Fora do script
Pois é, cá estamos todos nós começando um ano novo, novamente. Como uma boa parte dos anos que ficaram para trás, 2010 foi um tempo suficientemente rico em coisas boas e em chateações de natureza sortida e de tamanhos bem variados, coisas típicas do mundo dos negócios, do âmbito familiar, do plano pessoal.
Alguns deles serão esquecidos rapidamente por banais que foram. Outros serão tomados como referências de vida, como passagens a serem contadas em momento oportuno a título de argumentação e justificativa. A nossa existência vai acontecendo entre tombos e topadas, que deixam marcas para uso posterior.
Por alguma razão misteriosa, somos levados a reclamar da vida, realçar o ruim, lembrar das perdas. Parece que ao fazê-lo conseguimos desculpas pelo que não fizemos, adquirimos o direito de querer mais, recebemos perdão pelos pecados, ganhamos uma nova chance. A sensação que tenho neste início de ano é a mesma de quem conseguiu escapar do tiroteio, de quem raciocinou rápido no momento da queda, de quem pulou do bonde com categoria, de quem segurou a corda com força suficiente.
Tenho acreditado que já possuo mais do que o suficiente para só querer aquilo que produza satisfação, facilite o entendimento e melhore o conforto. Coisa pouca, bem pouca. Simples de tudo.
Estamos de governador novo e temos uma presidenta, assim mesmo, no feminino, como ela prefere ser tratada, embora contrariando o vernáculo e seus defensores. Dizem que quem pode mais, pode menos. Quem quiser que se acostume com o novo estilo presidencial.
Nestes dias de festas, lembrei-me do que senti na noite da virada para 1995, sentado na minha cadeira de balanço trazida do sertão da Paraíba. Completamente debilitado em função das coronárias razoavelmente entupidas, acho que cheguei a rezar para ficar vivo e poder aproveitar a temporada que começaria a correr a partir da posse de Fernando Henrique como presidente do país, de Vitor Buaiz como governador do estado e de Paulo Hartung como prefeito da capital. As expectativas políticas eram muito animadoras e não seria justo que eu ficasse de fora daqueles novos tempos que estavam chegando. Eu bem que merecia permanecer vivo.
Neste réveillon, da varanda da casa de Afonso, meu irmão, fiquei vendo o pipocar dos fogos de artifício por cima dos prédios da orla, pensando na vida. Confesso que o impacto do aumento absurdo dos salários dos congressistas e seus desdobramentos e efeitos colaterais em escala aprovado nas vésperas minou o clima de festa, desmontou minhas expectativas e esperanças. Puro descaramento.
De ressaca, assisti na TV a posse do nosso novo governador, que usava uma gravata muito parecida com a do seu antecessor. Logo depois acompanhei a da nossa presidenta, que me pareceu tremendamente solitária e fora de lugar, em meio aos políticos profissionais que estavam diante dela, no plenário da Câmara dos Deputados.
No parlatório do Palácio do Planalto a esposa do vice-presidente, de trança lateral e poucos sorrisos, roubou a cena e se transformou numa atração inesperada para telespectadores menos entusiasmados, como eu.
Vitória, 05 de Janeiro de 2011.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
