Estilingue

ESTILINGUE

Ando meio aflito com os edifícios enormes que estão brotando nas ruas estreitas da Enseada do Suá. De olho grande no petróleo, eles encerram o reinado soberano do Palácio do Café, o primeiro a ocupar aquele espaço, em busca de um destaque que o centro da cidade já não oferecia mais.

A Praça do Cauê, um dos últimos redutos de resistência cidadã, está ilhada por um fluxo intenso de veículos. Acabou-se o sossego que os habitantes daquela área conseguiram garantir por décadas. Algum morador de boa influência deve ter fincado pé e armado trincheira, com apoio dos vizinhos acostumados a viver em lugar silencioso. Por um bom tempo o progresso teve que dar a volta, mas é bem provável que eles nunca mais se livrem dos males dos carros passando na porta.

A Avenida Rio Branco capitulou faz pouco tempo, logo depois da inauguração da ponte Ayrton Senna. Hoje, ela engarrafa por qualquer motivo banal, abarrotando o miolo do bairro nobre. A Avenida Dante Michellini, trecho de uma estrada urbana que atravessa o nosso aterro do flamengo, precisou ser ampliada para dar conta do fluxo crescente de gente que precisa transitar entre Serra e Vila Velha e de quem venha de mais longe, pela Rodovia do Sol.

O projeto Novo Arrabalde, que riscou no papel o traçado urbano da Praia do Canto até Bento Ferreira, incluindo Santa Lúcia, Santa Helena e Praia do Suá, em terra firme e mangue adentro, foi idealizado por Saturnino de Brito, engenheiro sanitarista de visão abrangente e generosa, em 1896.

Saturnino acreditava que a distância ajudaria a evitar o contágio de doenças entre moradores e achou prudente projetar terrenos grandes em ruas e avenidas bem largas, num traçado que valorizasse os morros da ilha e, de quebra, o que havia de mais vistoso do outro lado do canal. A Pedra dos Dois Olhos pode ser admirada da Rua das Palmeiras e o Morro do Cruzeiro está no final de seis ruas, cinco delas bem curtas. A Avenida Leitão da Silva mostra o Mestre Alvaro e a Reta da Penha garante a visão do Convento.

Na virada do século, contavam-se nos dedos as carroças, carruagens e fubicas que circulavam pela cidade. A tranqüilidade das ruas vazias durou até bem pouco tempo, quando passamos a conviver com o trânsito lento e engarrafamentos diários, que só tendem a piorar com os impactos dos sucessivos lançamentos de novos prédios e da democratização do automóvel. Andaram vendendo o charme da antiga Praia do Canto e o bucolismo do Barro Vermelho, mas vão entregar moradias e escritórios com vista para a cozinha do vizinho. Sem vaga para os carros de visitas, funcionários e clientes.

Noite dessas sonhei que o Novo Arrabalde se estendia pela Ponta do Tubarão até Praia Mole, fazendo cumprir a sua vocação natural de área de expansão de Vitória, em direção às praias do norte. Acordei no meio da madrugada e ouvi o ronco grave dos motores das usinas e das correias que transportam minério.

Saturnino de Brito virou nome de avenida à beira mar, sombreada por sessenta e duas castanheiras, algumas das quais foram transplantadas na calçada do Iate Clube, inclusive aquela de tronco em forquilha que Nenna B usou para fazer um grande estilingue humano, como se adivinhasse o futuro.

Parece que aprendemos muito pouco com Saturnino de Brito e com a tragédia urbana do Centro da Cidade.

Alvaro Abreu

Vitória, 30.03.2010.

Escrita para A GAZETA

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