ÚltimoTipo
Resolvi trocar o meu carro. Não que ele estivesse velho, caindo aos pedaços. Até que está bem conservado para a idade que tem. Saiu da fábrica em 2003 e nem rodou 65.000km. Ainda está em perfeitas condições de uso e pode durar um bom tempo nas mãos de um outro dono razoavelmente cuidadoso como eu.
Não sou do tipo que tem mania de carro, que fica mandando esfregar por dentro e por fora toda semana. Pra mim, o carro tem que estar com a manutenção em dia, com pneus em bom estado, com óleo dentro das especificações recomendadas. Pronto para viagem.
Confesso que não sei bem se estou agindo por vontade própria ou em resposta aos estímulos do marketing a que estamos, todos, cada vez mais submetidos.
A propaganda nos faz querer coisas, nos faz sentir que estamos precisando de algo que uma determinada empresa esteja pagando para nos fazer precisar. Compramos por um desejo honesto ou até por pura inveja dos que já possuem o que as fábricas já conseguiram vender para eles. Nós, consumidores, estamos ficando cada vez mais invejosos, egoístas e insaciáveis.
O bombardeio da tv e dos anúncios em jornais nos faz ficar olhando o carro do vizinho com olho grande, a prestar atenção nos carrões que estejam parados em volta do nosso carro velho nos engarrafamentos ou passando correndo diante de nossos olhos atentos quando estamos esperando o sinal abrir.
Tenho acompanhado o frisson que se estabelece nas pessoas diante de cada celular mais moderno que surge. Tenho visto, sem qualquer ânimo, conversas intermináveis sobre as novas funcionalidades que foram ou serão embutidas naqueles objetos que antigamente serviam para fazer ligações telefônicas lá da calçada. Percebe-se pelos olhos compridos – como nossas avós diziam da vizinha que olhava as suas plantas – que muitas pessoas se sentem ultrapassadas e infelizes enquanto não possuem cada nova função que estão disponíveis. Fico impressionado como as pessoas conversam sobre celulares.
Mas vamos lá, essa crônica é sobre carro, mais especificamente sobre carro novo. Digo isso porque acabei comprando um deles, desses bem sofisticados. Pretendia, como sempre fiz, passar para um mais novo, pouco rodado. Comprar carro usado não é coisa para amador nem pessoa distraída. É uma operação razoavelmente perigosa. A oferta é muito grande, nosso tempo é cada vez mais curto e os vendedores são sempre mais espertos do que os compradores. Se bobear, compra-se gato por lebre.
Procurei nos classificados, telefonei, estive em agências, rodei de um lado para outro. Diante das dificuldades e com viagem marcada, tomei a decisão de comprar um carro zero.
A moça da loja sabia todos os truques para vender tecnologia de última geração, botões mágicos, espaços enormes, segurança total, conforto pleno, sistemas automáticos, espelhos que giram, ar condicionado personalizado, direção super leve, sinalizador de perigo, computador de bordo e mais um sem fim de itens de uso bem pouco provável, como acontece com os dos televisores modernos. Comprei tudo.
Agora, o pessoal de casa e lá do escritório está caindo na minha pele, rindo por ter me rendido aos encantos da modernidade. Tem gente dizendo que agora só falta eu adotar o celular.
Vitória, 01 de Fevereiro de 2011
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
