Ressaca

RESSACA

Quando cheguei perto, vi que o pescador havia desistido de tentar pegar alguma coisa naquele mar ressacado. Ondas enormes, empurradas pelo vento sul, vinham da boca da barra em direção ao lajão de pedra que se estendia ali embaixo. Depois de quebrar na beira da pedra, as águas barrentas misturadas com espuma lambiam toda a extensão da laje até atingir o paredão, onde estávamos.

Resignado, ele já estava começando a guardar os apetrechos. Duas enormes varas de bambu, provavelmente feitas por ele mesmo, dois molinetes azul marinho, cabrestos feitos com fio de aço para resistir aos dentes de baiacu, uns poucos pedaços de cação que usara como isca, cordinhas para prender as varas nos baluartes da mureta, uma faca já bem gasta e uma sacola de supermercado vazia, expressão da esperança de voltar para casa com peixe.

Conheço bem essa rotina. Cada coisa deve ser guardada de modo a facilitar o uso na pescaria seguinte. Nada pior do que enfrentar a desordem na hora de começar a pescar. O prazer do primeiro arremesso não pode ser retardado pela bagunça.

Sempre gostei de pescar. Ainda menino, aprendi com um grande amigo de meu pai, lá em Marataízes, a preparar as minhas varas de bambu e a fazer empate de todo tipo. Ele me ensinou os segredos de dar nó em linha de nylon e a cuidar do meu material de pesca.

Nas vésperas de pescaria era comum encontrá-lo sentado na mesa da sala preparando o que iria usar na manhã seguinte. Lubrificava as carretilhas, inspecionava a linha, encastoava anzóis e garatéias, afiava o bicheiro e arrumava a cesta de vime que carregaria dependurada nas varas, praia a fora. A isca, olhudas fresquinhas, ele cataria nas sobras do arrastão.

Os movimentos daquele pescador solitário atestavam a sua intimidade com o que fazia. Não havia pressa, nem nervosismo. Pacientemente, olhando o mar de relance, ele desmontou as varas e amarrou os quatro pedaços com uma tira de borracha de câmara de ar. Prendeu tudo na lateral da bicicleta, bem junto ao quadro, para não atrapalhar a pedalada.

Os cabrestos foram dobrados da mesma forma como aprendi: anzóis engastados na argola da chumbada e os empates enrolados com o pedaço de arame que prende na linha. Terminado o serviço, ele enfiou os dois no saquinho de leite, que é lugar ideal para guardar cabresto. Embrulhou a faca com a toalha de prato de limpar os dedos e guardou a isca em uma caixinha de isopor, dessas de sorvete. Colocou cada molinete em um saco feito de perna de calça jeans, amarrado pela boca. Enrolou as cordinhas. Guardou tudo em uma mochila preta, surrada pelo uso, que vestiu com boa destreza. Mais uma vez, estava pronto para começar a volta pra casa.

Ele fora gentil ao comentar a situação do mar, mas foi reticente quando falei que a ressaca havia começado no início da semana e que estava castigando o nosso litoral inteiro. Pescador experiente, por certo ele sabia perfeitamente das suas inconveniências. Mas, como homem que gosta de estar diante do mar, pensando na vida, ele não deve ter resistido à vontade soberana de pescar naquela a manhã fria de domingo. Se bem conheço esse tipo de gente, ao trepar na bicicleta, ele já tinha decidido que iria aproveitar o resto da isca para pescar no dia seguinte, feriado de Nossa Senhora da Penha. Com ressaca, vento sul e tudo o mais.

Alvaro Abreu

Vitória, 14 de Abril de 2010

Escrita para A GAZETA

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