Assustado
Tenho andado meio assustado com as mudanças que estão acontecendo em Vitória, que conheço desde 1958, quando meu pai veio trabalhar aqui, trazendo família numerosa, pensando que voltaria em breve para Cachoeiro. Na época, o fluxo migratório era na direção do Rio de Janeiro, para onde os mais dispostos iam em busca de oportunidades de estudo e trabalho. Talvez nossa família tenha sido uma das pioneiras nesse movimento..
Vitória era um lugar pacato, bucólico, tranqüilo e muito simpático. Ruas vazias, pessoas conhecidas, portas abertas. Lembro-me de ter ficado impressionado com os prédios de dois andares da Avenida Cesar Hilal, recém construídos. Praias com pouca gente, clubes e pouquíssimos bares e restaurantes. Dois ou três, no máximo. Ouvia-se falar de um cassino lá pelas bandas de Campo Grande e de uma boate no Clube Vitória, no Parque Moscoso. Eram poucos os cursos universitários, direito, odontologia, engenharia e olhe lá. O minério de ferro escoava pelo cais do Pela-Macaco e a região da beira do canal começava a ser aterrada. Que eu me lembre, chaminé, só mesmo a da torrefadora de café na Avenida Vitória.
As compras da casa eram feitas em um armazém na Jerônimo Monteiro, encomendadas pelo telefone, que só precisava de quatro números para funcionar. 7261 era o nosso, 7314, o dos Larica. Havia quem soubesse a placa do carro e o telefone de quase todo mundo.
Quando voltei para Vitoria em 1987, também trazendo família numerosa, a sensação era a de estar voltando pra casa, para um lugar onde conhecia muita gente, onde saberia encontrar mecânico habilidoso, peça para geladeira, anzol de todo tipo e até fábrica de picolé.
Confesso que não estou conseguindo acompanhar as mudanças que ocorrem diariamente. Toda semana tem lançamento de prédio e inauguração de restaurante trazido de longe, de casas de diversão e de revendedora de carros caríssimos. Jornais alardeiam oferta de empregos e oportunidades petrolíferas, siderúrgicas e portuárias. Pipocam as ofertas, assanham-se as expectativas de sucesso pessoal e empresarial.
Cresce a oferta de cursos para quem precise se preparar para conseguir emprego e salário melhor. As prestações do consumo pressionam por mais dinheiro. Os restaurantes estão lotados de pessoas falantes, sem tempo pra comer. Isso sem falar na expansão vertiginosa do tráfico de drogas, nos crimes por disputa banal ou por cobrança de dívida e nos assaltos em busca de dinheiro fácil.
Faltam vagas. Já não se sabe onde estacionar o carro novo. Soube que o esquema multa e reboca voltará a funcionar em breve e com apetite redobrado do poder público e dos donos de guincho. A indústria da multa, fundada em normas politicamente corretas, sustenta muita gente.
Dia desses, recebi de um amigo que vive em Madri um estudo sobre o futuro de Curitiba. Dá gosto de ver. Um grupo enorme de pessoas foi instigado a dizer o que deveria ser feito e o que não poderia acontecer na cidade. Mais de noventa páginas registram os resultados do esforço generoso em favor de um lugar melhor para se viver. Algo semelhante foi feito aqui em Vitória na virada do século. Acho que já passou da hora de sentarmos novamente para escolhermos o futuro.
Confesso a minha aflição. Sinto-me passageiro de um trem desgovernado.
Alvaro Abreu
Vitória, 21 de Julho de 2010
Escrita para A GAZETA
