Bom senso e incensatez

Bom senso e insensatez

Estava preparado para reclamar da falta de racionalidade no planejamento e no gerenciamento das obras que estão sendo feitas na Avenida Vitória, uma das três artérias que ligam o norte ao sul da ilha. Minha cabeça de engenheiro de produção não aceita a estratégia, adotada pela Prefeitura, de interditar uma das pistas de cada sentido da via e só começar a fazer tudo o que tiver que ser feito depois de esburacá-las de fora a fora. Imagino que já deve ter comerciante querendo esganar fiscal municipal, motorista querendo atropelar guardinha de trânsito e que, satisfeitos com a buraqueira, só mesmo os mosquitos. É bem provável que já já apareça autoridade culpando o coronavírus pelo atraso das obras.

Pois é, mas os tempos são de começo de pandemia, com previsões graves e meio que assustadoras. Isso me faz lembrar que, em momentos de crise, sempre surgem pessoas que marcam presença positiva e vão ganhando a admiração e o respeito de quase todos. Pelo que vejo, essa é a condição que vai assumindo o Ministro da Saúde. Já ficou patente o preparo, a seriedade e a convicção que ele tem para orientar o enfrentamento da epidemia e, também, para conviver com a personalidade e o comportamento do seu chefe.

Como se sabe, no domingo passado, o presidente ultrapassou limites do bom senso de modo tão contundente que deve ter deixado muitos de seus seguidores, sobretudo os da área de saúde, em situação totalmente desconfortável. Fico imaginando a inveja que ele possa estar sentindo do sucesso do ministro Mandetta, depois das consequências negativas por ter saído por aí dando uma de macho popular e doidão do outro lado da cerca. Torço para que não aconteça mais nenhuma pernada presidencial. Seria desastroso.

Bem sei que a crise está somente começando e que os cuidados individuais e coletivos hão de ser amplos e obrigatórios. Com 72 anos, cardiopata e ainda convalescente, estou na turma de maior risco. De bom, ganho dengos da mulher e convictas demonstrações de carinho dos filhos, incluindo broncas homéricas por telefone e favores providenciais como as compras de supermercado.

Vitória, 19 de março de 2010

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *