Velho Joaquim

Velho Joaquim

Dava gosto vê-lo descascar coco. Com uma foice, batida com firmeza e precisão, ia tirando pequenas lascas da casca verde. Com destreza, depois de cada golpe, ele jogava o coco pra cima, fazendo com que girasse o suficiente para posicioná-lo para receber o próximo.

Joaquim era o nome dele, seu Joaquim. Devia estar beirando os setenta. Era um preto esguio de rosto marcado pelas rugas e palma das mãos quase branca. O olhar era doce quando dirigido a quem chegasse perto, atento quando estava no serviço da descasca e vago quando mirava o mar, onde estivera por muitos anos, no duro trabalho da pesca. Com o avanço da idade, na falta das forças para mover o remo e puxar a corda, ele resolvera vender coco na beira da praia. Um servicinho maneiro, que garantia distração e sustento da casa.

Pioneiro, fixou o negócio na sombra da castanheira, bem diante da avenida que chega do centro da cidade. Lugar de passagem obrigatória, ponto ideal para comércio sem tabuleta de propaganda. A barraca era bem modesta. Na verdade, um pequeno balcão feito de um caixote, com duas prateleiras no interior e um tampo de compensado na parte de cima. Fora pintado de azul claro, mas a nódoa de coco escurecera o que ainda havia da tinta. Seu Joaquim, como se estivesse no seu escritório, usava um banquinho já bem surrado posicionado atrás do balcão. Os cachos de coco, trazidos em carroça, eram empilhados ao lado da barraca para atrair a atenção da freguesia. Sobre o tampo, ele arrumava os cocos já descascados, deixando os menores por baixo. Dizia que tirava a casca para a água ficar mais fresquinha, por ação do sol quente batendo nas fibras brancas e úmidas.

O movimento era pequeno, sobretudo nos dias de semana. Sábado e domingo melhorava bastante, se não chovesse. Seu Joaquim tinha alguns fregueses fiéis e sistemáticos, gente que só comprava coco com ele, como eu. Vendia fiado e fazia desconto para quantidades maiores. Homem de poucas palavras, ele servia pequenas doses de conversa fiada sobre as condições do clima e do mar. Raramente contava uma história. Cerimonioso, tratava as pessoas com muita cordialidade. Indagado, respondia com parcimônia e critério. Fazia pouquíssimas perguntas, tanto que jamais quis saber meu nome, de onde viera e o que fazia em João Pessoa.

Logo que percebeu meu interesse pela foicinha que usava, ofereceu-se para aprontar uma para mim. Lâmina feita de mola de caminhão, a foicinha é ferramenta ideal para o trabalho pesado no corte da cana e no trato dos coqueiros. Habilidoso, ele fez serviço completo: desbastou o aço bruto até que ficasse liso, fez o cabo com galho de goiabeira e amolou o fio para que cortasse cabelos do braço. Talvez por não confiar na minha perícia, ele fez cara de preocupação ao me entregar a foice enrolada em jornal. Satisfeito com o resultado, só aceitou o valor da lâmina bruta que comprara no Mercado Central. Ao tentar partir ao meio um coco vazio com um único golpe, senti que ela estava perfeitamente balanceada, como devem ser as ferramentas.

Saibam que tenho grande estima por minha foicinha paraibana. Mais do que uma ferramenta, eu a tenho como uma espécie de lâmpada mágica. É que, ainda hoje, passados tantos e tantos anos, ao esfregar a sua lâmina para afiar o corte, sempre me aparece a figura do Velho Joaquim.

Alvaro Abreu

Vitória, 26.05.2010.

Escrita para A GAZETA

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