Neeennsseeeeee

Neeennsseeeeee!

Muricy não aparece na foto do encarte distribuído por A GAZETA nesta segunda feira, em homenagem aos torcedores do Fluminense, que se sagrou campeão brasileiro de 2010, exatos 26 anos depois da última conquista de campeonato disputado pelos melhores clubes de futebol do país.

Tradicionalmente esse tipo de registro é feito antes do jogo. Nele sempre aparecem os jogadores titulares e os reservas, treinador, massagista, preparador físico, médico, diretor de futebol, psicólogo, roupeiro, amigos do diretor, filhos de dirigentes e agregados afins. Nesta foto histórica para os tricolores capixabas contei 19 atletas uniformizados e prontos para o combate, 17 profissionais vestindo agasalho verde e branco, 24 crianças vestidas de futuros campeões e uma moça com jeito de professora de escolinha de futebol.

Muitos dos jogadores aparecem sorridentes, alguns demonstram tensão, dois fazem pose de beque central violento e um está com cara de ponta esquerda irrequieto. Os homens de retaguarda, gordinhos e carecas, demonstram ansiedade. Só dois deles estão confiantes. As crianças aparecem com as melhores caras deste mundo, felizes de estarem ali, ao lado dos ídolos, no colo do pai goleador.

Por certo todas elas guardarão fotos distribuídas por jornais e revistas para serem usadas como prova inconteste de que estiveram naquele estádio lotado, naquele dia de gloria do clube do coração. Jamais se esquecerão de terem participado daquele momento especial na trajetória do time tricolor carioca. É coisa para o resto da vida.

Digo isso porque guardo uma fotografia 18×24 em preto e branco que registra um acontecimento no centro do gramado do estádio do valente Cachoeiro Futebol Clube, lá da minha terra. Nela aparecem homens do esporte, autoridades municipais e alguns atletas ouvindo, atentos e circunspectos, o que meu pai dizia ao microfone da rádio da cidade, que o locutor desportivo segurava à sua frente.

É bem provável que tenha sido uma pequena solenidade de despedida do diretor do clube, que estava de partida com a família inteira para a Bolívia, onde iria trabalhar como consultor em saúde pública por dois anos.

Nela estão também os três filhos do Dr. Bolívar, metidos em calça curta e suspensórios,como parte de uma cena que inclui ao fundo uma arquibancada alta de madeira com guarda corpo e telhado. Nem sei se ainda existem vestígios daquele velho estádio lá no bairro Baiminas que guardo no papel.

Não me lembro do dia em que comecei a torcer pelo Fluminense no meio de uma família de flamenguistas e ao lado de um irmão mais velho vascaíno doente. Pode ter sido depois de alguma defesa espetacular de Castilho ou Veludo, narrada com entusiasmo pelo locutor da rádio Nacional.

O fato é que permaneço fiel ao gigante das Laranjeiras até hoje, com o mesmo entusiasmo da amiga que me telefona sempre, na derrota ou na vitória, a mesma convicção do vizinho que estendeu uma bandeira tricolor na varanda da casa e de um velho amigo que vive com a família em Viena, onde terá aberto as janelas para gritar “neeennnsseeeee!, “neeennnsseeeee!” depois do gol por entre quatro pernas adversárias e, sobretudo, do esperadíssimo final da partida.

Torço para ver Muricy na fotografia da conquista da Libertadores.

Vitória, 08 de dezembro de 2010

Álvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Cachorrada

Cachorrada

Depois do jantar em família, fui tomar uma fresca na varanda e ver o movimento dos carros e dos aviões. Nesse horário, o trânsito é lento e a rua fica inteiramente tomada por automóveis, camionetes e ônibus. Dalí, daquele segundo andar, também dá pra apreciar o movimento de pessoas na calçada. Vi um senhor magrinho de tênis, uma loura de demonstração, dois recém-casados, um rapaz bem gordo e um careca com cara de quem gosta de cerveja. Cada um com um cachorro preso a uma guia. O saquinho, na outra mão, atestava que eram cidadãos politicamente corretos. Cenas típicas de cidade grande, de lugar onde crianças já não brincam nas ruas.

Sou do tempo em que os cachorros viviam soltos, comiam comida de panela e só tomavam vacina anti-rábica. Nada de pet-shop nem de dentista.

Braine, um pastor alemão brincalhão e inteligente, era o mascote da turma de adolescentes que freqüentava a antiga Rua da Árvore e praia do Barracão. Ao perceber a movimentação dos filhos de Seu Zé Ramos, ele abocanhava o pau da barraca de sol, entortava o pescoço pra passar na porta do quartinho e ia esperar no portão da frente. Era um banhista animado e convicto. Dava cambalhota pra trás e nadava para buscar a bolinha de frescobol arremessada longe. Nessa época, cachorro podia ir à praia. Hoje, nas areias lotadas, existem tabuletas proibindo animais e prometendo multa aos donos. Embora livre do bicho geográfico, o mundo ficou mais sem graça.

Zorro, um vira-lata de boa estatura, branco com manchas marrons, era tido por meu irmão Afonso como pai de todos os cachorros malhados da cidade. Ele afirma, orgulhoso, que encontrou o danado perseguindo cadela no cio lá pelas bandas da rodoviária. É bom que se diga que Zorro ajudou a criar os três filhos do casal. Acompanhava os meninos onde quer que fossem e só voltava pra casa junto com eles. Depois de velho, esparramado na varandinha da casa de esquina, abria um olho só para conferir quem chegasse. Afonso tratou de arranjar um poodle para acordá-lo em caso de perigo iminente.

Não conheci o cachorro de mamãe lá em Cachoeiro. Ganhei intimidade com Zig Braga através das suas histórias. Dizem que Zig tinha raiva de homem fardado e do carteiro, que reclamava com vovó Neném se o angu estivesse mal cozido e que ao vê-la em sapatos de salto descia correndo as escadas para esperá-la no caramanchão. Há quem se lembre daquele cachorro enorme andando ao lado dela em suas idas ao comércio, à igreja ou em visita a parentes. Onde não podia entrar, esperava deitado na calçada. Mamãe conta que Zig provocava grande alvoroço na saída do Liceu, do outro lado do rio Itapemirim, onde ia buscá-la diariamente.

Bingo é um cachorro tímido, meio triste, mas muito gentil. Embora já quase todo branco de velhice, meio surdo e enxergando pouco, faz por merecer o apelido de “vovô garoto”, tamanha a vitalidade que exibe ao sair pra rua. No quintal, está sempre com cara de coitado. Quando precisei, foi uma companhia solidária e silenciosa. Kill e Bill completam o trio de bassets da casa. Kill é preto, parrudo e super-simpático. O outro, bem menor e marrom, é medroso que só e veio trazendo traumas de infância. Estão sempre juntos, dormem enroscados e adoram meus netos. Manu, nos seus dois anos e meio de idade, faz cara de domadora ao dar, com parcimônia, bolinhas de ração na boca de cada um.

Vitória, 04 de Agosto de 2010

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Baleias

Baleias

Notícia de baleia morta na praia faz lembrar o que vi em Costinha, uma vila de pescadores na foz do rio Sanhoá, bem em frente de Cabedelo, na Paraíba. A caça da baleia era feita em alto mar e seu resultado mostrado como atração turística em terra firme. Corria o ano de 1987.

As baleias vinham amarradas pela cauda nos costados do pequeno navio japonês. Três, cinco, oito, dependendo do dia. Depois de soltas, ficavam boiando até que fossem rebocadas por um guincho, uma de cada vez,  praia acima até um grande cimentado, onde quatro homens de branco, impecavelmente limpos, as aguardavam. Dois de cada lado.

De pé, imóveis, eles olhavam atentamente para a baleia que se aproximava. Cada qual segurando firme, com as duas mãos, a sua ferramenta de trabalho: um grande cabo de madeira com uma lâmina de aço presa na ponta.

Naquela posição, pareciam atletas de salto com vara, concentrados, aguardando o momento certo para começar a agir. Não saberia dizer o que pensavam aqueles homens, nem o que sentiam, mas dava pra ver que eles estavam ansiosos. Éramos uns duzentos espectadores olhando tudo bem de perto.

Quando o rabo da baleia chegou diante dos homens, cada qual pressionou sua lâmina sobre a pele preta. Na medida em que o corpo ia passando por aquelas navalhas afiadíssimas, a pele ia sendo dividida em tiras longitudinais, da cauda até a cabeça.

Presas a cabos de aço, as tiras iam sendo arrancadas, como casca de banana. O barulho era desagradável, de algo sendo esgarçado, descolado. Junto com a pele saia também uma grossa camada de gordura. Na verdade, ao parar, a baleia estava literalmente descascada, restando uma enorme massa de carne sangrenta e escura.

As barbatanas e a cauda foram rapidamente amputadas com a ajuda de lâminas pontiagudas. O serviço exigia perícia. Os homens aplicavam golpes, certeiros e sucessivos, cada qual com seu estilo. O ritmo era um só, frenético. A habilidade e a frieza daqueles trabalhadores aumentavam o impacto produzido pelos cortes profundos na carne vermelha. Muita gente não agüentou a cena e abandonou o lugar.

Com golpes longos e arredondados, agora com lâminas mais largas, eles iam produzindo, com facilidade, planos horizontais e verticais naquele tecido fibroso. Nacos, tiras e espécie de tijolos de carne iam sendo jogados em caixas brancas que, cheias, eram levadas em carrinhos de mão para um galpão ao lado. Lá seriam recortados em pedaços menores e embalados para exportação. O restante seria transformado em carne de sol. Os ossos eram levados num caminhão. Com um jato de água muito forte, lavaram o que havia de sangue pelo chão para um ralo enorme.

Em menos de meia hora, aqueles homens de branco haviam feito uma baleia inteira desaparecer diante dos meus olhos. Enquanto esperavam a próxima, eles conversavam afiando suas ferramentas. Não há como esquecer o que vi.

Hoje, a pesca está proibida no Brasil. Muitas centenas de baleias, sobretudo, Jubarte passam uma boa parte do ano na região de Abrolhos. Salientes, em festa de acasalamento, esguicham água, saltam e abanam a cauda, para quem quiser ver. Chegam em pequenos grupos, no meio do ano, em busca das nossas águas quentes. Pelo que sei, é quando alguma se desgarra, perde o rumo e encalha no raso da praia.

Baleia na areia é uma cena triste, que faz pensar na morte e na vida.

Alvaro Abreu

Vitória, 01 de Setembro de 2010

Escrita para A GAZETA

Assustado

Assustado

Tenho andado meio assustado com as mudanças que estão acontecendo em Vitória, que conheço desde 1958, quando meu pai veio trabalhar aqui, trazendo família numerosa, pensando que voltaria em breve para Cachoeiro. Na época, o fluxo migratório era na direção do Rio de Janeiro, para onde os mais dispostos iam em busca de oportunidades de estudo e trabalho. Talvez nossa família tenha sido uma das pioneiras nesse movimento..

Vitória era um lugar pacato, bucólico, tranqüilo e muito simpático. Ruas vazias, pessoas conhecidas, portas abertas. Lembro-me de ter ficado impressionado com os prédios de dois andares da Avenida Cesar Hilal, recém construídos. Praias com pouca gente, clubes e pouquíssimos bares e restaurantes. Dois ou três, no máximo. Ouvia-se falar de um cassino lá pelas bandas de Campo Grande e de uma boate no Clube Vitória, no Parque Moscoso. Eram poucos os cursos universitários, direito, odontologia, engenharia e olhe lá. O minério de ferro escoava pelo cais do Pela-Macaco e a região da beira do canal começava a ser aterrada. Que eu me lembre, chaminé, só mesmo a da torrefadora de café na Avenida Vitória.

As compras da casa eram feitas em um armazém na Jerônimo Monteiro, encomendadas pelo telefone, que só precisava de quatro números para funcionar. 7261 era o nosso, 7314, o dos Larica. Havia quem soubesse a placa do carro e o telefone de quase todo mundo.

Quando voltei para Vitoria em 1987, também trazendo família numerosa, a sensação era a de estar voltando pra casa, para um lugar onde conhecia muita gente, onde saberia encontrar mecânico habilidoso, peça para geladeira, anzol de todo tipo e até fábrica de picolé.

Confesso que não estou conseguindo acompanhar as mudanças que ocorrem diariamente. Toda semana tem lançamento de prédio e inauguração de restaurante trazido de longe, de casas de diversão e de revendedora de carros caríssimos. Jornais alardeiam oferta de empregos e oportunidades petrolíferas, siderúrgicas e portuárias. Pipocam as ofertas, assanham-se as expectativas de sucesso pessoal e empresarial.

Cresce a oferta de cursos para quem precise se preparar para conseguir emprego e salário melhor. As prestações do consumo pressionam por mais dinheiro. Os restaurantes estão lotados de pessoas falantes, sem tempo pra comer. Isso sem falar na expansão vertiginosa do tráfico de drogas, nos crimes por disputa banal ou por cobrança de dívida e nos assaltos em busca de dinheiro fácil.

Faltam vagas. Já não se sabe onde estacionar o carro novo. Soube que o esquema multa e reboca voltará a funcionar em breve e com apetite redobrado do poder público e dos donos de guincho. A indústria da multa, fundada em normas politicamente corretas, sustenta muita gente.

Dia desses, recebi de um amigo que vive em Madri um estudo sobre o futuro de Curitiba. Dá gosto de ver. Um grupo enorme de pessoas foi instigado a dizer o que deveria ser feito e o que não poderia acontecer na cidade. Mais de noventa páginas registram os resultados do esforço generoso em favor de um lugar melhor para se viver. Algo semelhante foi feito aqui em Vitória na virada do século. Acho que já passou da hora de sentarmos novamente para escolhermos o futuro.

Confesso a minha aflição. Sinto-me passageiro de um trem desgovernado.

Alvaro Abreu

Vitória, 21 de Julho de 2010

Escrita para A GAZETA

Dedo quebrado (ex- Para Sempre)

Dedo quebrado (Para Sempre)

Carrego no dedo médio da minha mão esquerda o resultado de uma decisão que tomei no primeiro dia das férias de verão, há mais de quarenta anos. O cenário era a quadra de cimento do Praia Tênis Club e eu estava no gol.

Durante um bom tempo, fui goleiro de futebol de salão, uma das mais ingratas funções no mundo esportivo. A bola é pesada e os chutes, todos, são dados à queima roupa. Era dia de treino do nosso time. Alguém enfiou o pé com vontade, a bola desviou no beque e bateu na ponta dos meus dedos. A dor foi forte, dessas de escurecer a vista. Sentado no banco dos reservas e com a mão dentro do balde com gelo que arranjaram no bar, fiquei pensando no dedo e na vida.

Se ele tivesse quebrado, haveria de engessar a mão por uns trinta dias. As férias estavam apenas começando e, além do mais, a competição estadual de natação seria na semana seguinte. Gesso e água não combinam. Muita gente conhece minha fama de nadador vitorioso. Não seria um dedo inchado que iria me impedir de ganhar mais umas medalhas. Imediatamente decidi não engessar. Para que pudesse nadar, bastava enfaixar o bendito dedo junto com os dois vizinhos. Foi o que fiz. Guardo até hoje as medalhas e esta marca da gana de vencer e da imprudência de rapaz.

Soube pelos jornais que vão construir um supermercado no lugar daquele clube, em que passei boa parte dos anos dourados da minha juventude. A piscina onde nadei quilômetros, o campo em que disputei peladas e jogos oficiais, a quadra de tênis onde Morris Brown sempre vencia, as varandas onde namorei bastante e a pista de dança onde tudo começava. Não mais freqüento aquele lugar e já nem sei o que existe lá dentro. Sei apenas que passar diante de um supermercado não me ajudará a relembrar histórias e façanhas que vivi ali.

Soube, também pelos jornais, que estão querendo construir uma usina termoelétrica movida a gás, bem na Ponta do Tubarão. Como tem sido usual, a notícia tinha tom ufanista e um forte cunho promocional. A empresa, em busca de simpatia e aprovação, ressaltava as vantagens do empreendimento, destacando a geração de muitos empregos temporários.

Confesso que fiquei preocupado. Uma obra dessas se inclui no rol das coisas definitivas, daquelas que podem afetar uma população inteira, por toda a sua vida. Seria mais uma chaminé funcionando a todo vapor, exatamente na reta por onde passa o vento nordeste a caminho de Vitória.

Não sou um especialista em termoelétricas. Nem tão inocente a ponto de acreditar que elas só trazem benefícios. Todas elas têm chaminés por onde sempre escapam nitratos e sulfatos em quantidade. A altura delas não reduz as emissões, quando muito, influencia na distribuição espacial da sujeira. Os detalhes estão na internet.

Aprendi, com as perdas evitáveis e os danos irreversíveis, que a qualidade de uma decisão sobre assunto tão relevante depende da legitimidade das hipóteses adotadas, da honestidade das previsões e, sobretudo, do rigor da avaliação que se faça de suas conseqüências.

Usando o meu dedo quebrado como argumento e utilizando o bom senso que a idade me deu, defendo com boa convicção que se encontre lugar mais adequado para instalar a tal usina e que se tome o máximo cuidado para garantir que o supermercado não vá piorar ainda mais o trânsito da avenida.

Vitória, 23 de Junho de 2010.

Escrita para A GAZETA

Alvaro Abreu

Cadeirinha

Cadeirinha

Entrou em vigor mais uma lei da modernidade. Por segurança, criança só poderá ser transportada dentro de condições estabelecidas. Daqui pra frente, quem precisar levar criança de um lado para outro tem que ter cadeirinha apropriada, que varia de formato em função da idade do transportado.

Alguém, de muita competência, deve ter intuído e argumentado com todas as próprias convicções que as crianças têm desenvolvimento personalizado e diferenciado. Duas variáveis serão usadas para aferir se o condutor do veículo está infringindo ou não o regulamento nacional: o peso e a idade da criança.

Assim, ao considerar essas duas dimensões, fica garantida uma margem de flexibilização (expressão que está entrando no nosso vocabulário para traduzir o tal jeitinho brasileiro) na aplicação da Lei da Cadeirinha.

Não será nada fácil decidir sobre a emissão de multas e advertências, exceto se o guarda de trânsito dispuser de balança pra pesar os moleques. Isso, sem falar na necessidade das mães carregarem na bolsa, junto com as fraldas descartáveis, a certidão de nascimento da sua prole.

Soube, por uma mãe aflita, que a cadeirinha poderosa que ela trouxe do estrangeiro não atende às exigências burocráticas, o que a deixa inteiramente ilegal ao conduzir a sua filha de poucos meses para passear na casa do avô ou para simples demonstração de boniteza e saúde em supermercados e festas de amiguinhos. É que a bendita cadeirinha não tem selo de qualidade do INMETRO.

Pessoa atirada e cheia de argumentos, ela decidiu correr o risco de sair por aí na mais perfeita ilegalidade, apostando que, ao menos por enquanto, os guardinhas não vão conferir tal quesito. Da minha parte, acho que até vai ter guardinha elogiando aquela cadeirinha americana.

Antes mesmo de sair a tal lei, que obriga o consumidor a comprar o tal produto, eu já estava vendo mães totalmente temerosas em ver a sua cria sendo conduzida no colo de tias e de avós, como sempre se fez. Estava criada mais uma dependência psicológica, a da cadeirinha.

Ri de uma dirigente das coisas do trânsito confessando a fragilidade da legislação quando aplicada ao transporte de crianças em vans, táxis, ônibus, metrôs e coisas assim. Recomendou que, não tendo cadeirinha no carro, não se dê carona para bebês. Ela estava constrangida.

Tive sorte. Não teria sido fácil criar cinco filhos dentro dessa lei. Além de ter que comprar os muitos equipamentos de segurança, teria de arranjar uma Kombi para dar conta. Impossível carregar tantas cadeirinhas numa Belina. Isso, sem falar que a filharada adorava viajar deitada lá na parte de traz, junto com as malas.

Confesso que gosto de ver a cara de felicidade dos meus netos sentados naquelas cadeirinhas. É bem verdade que eles sempre choram na hora de prender o cinto de segurança (ou seria por que não querem ir embora da casa do avô?). Parecem astronautas. Não há coração de mãe que resista.

Os comerciantes poderiam explorar isso nas propagandas, colocando crianças bochechudas em cadeirinhas coloridas, inteiramente afiveladas. Por hora, não estão precisando gastar dinheiro com propaganda. Os rigores da lei vão garantir as vendas por um bom tempo. As cadeirinhas já estão em falta.

Vitória, 10 de Junho de 2010

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Velho Joaquim

Velho Joaquim

Dava gosto vê-lo descascar coco. Com uma foice, batida com firmeza e precisão, ia tirando pequenas lascas da casca verde. Com destreza, depois de cada golpe, ele jogava o coco pra cima, fazendo com que girasse o suficiente para posicioná-lo para receber o próximo.

Joaquim era o nome dele, seu Joaquim. Devia estar beirando os setenta. Era um preto esguio de rosto marcado pelas rugas e palma das mãos quase branca. O olhar era doce quando dirigido a quem chegasse perto, atento quando estava no serviço da descasca e vago quando mirava o mar, onde estivera por muitos anos, no duro trabalho da pesca. Com o avanço da idade, na falta das forças para mover o remo e puxar a corda, ele resolvera vender coco na beira da praia. Um servicinho maneiro, que garantia distração e sustento da casa.

Pioneiro, fixou o negócio na sombra da castanheira, bem diante da avenida que chega do centro da cidade. Lugar de passagem obrigatória, ponto ideal para comércio sem tabuleta de propaganda. A barraca era bem modesta. Na verdade, um pequeno balcão feito de um caixote, com duas prateleiras no interior e um tampo de compensado na parte de cima. Fora pintado de azul claro, mas a nódoa de coco escurecera o que ainda havia da tinta. Seu Joaquim, como se estivesse no seu escritório, usava um banquinho já bem surrado posicionado atrás do balcão. Os cachos de coco, trazidos em carroça, eram empilhados ao lado da barraca para atrair a atenção da freguesia. Sobre o tampo, ele arrumava os cocos já descascados, deixando os menores por baixo. Dizia que tirava a casca para a água ficar mais fresquinha, por ação do sol quente batendo nas fibras brancas e úmidas.

O movimento era pequeno, sobretudo nos dias de semana. Sábado e domingo melhorava bastante, se não chovesse. Seu Joaquim tinha alguns fregueses fiéis e sistemáticos, gente que só comprava coco com ele, como eu. Vendia fiado e fazia desconto para quantidades maiores. Homem de poucas palavras, ele servia pequenas doses de conversa fiada sobre as condições do clima e do mar. Raramente contava uma história. Cerimonioso, tratava as pessoas com muita cordialidade. Indagado, respondia com parcimônia e critério. Fazia pouquíssimas perguntas, tanto que jamais quis saber meu nome, de onde viera e o que fazia em João Pessoa.

Logo que percebeu meu interesse pela foicinha que usava, ofereceu-se para aprontar uma para mim. Lâmina feita de mola de caminhão, a foicinha é ferramenta ideal para o trabalho pesado no corte da cana e no trato dos coqueiros. Habilidoso, ele fez serviço completo: desbastou o aço bruto até que ficasse liso, fez o cabo com galho de goiabeira e amolou o fio para que cortasse cabelos do braço. Talvez por não confiar na minha perícia, ele fez cara de preocupação ao me entregar a foice enrolada em jornal. Satisfeito com o resultado, só aceitou o valor da lâmina bruta que comprara no Mercado Central. Ao tentar partir ao meio um coco vazio com um único golpe, senti que ela estava perfeitamente balanceada, como devem ser as ferramentas.

Saibam que tenho grande estima por minha foicinha paraibana. Mais do que uma ferramenta, eu a tenho como uma espécie de lâmpada mágica. É que, ainda hoje, passados tantos e tantos anos, ao esfregar a sua lâmina para afiar o corte, sempre me aparece a figura do Velho Joaquim.

Alvaro Abreu

Vitória, 26.05.2010.

Escrita para A GAZETA

Let It Be

Let it be

Espero que a tragédia do petróleo rebelde, que está boiando nas águas do Golfo do México antes de chegar sujando as terras baixas da costa sul dos Estados Unidos, também faça o homem pensar mais um pouco na vida e na morte. Vazamento de petróleo é coisa provocada pelo bicho homem. Por erro, incapacidade e gulodice das empresas dos homens.

Um valente vulcão islandês segue em plena atividade, fazendo muita gente esperar que o céu da Europa volte à normalidade. É a natureza que segue se mexendo em busca de equilíbrio, como faz há milênios. Volta e meia um movimento das placas tectônicas provoca uma redução repentina no volume de regiões localizadas nas profundezas da terra. Isto faz aumentar a pressão no seu interior, a ponto de romper o que esteja obstruindo a saída de gases e materiais incandescentes para superfície do planeta. Isso, até que as pressões se equilibrem novamente.

Os últimos acontecimentos na política capixaba produziram petróleo boiando no mar, poeira perigosa nos ares e lava escorrendo morro abaixo. Uma cartada bruta, uma espécie de chega prá lá sem lógica aparente e explicações plausíveis, desmontou um cenário que vinha sendo erguido há meses, cuidadosamente. Aquilo que parecia líquido e certo, transformou-se, por um passe de mágica, em uma realidade quase que improvável. De uma hora para outra, o que se viu foi um salve-se quem puder, dentro da mais perfeita normalidade das terras sem dono.

Os movimentos bruscos produziram cenas constrangedoras, decepções paralisantes, tristezas amargas, desabafos impensáveis e raivas perigosíssimas. A imprensa mostrou políticos atônitos, senhores importantes sem pai nem mãe, lideranças de calça curta, comentaristas sem palavras. Coisas que não se via há muito tempo. É que tudo vinha sendo colocado sob uma redoma opaca, maleável e muito resistente, fazendo crer que a vida seguia tranquilamente em chão firme, em mar de almirante e céu de brigadeiro. Destampado, o ambiente liberou o que estava contido, sob o peso da capa.

Com o cessar dos espantos e das emoções pessoais, as posições vão sendo esclarecidas em conversas de palavras estudadas. As tensões se dissipam e o jogo de forças e interesses vai se restabelecendo, agora pela vontade de um número bem maior de pessoas e de grupos.

A situação me fez lembrar de algo que aprendi com a filosofia: o homem diminui, se apequena, quando acredita em uma verdade que alguém lhe impõe. É que a crença reduz a sua capacidade de discernir sobre o certo e o errado e acaba por restringir a sua liberdade de escolha. Aceitando o que lhe dizem, ele passa a se orientar por valores e, sobretudo, pelos interesses dos donos da verdade. Com Margareth Thatcher, aquela dama de ferro que governou os ingleses por mais de uma década, aprendi que é impossível manter o controle sobre tudo.

Independente das composições políticas que venham a se estabelecer e até mesmo dos resultados das urnas em Outubro, eu prefiro que os homens do meu lugar se sintam livres para decidir com autonomia, sempre movidos por suas próprias convicções, sejam elas quais forem.

Tudo isso, 40 anos depois que aprendemos a cantar Let it be.

Alvaro Abreu

Vitória, 12.05.2010

Escrita para A GAZETA

Eyjafjallajokull

EYJAFJALLAJOKULL

A pressa e a prontidão são marcas dos dias atuais. A mídia apregoa que a comunicação torna o mundo sem fronteiras e coisa e tal. Isso, sempre que os deuses assim o permitirem. Um valente vulcão islandês e os temporais brasileiros do ano passado deixaram isso bem claro.

Uma única erupção vulcânica em posição inconveniente colocou em xeque a pressa, os compromissos, a lógica do mundo moderno. O fato dos aeroportos terem permanecido fechados por vários dias fez muita gente recorrer a taxi, alugar carro, pegar ônibus ou tentar ir de trem para chegar ao seu destino. Atrasado. Muitos devem ter parado para refletir e teve gente que tirou proveito da situação.

Mamãe se lembrou das viagens de trem entre Cachoeiro e o Rio de Janeiro, a melhor opção antes dos anos 50. Ela conta que vovó Neném fez uma viagem dessas para ir tirar uma espinha de peixe da garganta. Nem imagino o incômodo agravado pelos solavancos do vagão.

Embarcava-se às 4 da tarde e chegava-se ao Rio 16 horas depois. O tempo de viagem era igual para ricos e pobres. Para estudantes, políticos ou fazendeiros, para quem viajasse de férias ou a serviço. É bem verdade que existia a possibilidade de dormir durante um bom trecho da viagem, a partir de Campos. Isto, para quem conseguisse vaga no carro leito e pudesse pagar por um beliche com direito a roupa de cama em puro linho inglês. A longa duração da viagem permitia pensar no encontro político, escrever discursos, estudar para prova, imaginar passeios. Na volta pra casa, no começo das férias, os pensamentos ficavam por conta da retomada do namoro, do encontro com os amigos, do baile nos Caçadores.

Vista com olhar distraído, a paisagem que corria pela janela mostrava a transição entre dois mundos bem diferentes. Pisava-se a plataforma da cidade maravilhosa com esperança de encontrar melhores oportunidades de trabalho, estudos e diversão. Partia-se de Cachoeiro sabendo-se que haveria viagem de volta, para retomar a vida no ponto exato em que fora suspensa na estação da Leopoldina.

De minha parte, lembrei-me do nosso vizinho de muro que levou a família inteira para passear na Argentina, numa Kombi 1967. Foram e voltaram montando barraca. Talvez inspirado nessa aventura foi que, na condição de pai de cinco filhos e casado com mulher animada e corajosa, resolvi comprar um ônibus para podermos viajar para qualquer destino, sem depender de hotéis e aviões.

Transformado em trailler mambembe, com poltrona para 16 passageiros, cama para 12, toilet a bordo, duas mesas, cozinha e até poleiro para a arara, ele rodou quase 30 mil quilômetros no asfalto e nas estradas de barro do planalto central, do sertão baiano, das terras mineiras, das praias do nordeste. Sem a menor pressa. Era muito bom acordar com barulho do mar, sino da igrejinha ou mugido das vacas de um fazendeiro conhecido. O toldo armado na lateral daquele ônibus branco garantia a sensação de se estar sentado na varanda, diante da paisagem escolhida. Nos postos de gasolina, era comum perguntarem se era “ônibus de conjunto”.

Na contramão de aborrecimentos e frustrações, um amigo aproveitou o caos aéreo mundial para brincar por mais uma semana inteira com os netos que não puderam voltar para Londres. Disse que até passou a gostar de vulcões. Especialmente do distante Eyjafjallajokull.

Alvaro Abreu

Vitória, 28.04.2010

Crônica escrita para A GAZETA

Ressaca

RESSACA

Quando cheguei perto, vi que o pescador havia desistido de tentar pegar alguma coisa naquele mar ressacado. Ondas enormes, empurradas pelo vento sul, vinham da boca da barra em direção ao lajão de pedra que se estendia ali embaixo. Depois de quebrar na beira da pedra, as águas barrentas misturadas com espuma lambiam toda a extensão da laje até atingir o paredão, onde estávamos.

Resignado, ele já estava começando a guardar os apetrechos. Duas enormes varas de bambu, provavelmente feitas por ele mesmo, dois molinetes azul marinho, cabrestos feitos com fio de aço para resistir aos dentes de baiacu, uns poucos pedaços de cação que usara como isca, cordinhas para prender as varas nos baluartes da mureta, uma faca já bem gasta e uma sacola de supermercado vazia, expressão da esperança de voltar para casa com peixe.

Conheço bem essa rotina. Cada coisa deve ser guardada de modo a facilitar o uso na pescaria seguinte. Nada pior do que enfrentar a desordem na hora de começar a pescar. O prazer do primeiro arremesso não pode ser retardado pela bagunça.

Sempre gostei de pescar. Ainda menino, aprendi com um grande amigo de meu pai, lá em Marataízes, a preparar as minhas varas de bambu e a fazer empate de todo tipo. Ele me ensinou os segredos de dar nó em linha de nylon e a cuidar do meu material de pesca.

Nas vésperas de pescaria era comum encontrá-lo sentado na mesa da sala preparando o que iria usar na manhã seguinte. Lubrificava as carretilhas, inspecionava a linha, encastoava anzóis e garatéias, afiava o bicheiro e arrumava a cesta de vime que carregaria dependurada nas varas, praia a fora. A isca, olhudas fresquinhas, ele cataria nas sobras do arrastão.

Os movimentos daquele pescador solitário atestavam a sua intimidade com o que fazia. Não havia pressa, nem nervosismo. Pacientemente, olhando o mar de relance, ele desmontou as varas e amarrou os quatro pedaços com uma tira de borracha de câmara de ar. Prendeu tudo na lateral da bicicleta, bem junto ao quadro, para não atrapalhar a pedalada.

Os cabrestos foram dobrados da mesma forma como aprendi: anzóis engastados na argola da chumbada e os empates enrolados com o pedaço de arame que prende na linha. Terminado o serviço, ele enfiou os dois no saquinho de leite, que é lugar ideal para guardar cabresto. Embrulhou a faca com a toalha de prato de limpar os dedos e guardou a isca em uma caixinha de isopor, dessas de sorvete. Colocou cada molinete em um saco feito de perna de calça jeans, amarrado pela boca. Enrolou as cordinhas. Guardou tudo em uma mochila preta, surrada pelo uso, que vestiu com boa destreza. Mais uma vez, estava pronto para começar a volta pra casa.

Ele fora gentil ao comentar a situação do mar, mas foi reticente quando falei que a ressaca havia começado no início da semana e que estava castigando o nosso litoral inteiro. Pescador experiente, por certo ele sabia perfeitamente das suas inconveniências. Mas, como homem que gosta de estar diante do mar, pensando na vida, ele não deve ter resistido à vontade soberana de pescar naquela a manhã fria de domingo. Se bem conheço esse tipo de gente, ao trepar na bicicleta, ele já tinha decidido que iria aproveitar o resto da isca para pescar no dia seguinte, feriado de Nossa Senhora da Penha. Com ressaca, vento sul e tudo o mais.

Alvaro Abreu

Vitória, 14 de Abril de 2010

Escrita para A GAZETA