Let it be
Espero que a tragédia do petróleo rebelde, que está boiando nas águas do Golfo do México antes de chegar sujando as terras baixas da costa sul dos Estados Unidos, também faça o homem pensar mais um pouco na vida e na morte. Vazamento de petróleo é coisa provocada pelo bicho homem. Por erro, incapacidade e gulodice das empresas dos homens.
Um valente vulcão islandês segue em plena atividade, fazendo muita gente esperar que o céu da Europa volte à normalidade. É a natureza que segue se mexendo em busca de equilíbrio, como faz há milênios. Volta e meia um movimento das placas tectônicas provoca uma redução repentina no volume de regiões localizadas nas profundezas da terra. Isto faz aumentar a pressão no seu interior, a ponto de romper o que esteja obstruindo a saída de gases e materiais incandescentes para superfície do planeta. Isso, até que as pressões se equilibrem novamente.
Os últimos acontecimentos na política capixaba produziram petróleo boiando no mar, poeira perigosa nos ares e lava escorrendo morro abaixo. Uma cartada bruta, uma espécie de chega prá lá sem lógica aparente e explicações plausíveis, desmontou um cenário que vinha sendo erguido há meses, cuidadosamente. Aquilo que parecia líquido e certo, transformou-se, por um passe de mágica, em uma realidade quase que improvável. De uma hora para outra, o que se viu foi um salve-se quem puder, dentro da mais perfeita normalidade das terras sem dono.
Os movimentos bruscos produziram cenas constrangedoras, decepções paralisantes, tristezas amargas, desabafos impensáveis e raivas perigosíssimas. A imprensa mostrou políticos atônitos, senhores importantes sem pai nem mãe, lideranças de calça curta, comentaristas sem palavras. Coisas que não se via há muito tempo. É que tudo vinha sendo colocado sob uma redoma opaca, maleável e muito resistente, fazendo crer que a vida seguia tranquilamente em chão firme, em mar de almirante e céu de brigadeiro. Destampado, o ambiente liberou o que estava contido, sob o peso da capa.
Com o cessar dos espantos e das emoções pessoais, as posições vão sendo esclarecidas em conversas de palavras estudadas. As tensões se dissipam e o jogo de forças e interesses vai se restabelecendo, agora pela vontade de um número bem maior de pessoas e de grupos.
A situação me fez lembrar de algo que aprendi com a filosofia: o homem diminui, se apequena, quando acredita em uma verdade que alguém lhe impõe. É que a crença reduz a sua capacidade de discernir sobre o certo e o errado e acaba por restringir a sua liberdade de escolha. Aceitando o que lhe dizem, ele passa a se orientar por valores e, sobretudo, pelos interesses dos donos da verdade. Com Margareth Thatcher, aquela dama de ferro que governou os ingleses por mais de uma década, aprendi que é impossível manter o controle sobre tudo.
Independente das composições políticas que venham a se estabelecer e até mesmo dos resultados das urnas em Outubro, eu prefiro que os homens do meu lugar se sintam livres para decidir com autonomia, sempre movidos por suas próprias convicções, sejam elas quais forem.
Tudo isso, 40 anos depois que aprendemos a cantar Let it be.
Alvaro Abreu
Vitória, 12.05.2010
Escrita para A GAZETA
