Eyjafjallajokull

EYJAFJALLAJOKULL

A pressa e a prontidão são marcas dos dias atuais. A mídia apregoa que a comunicação torna o mundo sem fronteiras e coisa e tal. Isso, sempre que os deuses assim o permitirem. Um valente vulcão islandês e os temporais brasileiros do ano passado deixaram isso bem claro.

Uma única erupção vulcânica em posição inconveniente colocou em xeque a pressa, os compromissos, a lógica do mundo moderno. O fato dos aeroportos terem permanecido fechados por vários dias fez muita gente recorrer a taxi, alugar carro, pegar ônibus ou tentar ir de trem para chegar ao seu destino. Atrasado. Muitos devem ter parado para refletir e teve gente que tirou proveito da situação.

Mamãe se lembrou das viagens de trem entre Cachoeiro e o Rio de Janeiro, a melhor opção antes dos anos 50. Ela conta que vovó Neném fez uma viagem dessas para ir tirar uma espinha de peixe da garganta. Nem imagino o incômodo agravado pelos solavancos do vagão.

Embarcava-se às 4 da tarde e chegava-se ao Rio 16 horas depois. O tempo de viagem era igual para ricos e pobres. Para estudantes, políticos ou fazendeiros, para quem viajasse de férias ou a serviço. É bem verdade que existia a possibilidade de dormir durante um bom trecho da viagem, a partir de Campos. Isto, para quem conseguisse vaga no carro leito e pudesse pagar por um beliche com direito a roupa de cama em puro linho inglês. A longa duração da viagem permitia pensar no encontro político, escrever discursos, estudar para prova, imaginar passeios. Na volta pra casa, no começo das férias, os pensamentos ficavam por conta da retomada do namoro, do encontro com os amigos, do baile nos Caçadores.

Vista com olhar distraído, a paisagem que corria pela janela mostrava a transição entre dois mundos bem diferentes. Pisava-se a plataforma da cidade maravilhosa com esperança de encontrar melhores oportunidades de trabalho, estudos e diversão. Partia-se de Cachoeiro sabendo-se que haveria viagem de volta, para retomar a vida no ponto exato em que fora suspensa na estação da Leopoldina.

De minha parte, lembrei-me do nosso vizinho de muro que levou a família inteira para passear na Argentina, numa Kombi 1967. Foram e voltaram montando barraca. Talvez inspirado nessa aventura foi que, na condição de pai de cinco filhos e casado com mulher animada e corajosa, resolvi comprar um ônibus para podermos viajar para qualquer destino, sem depender de hotéis e aviões.

Transformado em trailler mambembe, com poltrona para 16 passageiros, cama para 12, toilet a bordo, duas mesas, cozinha e até poleiro para a arara, ele rodou quase 30 mil quilômetros no asfalto e nas estradas de barro do planalto central, do sertão baiano, das terras mineiras, das praias do nordeste. Sem a menor pressa. Era muito bom acordar com barulho do mar, sino da igrejinha ou mugido das vacas de um fazendeiro conhecido. O toldo armado na lateral daquele ônibus branco garantia a sensação de se estar sentado na varanda, diante da paisagem escolhida. Nos postos de gasolina, era comum perguntarem se era “ônibus de conjunto”.

Na contramão de aborrecimentos e frustrações, um amigo aproveitou o caos aéreo mundial para brincar por mais uma semana inteira com os netos que não puderam voltar para Londres. Disse que até passou a gostar de vulcões. Especialmente do distante Eyjafjallajokull.

Alvaro Abreu

Vitória, 28.04.2010

Crônica escrita para A GAZETA

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