Quebra-molas
Lá pelos idos de 1990 levei a família para passear em Marataízes, lugar das minhas férias de menino criado em Cachoeiro, e aproveitar para conhecer a pequena casa de veraneio que papai tinha construído em terreno bem grande de esquina, na avenida principal, bem perto da estação do trem. O muro era baixinho e permitia ver quem passasse na rua. A casa tinha acabado de receber melhorias, depois de anos alugada. As janelas foram pintadas de verde e o reboco ganhara uma boa caiação.
Tenho lembranças do pé de pinha, da fresca da varanda virada para o nordeste, das camas beliche e da bomba manual de tirar água do poço. No quintal havia castanheiras e alguns pés de flamboyant, árvore muito apreciada antigamente, mas que virou espécie politicamente incorreta por romper calçadas com suas raízes. Pena, porque flamboyant florido é coisa muito bonita de se ver.
Fomos no ônibus branco e simpático que eu havia comprado e transformado em trailer mambembe, com cama, poltronas, mesas, pia, toalete a bordo e tudo mais que se mostrou necessário para levar com algum conforto a família numerosa e alguns parentes e agregados.
A viagem começou no maior alvoroço, com a garotada rindo muito e falando alto. Mamãe estava toda prosa por estar indo passear no lugar de sua vida de filha de pai desbravador, de mocinha namoradeira, de mulher de médico que adorava pescar e de mãe de muitos filhos. Para ela, Marataízes era sinônimo de tempos de felicidade. Guardo uma foto de papai ao lado de umas seis pescadas enormes dependuradas em um remo sustentado nos ombros. Ele com cara de pescador orgulhoso com o resultado daquela saída ao mar.
A Terceira Ponte não estava pronta e era preciso passar por dentro de Vila Velha para acessar a Rodovia do Sol e chegar em Guarapari para depois seguir viagem pela estrada beirando o mar, passando por dentro de Anchieta, Piuma, Itaipava, Itaóca, Barra do Itapemirim e, finalmente, Marataízes. A viagem levou mais de 4 horas. Contamos exatos 87 quebra-molas, entre os urbanos e os rodoviários.
Definitivamente o ônibus detestava quebra-molas. Era penoso enfrentar aqueles obstáculos transversais. Ele era praticamente obrigado a parar duas vezes diante de todos eles. Uma vez para com cada um dos seus eixos.
A suspensão dianteira era bem macia, mas a traseira era com feixe de molas, bem mais seca e dura. A cada quebra-mola o pessoal reclamava das pancadas do pneu no cimento e, depois, no asfalto.
Estou dizendo tudo isso porque acabo de chegar do sul da Bahia e muito do que vi por lá me fez recordar dos verões em Marataízes, inclusive três belas pescadas amarelas de mais de cinco quilos sendo tiradas do barco por pescadores.
Também encontrei por lá centenas de quebra-molas, de todo tamanho, forma e tipo: civilizados, prepotentes, trepidantes, miseráveis, traiçoeiros, estúpidos, disfarçados, com abas e corcovas e por aí a fora. Inconvenientes, todos eles.
Dirigindo o carro novo, pude constatar na prática que câmbio automático é recurso de grande utilidade para enfrentar a aporrinhação dos quebra-molas, mas nem tanto para minimizar a chateação de viajar lentamente em comboios liderados por caminhões com 30 metros de comprimento, lotados de toras de eucalipto.
Vitória, 16 de Fevereiro de 2011-02-16
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
