Águas de Janeiro
Soube que Tom Jobim escreveu Águas de Março no sítio dele lá na região serrana do estado do Rio, após uma chuvarada.
Não imagino o que a tragédia que por lá acontece esteja inspirando às pessoas que enfrentaram as enxurradas e que agora tentam conviver com as perdas de parentes e amigos, animais de estimação, casas, carros e objetos que juntaram durante a vida. Tenho visto gente chorar diante da TV vendo imagens da destruição e da solidariedade que surgiu por toda parte.
Por muito menos Newton Braga, o poeta maior de Cachoeiro, escreveu há décadas: De vez em quando o rio cresce sobre a cidade, brutal, arrasador. A força irresistível de suas águas carrega árvores, casas, lavouras, vidas humanas. Todos o olham, então, com o temor supersticioso com que deveriam os antigos povos bárbaros receber terremotos e tempestades: ódios desencadeados e incontíveis de deuses rancorosos e vingativos.
Quem me lembrou disso foi Higner Mansur, amigo atento que recolheu informações sobre as enchentes na minha terra. É que o rio Itapemirim subiu muito, como não o fazia desde 1934. Suas águas molharam a escada do antigo Grupo Escolar Bernardino Monteiro, construído bem na praça central da cidade, quando educação era coisa séria.
Veio junto trecho da crônica Trovões de Antigamente, que Rubem Braga escreveu em 1958: Então vinham todos dormir em nossa casa. Isso para nós era festa, aquela faina de arrumar camas nas salas, aquela intimidade improvisada e alegre. Parecia que as pessoas ficavam todas contentes, riam muito. Como se fazia café e se tomava café tarde da noite! E às vezes o rio atravessava a rua, entrava pelo nosso portão, e me lembro que nós, os meninos, torcíamos para ele subir mais e mais. Sim, éramos a favor da enchente, ficávamos tristes de manhãzinha quando, mal saltando da cama, íamos correndo para ver que o rio baixara um palmo – aquilo era uma traição, uma fraqueza do Itapemirim…
Ele mandou também relatos da política local, dentre elas, uma decisão desastrosa do Prefeito Attílio Vivácqua em 1920 autorizando, por decreto, a cessão de terrenos municipais beira-rio, no centro da cidade, para construção com fundos para o rio. Uma pá de cal no que havia sido decidido na Sessão da Câmara de 6 de fevereiro de 1873, isso mesmo, 1873: Numa petição de Manoel do Prado para edificar uma casa com frente na rua Moreira para o rio, a Câmara resolveu indeferir a este requerimento visto que tem adotado a providência de não deixar edificar casas do lado do rio não só porque enfeia o arruamento das margens do rio como também tira a vista aos moradores cujas casas têm frente para este.
Manoel Gonçalves Maciel não deixou barato no livro De volta ao Cachoeiro Antigo, de 2003: Se Cachoeiro tivesse sido governada por homens que adotassem também a idéia, teria crescido com extensas, arejadas e alegres avenidas beira-rios. Mas, se todos os governantes fossem inteligentes, não teríamos de quem falar.
Da minha parte, digo que tudo isso me faz pensar na construção de prédios, usinas, portos e estaleiros enormes e definitivos na beira do nosso mar e, confesso, a acreditar que se o pessoal tivesse respeitado o que ficou decidido em 1873, Cachoeiro poderia ter ficado tão maravilhosa quanto Paris.
Alvaro Abreu
Vitória, 19 de Janeiro de 2011-01-18
Escrita para A GAZETA
