutilizados por falta de partes fundamentais. Tralha, pura tralha: caixas de jogos de ficha, cadernos encardidos, pé de pato solitário, capas de máquina fotográfica, um mapa de Paris, cassetes, muitos cassetes. Livros de biologia, chapéu de feltro, peças de Lego, baralho incompleto, várias canetas ressecadas, bilhete de metrô, além de mouses, fones de ouvido, caixinhas de som e pilhas sem nenhuma energia.

Nas empresas, os homens também acumulam grandes quantidades de coisas inúteis. Estudiosos e consultores pregam a necessidade de livrar o ambiente de trabalho de tudo aquilo que não serve mais, que ocupe espaço inutilmente. A qualidade total pressupõe limpeza e organização.

Nas igrejas, nos terreiros, nas clínicas e hospitais os homens buscam ajuda para se livrarem do que lhes entristece a alma e lhes perturba a cabeça, fundamental para que possam viver sem o peso dos próprios pecados, sem os incômodos de seus traumas e sem medo de antigos fantasmas, acreditando na salvação. A cachaça também liberta e ajuda a esquecer.

Na democracia, as eleições existem para permitir que a limpeza dos armários públicos aconteça com data marcada, mediante a troca dos partidos e dos governantes. Ao menos em tese. É que os marqueteiros de campanha, todos regiamente pagos, estão se aprimorando cada vez mais na arte de moldar a imagem e as atitudes dos candidatos para torná-los mais convincentes e palatáveis aos olhos dos eleitores.

Aprendi com a vida que o poder revela a alma e o caráter de quem o detenha. Ao se ver livre de quem lhe imponha limites e respeito, o poderoso passa a agir guiado por seus próprios instintos, valores e interesses. Pessoas tornadas poderosas repentinamente podem exercer o mando de forma ainda mais imprevisível, naturalmente. Ao que tudo indica, só mesmo depois da posse é que se vai poder conhecer na prática a pessoa que exercerá os poderes presidenciais nos próximos anos. É cruel.

Alvaro Abreu

Vitória, 29 de Setembro de 2010.

Escrita para A GAZETA

67

67

Fui ao cinema ver o documentário sobre o festival da TV Record, em 1967. Levei mãe, mulher e filha com namorado. Três gerações diante de um mesmo acontecimento, três olhares diferentes sobre o que aconteceu em São Paulo, na efervescência de um tempo de muitos embates e divergências. O país estava dividido na política, começando a adotar roupas coloridas, experimentando novos tipos de droga, incorporando valores e ouvindo sons estranhos.

Para quem viveu aqueles anos conturbados o filme traz de volta as mesmas emoções sentidas. Quem desconhece ou só ouviu falar por alto pode entender um pedaço do Brasil que surgiu naquela época pela voz e atitudes das pessoas que aparecem na tela, em preto e branco. Caetano, Chico, Gilberto Gil, Roberto Carlos e Edu Lobo cantando enquanto Sérgio Ricardo jogava o violão na platéia por não conseguir cantar.

Um mundo artístico livre da força do marketing profissional, apresentadores televisão modestos e espontâneos, fumantes inveterados dando entrevistas ingênuas e declarações reticentes. Auditório repleto de moças paulistas de brincos e colares reluzentes. A rivalidade amistosa entre artistas recém chegados às paradas de sucesso, uns mais inovadores e arrojados do que outros, todos talentosos. Vi imagens da passeata contra guitarras na música brasileira, de que já nem me lembrava mais.

Sempre achei que a música, mais do que as fotos, nos ajuda a reviver em detalhes experiências pessoais.

Mais Que Nada, tocada por Sérgio Mendes, me leva de volta ao desfile da Rhodia no Saldanha da Gama, onde seis ou sete manequins aceleraram os corações de meio mundo. A cadência de Desafinado até hoje me deixa sentado na varanda de piso de marmorite da casa de amigo como no início dos anos 60. O Calhambeque me faz subir as escadas do Clube Vitória para ouvir o Rei mandar Tudo pro Inferno.

Ouvir Banho de Lua de Celly Campello me proporciona a satisfação de ter driblado o controle do porteiro do Álvares Cabral na Praça Costa Pereira. A Benção de Vinícius me leva às domingueiras do IBEU de Luiz Paixão e Satisfaction dos Rolling Stones sempre me faz dançar de olhos fechados na pista da Boate Boteco. Os acordes iniciais de Chove Chuva, das poucas coisas que sei tocar no violão, me colocam diante das eletrolas de Jairo Maia no Praia Tênis Club, enquanto a suavidade de Georgia on My Mind na voz de Ray Charles me faz lembrar as tentativas de conquistar moças mais renitentes.

Bandeira Branca arrasta meus pés e levanta meus braços lá no Siribeira em Guarapari e Preta Pretinha me convida para ir novamente ao meu casamento lá em Itaipava, no Estado do Rio. Lança Perfume de Rita Lee reaviva em mim os tempos em Brasília e a letra de Vai Passar, do Chico, me coloca feliz nas comemorações pelo fim da era dos presidentes militares.

Visitei a exposição dos 50 anos de carreira de Roberto Carlos. Na saída, à espera do taxi, tive a sensação de ter acabado de assistir o trailer de um musical sobre os tempos que tenho vivido. Vi a mesma expressão de saudade boa estampada no rosto emocionado dos muitos que estavam ali, ao meu lado, olhando aquela chuva grossa cair.

Vitória, 15 de Setembro de 2010

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA