Carros
O ar condicionado do meu carro pifou. Na verdade, ele está fazendo birra. Tem hora que liga, mas tem dia que ando os quilômetros todos com ele sem funcionar.
O dono da oficina atribuiu o defeito a uma peça que aciona o compressor, mas só depois de garantir o funcionamento do motor, aferir o sistema de freios, conferir a pressão do óleo, verificar o nível de combustível, acionar as travas das portas, medir a temperatura externa, e por aí a fora. Um avanço tecnológico expresso em um sem fim de mecanismos, circuitos e sensores comandados por um computador de bordo. Uma maravilha a serviço da segurança e do conforto dos usuários, quando funciona.
Mas o fato é que o danado do ar condicionado não está ligando na hora em que estou precisando dele para escapar do calor infernal que anda fazendo neste mês de março. E o pior, as oficinas especializadas estão lotadas.
Os carros de antigamente não tinham ar condicionado. Todos nós, motoristas e passageiros, andávamos com as janelas abertas. Para regular a fresca e a direção do vento, ajustava-se a posição do quebra-vento, recurso disponível em todos os modelos, fossem eles de passeio, esportivos ou utilitários.
O Galaxie era o melhor automóvel para passear. Macio, silencioso e elegante. Aurora Gorda, a dama da noite, comprou o primeiro que chegou a Vitória. O Simca Chambord era ágil e durinho, bem superior ao Aero Willys, que fervia o motor. O Dolphini e o Gordini eram apertados, precários e quebráveis. O máximo em matéria de carro esporte era um Mustang vermelho, de um exportador de café. A Variante de dois carburadores rateava no caminho da pescaria, mas sempre chegava. Bastava esvaziar os pneus para enfrentar os areais.
As camionetes eram usadas por fazendeiros, caçadores e gente que precisava carregar coisas pesadas. A Kombi era a única opção para transportar muita gente e só a Rural tinha tração nas 4 rodas. O jipe Candango era fácil de consertar. Difícil era ver mulher dirigindo camionete.
Mamãe ganhou um fusca 1963 de um irmão, para que pudéssemos levá-la no centro da cidade, onde passou a trabalhar depois da morte de papai. Fora do horário de expediente ele transportava os Mamíferos e bichos associados. Carmélia não me deixaria mentir. A gasolina era barata, mas a cotinha era obrigatória. Tinha-se o carro, mas faltava o dinheiro do combustível, inclusive para as idas noturnas a Guarapari. A chapa dele era 6 37 00 e todos sabiam disso.
Eu também comprei o meu Corcel 73, novinho. Custou-me quatro salários de professor. Não sei se era barato ou se eu ganhava muito bem. Antes de chegar ao Picasso que uso, consumi um outro Corcel, dois Passats, um Gol BX, duas Belinas, uma Caravan, além das duas Quantuns. Todos foram tirados de linha.
Hoje a oferta é estonteante. Além de dezenas de modelos bem parecidos, as fábricas resolveram produzir carros para os chamados nichos de mercado. Nas ruas da cidade, cada vez mais engarrafadas, vejo modelos feitos especialmente para pessoas que se acham poderosas, se pretendem aventureiras, para donos de fortunas recentes e mulheres que ficaram louras há pouco tempo. Outro dia vi passar um carro enorme, dotado de uma espécie de dentadura em aço inoxidável, de meter medo. Não deu pra ver o motorista.
Alvaro Abreu
Vitória, 17 de Março de 2010.
Escrita para A GAZETA
