Estilingue

ESTILINGUE

Ando meio aflito com os edifícios enormes que estão brotando nas ruas estreitas da Enseada do Suá. De olho grande no petróleo, eles encerram o reinado soberano do Palácio do Café, o primeiro a ocupar aquele espaço, em busca de um destaque que o centro da cidade já não oferecia mais.

A Praça do Cauê, um dos últimos redutos de resistência cidadã, está ilhada por um fluxo intenso de veículos. Acabou-se o sossego que os habitantes daquela área conseguiram garantir por décadas. Algum morador de boa influência deve ter fincado pé e armado trincheira, com apoio dos vizinhos acostumados a viver em lugar silencioso. Por um bom tempo o progresso teve que dar a volta, mas é bem provável que eles nunca mais se livrem dos males dos carros passando na porta.

A Avenida Rio Branco capitulou faz pouco tempo, logo depois da inauguração da ponte Ayrton Senna. Hoje, ela engarrafa por qualquer motivo banal, abarrotando o miolo do bairro nobre. A Avenida Dante Michellini, trecho de uma estrada urbana que atravessa o nosso aterro do flamengo, precisou ser ampliada para dar conta do fluxo crescente de gente que precisa transitar entre Serra e Vila Velha e de quem venha de mais longe, pela Rodovia do Sol.

O projeto Novo Arrabalde, que riscou no papel o traçado urbano da Praia do Canto até Bento Ferreira, incluindo Santa Lúcia, Santa Helena e Praia do Suá, em terra firme e mangue adentro, foi idealizado por Saturnino de Brito, engenheiro sanitarista de visão abrangente e generosa, em 1896.

Saturnino acreditava que a distância ajudaria a evitar o contágio de doenças entre moradores e achou prudente projetar terrenos grandes em ruas e avenidas bem largas, num traçado que valorizasse os morros da ilha e, de quebra, o que havia de mais vistoso do outro lado do canal. A Pedra dos Dois Olhos pode ser admirada da Rua das Palmeiras e o Morro do Cruzeiro está no final de seis ruas, cinco delas bem curtas. A Avenida Leitão da Silva mostra o Mestre Alvaro e a Reta da Penha garante a visão do Convento.

Na virada do século, contavam-se nos dedos as carroças, carruagens e fubicas que circulavam pela cidade. A tranqüilidade das ruas vazias durou até bem pouco tempo, quando passamos a conviver com o trânsito lento e engarrafamentos diários, que só tendem a piorar com os impactos dos sucessivos lançamentos de novos prédios e da democratização do automóvel. Andaram vendendo o charme da antiga Praia do Canto e o bucolismo do Barro Vermelho, mas vão entregar moradias e escritórios com vista para a cozinha do vizinho. Sem vaga para os carros de visitas, funcionários e clientes.

Noite dessas sonhei que o Novo Arrabalde se estendia pela Ponta do Tubarão até Praia Mole, fazendo cumprir a sua vocação natural de área de expansão de Vitória, em direção às praias do norte. Acordei no meio da madrugada e ouvi o ronco grave dos motores das usinas e das correias que transportam minério.

Saturnino de Brito virou nome de avenida à beira mar, sombreada por sessenta e duas castanheiras, algumas das quais foram transplantadas na calçada do Iate Clube, inclusive aquela de tronco em forquilha que Nenna B usou para fazer um grande estilingue humano, como se adivinhasse o futuro.

Parece que aprendemos muito pouco com Saturnino de Brito e com a tragédia urbana do Centro da Cidade.

Alvaro Abreu

Vitória, 30.03.2010.

Escrita para A GAZETA

Bom senso e incensatez

Bom senso e insensatez

Estava preparado para reclamar da falta de racionalidade no planejamento e no gerenciamento das obras que estão sendo feitas na Avenida Vitória, uma das três artérias que ligam o norte ao sul da ilha. Minha cabeça de engenheiro de produção não aceita a estratégia, adotada pela Prefeitura, de interditar uma das pistas de cada sentido da via e só começar a fazer tudo o que tiver que ser feito depois de esburacá-las de fora a fora. Imagino que já deve ter comerciante querendo esganar fiscal municipal, motorista querendo atropelar guardinha de trânsito e que, satisfeitos com a buraqueira, só mesmo os mosquitos. É bem provável que já já apareça autoridade culpando o coronavírus pelo atraso das obras.

Pois é, mas os tempos são de começo de pandemia, com previsões graves e meio que assustadoras. Isso me faz lembrar que, em momentos de crise, sempre surgem pessoas que marcam presença positiva e vão ganhando a admiração e o respeito de quase todos. Pelo que vejo, essa é a condição que vai assumindo o Ministro da Saúde. Já ficou patente o preparo, a seriedade e a convicção que ele tem para orientar o enfrentamento da epidemia e, também, para conviver com a personalidade e o comportamento do seu chefe.

Como se sabe, no domingo passado, o presidente ultrapassou limites do bom senso de modo tão contundente que deve ter deixado muitos de seus seguidores, sobretudo os da área de saúde, em situação totalmente desconfortável. Fico imaginando a inveja que ele possa estar sentindo do sucesso do ministro Mandetta, depois das consequências negativas por ter saído por aí dando uma de macho popular e doidão do outro lado da cerca. Torço para que não aconteça mais nenhuma pernada presidencial. Seria desastroso.

Bem sei que a crise está somente começando e que os cuidados individuais e coletivos hão de ser amplos e obrigatórios. Com 72 anos, cardiopata e ainda convalescente, estou na turma de maior risco. De bom, ganho dengos da mulher e convictas demonstrações de carinho dos filhos, incluindo broncas homéricas por telefone e favores providenciais como as compras de supermercado.

Vitória, 19 de março de 2010

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Carros antigamente

Carros

O ar condicionado do meu carro pifou. Na verdade, ele está fazendo birra. Tem hora que liga, mas tem dia que ando os quilômetros todos com ele sem funcionar.

O dono da oficina atribuiu o defeito a uma peça que aciona o compressor, mas só depois de garantir o funcionamento do motor, aferir o sistema de freios, conferir a pressão do óleo, verificar o nível de combustível, acionar as travas das portas, medir a temperatura externa, e por aí a fora. Um avanço tecnológico expresso em um sem fim de mecanismos, circuitos e sensores comandados por um computador de bordo. Uma maravilha a serviço da segurança e do conforto dos usuários, quando funciona.

Mas o fato é que o danado do ar condicionado não está ligando na hora em que estou precisando dele para escapar do calor infernal que anda fazendo neste mês de março. E o pior, as oficinas especializadas estão lotadas.

Os carros de antigamente não tinham ar condicionado. Todos nós, motoristas e passageiros, andávamos com as janelas abertas. Para regular a fresca e a direção do vento, ajustava-se a posição do quebra-vento, recurso disponível em todos os modelos, fossem eles de passeio, esportivos ou utilitários.

O Galaxie era o melhor automóvel para passear. Macio, silencioso e elegante. Aurora Gorda, a dama da noite, comprou o primeiro que chegou a Vitória. O Simca Chambord era ágil e durinho, bem superior ao Aero Willys, que fervia o motor. O Dolphini e o Gordini eram apertados, precários e quebráveis. O máximo em matéria de carro esporte era um Mustang vermelho, de um exportador de café. A Variante de dois carburadores rateava no caminho da pescaria, mas sempre chegava. Bastava esvaziar os pneus para enfrentar os areais.

As camionetes eram usadas por fazendeiros, caçadores e gente que precisava carregar coisas pesadas. A Kombi era a única opção para transportar muita gente e só a Rural tinha tração nas 4 rodas. O jipe Candango era fácil de consertar. Difícil era ver mulher dirigindo camionete.

Mamãe ganhou um fusca 1963 de um irmão, para que pudéssemos levá-la no centro da cidade, onde passou a trabalhar depois da morte de papai. Fora do horário de expediente ele transportava os Mamíferos e bichos associados. Carmélia não me deixaria mentir. A gasolina era barata, mas a cotinha era obrigatória. Tinha-se o carro, mas faltava o dinheiro do combustível, inclusive para as idas noturnas a Guarapari. A chapa dele era 6 37 00 e todos sabiam disso.

Eu também comprei o meu Corcel 73, novinho. Custou-me quatro salários de professor. Não sei se era barato ou se eu ganhava muito bem. Antes de chegar ao Picasso que uso, consumi um outro Corcel, dois Passats, um Gol BX, duas Belinas, uma Caravan, além das duas Quantuns. Todos foram tirados de linha.

Hoje a oferta é estonteante. Além de dezenas de modelos bem parecidos, as fábricas resolveram produzir carros para os chamados nichos de mercado. Nas ruas da cidade, cada vez mais engarrafadas, vejo modelos feitos especialmente para pessoas que se acham poderosas, se pretendem aventureiras, para donos de fortunas recentes e mulheres que ficaram louras há pouco tempo. Outro dia vi passar um carro enorme, dotado de uma espécie de dentadura em aço inoxidável, de meter medo. Não deu pra ver o motorista.

Alvaro Abreu

Vitória, 17 de Março de 2010.

Escrita para A GAZETA

Para sempre

Para sempre

Depois das férias com a casa cheia e mais uma cirurgia, passei os últimos 20 dias em repouso quase absoluto, diante da TV. Por pouco fiquei viciado em séries repletas de bandidos e mocinhos, mortes escabrosas e drogas em profusão. Sorte que também assisti uma outra sobre as peripécias de uma menina canadense que perdeu os pais ainda bebê.

Lá fora, correu um tempo de muitas chuvas, enchentes e tragédias de verão, carnaval animado, morte de miliciano relevante, ameaças ao Congresso e, mais do que tudo, de coronavírus.

A enxurrada de notícias sobre o assunto foi tamanha que me recusei a continuar a ouvir homens de governo, autoridades internacionais, pesquisadores, gente medrosa com máscaras e suas instruções de como evitar contágio e propagação. O noticiário faz pensar que, em várias partes do mundo, um pânico do tipo politicamente correto se alastra mais rapidamente do que o vírus.

Os três ou quatro casos de contaminação já confirmados dão a dimensão real do problema por aqui. Sou dos que acreditam que o nosso sistema de saúde pública é perfeitamente capaz de dar conta dessa epidemia.

Chamou minha atenção uma notícia de grande interesse para os muitos que continuarão a viver em Vitória: estão pretendendo construir torres de 40 andares para abrigar 500 apartamentos e muitas salas comerciais. Até aí, nada demais, desde que fossem erguidas lá pras bandas da Rodovia do Contorno ou no caminho de Jacaraípe. A danação é que estão querendo fazer isso ali na Praia do Suá, naquela quadra que foi ocupada pelo Banco do Brasil, cercada por ruas estreitinhas, último terreno sem prédios altos naquela área.

Passo por ali com boa regularidade pra levar neto pra pescar no atracadouro, ir ao Hortomercado, comprar peixe, tomar vacina no posto de saúde. Pra quem vem do norte naquele trecho da avenida, é a única alternativa de retorno e de acesso ao estacionamento da Praça do Papa, à Capitania do Portos, ao Sebrae e tudo o mais.

É fundamental que a PMV considere que muitos dos impactos negativos do empreendimento serão definitivos e que a cidade ficará obrigada a conviver com eles para sempre.

Vitória, 05 de março de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Varandas

VARANDAS

A chuva de vento sul que caiu nesta segunda feira foi de espantar. Fazia tempo que não via uma tão forte. A luz dos postes acendia os pingos descendo em velocidade, formando fios brilhantes em contraste com o preto do céu. Verdadeira chuva de corda, como diria tio Newton.

A varanda da frente estava inteiramente alagada. Fui dormir certo de que acordaria com a casa molhada, sobretudo na sala e no quarto onde sempre desce água pelo ventilador. Goteira é algo que me remete à infância. Varanda também.

A varanda da nossa casa em Cachoeiro era um lugar fresquinho e de onde se podia avistar Teresa, metida nos seus patins de rodinhas de aço, fazendo charme.

Na de Marataízes, bem pequena, disputava-se lugar na rede depois da praia. De barriga cheia, deitávamos no cimento vermelho e geladinho para esperar a vez de balançar.

Da varanda da casa que moramos quando chegamos a Vitória, via-se o bonde passando. Nela quebrei o braço esquerdo ao tentar entrar na sala, pela janela.

Na rua Madeira de Freitas, todas as residências tinham varanda. A da nossa era lugar próprio pra ficar conversando. A parede da frente, em forma de arco, criava ambiente reservado, de aconchego. Foi nela que minhas irmãs namoraram para casar.

Confesso que sempre tive inveja dos freqüentadores da varanda da casa branca dos Micheline, que jogaram ao chão para construir um hotel enorme no lugar. Imagino que eles deveriam se sentir no tombadilho de um navio navegando entre as ilhas do Boi e do Frade e de onde se podia avistar as pedras das Andorinhas, a bombordo.

Na casa antiga que alugamos em João Pessoa, diante do mar de Manaíra, a varanda era ponto de encontro de professores e alunos. Bastava sentar na mureta que aparecia alguém pra discutir assuntos da universidade.

Ao construir nossa casa em frente a uma praça projetada, fizemos uma varanda virada pra dentro do terreno, em busca de sossego. Grande e na largura certa para armar muitas redes, ela era coberta com telha colonial. Freqüentador assíduo, eu armava minha rede em posição adequada para melhor aproveitar a fresca, botar sentido na plantação de feijão de corda e acompanhar o trabalho cuidadoso dos marimbondos.

Era bem estreita e comprida a varanda do último apartamento em Brasília, mas oferecia visão panorâmica do Planalto Central. Foi nela que Aurora cresceu e de onde voou pela primeira vez em direção ao gramado da quadra em frente.

Embora ofereça a vista do Convento por cima do muro alto, não gosto da nossa varanda atual. É lugar de passagem, pega o sol da tarde e não dá pra pendurar rede. Depois que ela recebeu a minha bancada de angelim-pedra, virou um ótimo lugar de trabalho. Por necessidade, criamos na lateral da casa um lugar próprio para a conversa correr frouxa, em volta de uma mesa grande.

Defendo que o projeto de uma residência comece pela varanda, que disputa com a cozinha a condição de lugar mais importante na moradia. Não é tarefa trivial conseguir um lugar adequado ao ócio produtivo e ao prazer de viver que considere o movimento do sol, a direção dos ventos, a textura do piso, a cor das paredes, a altura do telhado, a posição das colunas, a paisagem, a relação com os cômodos da casa e com o jardim, sem esquecer o pó de minério enriquecido, naturalmente.

Alvaro Abreu

Vitória, 03.03.2010

Escrita para A GAZETA

Progresso

Progresso

Depois de mais de 50 dias de seca, os primeiros pingos caíram às 10h10. Eu estava chegando em casa com 4 quilos de camarão graúdo fresquinho, comprados na Praia do Suá.

Terminado o período de defeso, os balcões da Colônia dos Pescadores estão repletos de um camarão meio marrom, com pequenos riscos na cauda, uma espécie rara no nosso mar, onde predominam o camarão sete barbas, o branco e o rosa, além do lameirão, acinzentado, que vive nas águas salobras do fundo da baía.

Tem explicação. Há alguns dias, eu estranhei os barcos de arrasto que voltavam da pesca, bem maiores e mais rápidos do que aqueles que sempre vejo passando, acompanhados por gaivotas interessadas nas sobras da catação, feita por um ou dois pescadores.

No atracadouro atrás do Hortomercado, soube que uns 5 ou 6 deles foram trazidos recentemente de São Tomé, no Estado do Rio. O desenho do casco é bem particular, com a boca grande e um anel de aço na quilha, para que eles possam ser rebocados por um trator, praia acima. Estrutura metálica, fixada no casario, permite arrastar uma rede balão de cada lado, o que pode triplicar o resultado da pescaria.

Na volta pra casa vi que fotografavam o navio de passageiros que atraca em Vitória toda quinta feira. Ele estava na boca da barra, navegando em mar de almirante e envolto em um cenário incomum. O mar e o céu formavam um fundo azul acinzentado contínuo, bem diferente do que se podia ver ao norte, onde nuvens espessas e negras anunciavam chuva torrencial. Fiquei com dó dos turistas. Deram azar. Depois de tanto tempo sem chover, haveriam de enfrentar os incômodos das águas para conhecer os encantos da ilha.

Foi só deixar o camarão em casa e a chuva engrossou. Dava gosto ver o limpador do vidro do carro funcionando em velocidade máxima. Fazia tempo que ele só era usado para limpar o pó preto com água do esguicho.

A chuvarada me fez lembrar que, na Paraíba, a notícia de chuva no sertão corre rápida, provocando uma alegria incontida na população da capital. As pessoas não se cansam de comentar a novidade. É que muitas delas têm parentes vivendo na roça e a chegada da chuva traz esperança de boa colheita e dias melhores. Lembrei-me também da espera pela Chuva do Caju que, quando chega na data certa, garante safra abundante.

No fim do expediente, fui levar um consultor paulista ao hotel, lá em Camburi. Notei que o mar continuava perfeitamente liso. Lavada pelas águas da chuva generosa, a atmosfera estava completamente limpa, livre das poeiras que embranquecem o ar e esmaecem os contrastes. Com o olhar de quem vê pela primeira vez, ele chamou minha atenção para uma cena de forte impacto turístico.

No horizonte, diante de todos, umas 15 chaminés soltavam fumaças de tons variados de marrom. Na falta total de vento que as espalhassem, as fumaças subiam em vertical perfeita, formando espécies de cogumelos. Uns mais claros e esguios, outros escuros, arredondados. Todos venenosos, certamente.

Imagino que naquele fim de tarde ensolarado, os turistas que viajavam a bordo daquele navio branco puderam conhecer o símbolo do progresso que se instalou por aqui. Uma imagem que se transforma com os humores de São Pedro, padroeiro dos pescadores.

Vitória, 19.02.2010

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Ainda sobre goiabas

Ainda sobre goiabas

Com a volta dos últimos 3 netos pra São Paulo, demos por encerrada a edição 2019-2020 da colônia de férias dos Abreu. Foram quase 50 dias com pelo menos dois meninos por perto, correndo de um lado pra outro, pedindo coisas, disputando o controle da TV. Com isso, a casa volta ao ritmo normal e a vida à rotina.

Na falta de netos que tirassem as derradeiras goiabas dessa safra sensacional, tive que providenciar uma vara com uma cestinha na ponta, para que eu mesmo pudesse fazer o serviço. Sempre com os pés em terra firme ou nos primeiros degraus da escadinha de alumínio. Consegui 26 goiabas, tão bonitas quanto as anteriores e, agora munido de vasta experiência, parti para a derradeira compota de orelha. Desta vez, por sugestão de Diana, usei uma daquelas panelas elétricas que cozinham as coisas com preguiça. Deu muito certo.

A enxurrada de comentários que recebi sobre a crônica passada me fez pensar que o pessoal mais antigo adora doce de goiaba nas suas diversas configurações e morrem de saudades do quintal dos avós. Um meio parente disse que raspava o tacho com palha de milho, em Arantina. Uma amiga contou que suspirou, lá na Alemanha, só de lembrar do cheirinho gostoso do doce, e outra, do Rio, declarou saudades da goiaba branca, que não encontra mais. De São Carlos, perguntaram pela geleia transparente feita com os caroços e houve quem me pedisse pra mandar geleia com espátula de bambu pra Salvador. De Brasília, me enviaram ditado simpático: goiabada sem queijo é namoro sem beijo.

Recebi também, de gente experiente, dicas para evitar bichos, podar a goiabeira, ajudar a dar ponto no doce com casca de maracujá. Um paraibano arretado confessou que, durante as peladas na rua, comia qualquer goiaba, sem julgamento. Um goiano falou que viria aqui pra cair de boca na goiabada, se seu médico liberasse o açúcar.

Deu pra ver que muita gente tem grande estima pelas goiabeiras. Um cachoeirense disse que é árvore pra criança, porque enverga mas não quebra e, dois amigos gozadores, daqui de Vitória, disseram que ao lerem a tal crônica tinham se lembrado da dona Damares.

Vitória, 06 de fevereiro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Frescobol no Carnaval

Frescobol no Carnaval

Ao passar de bicicleta, num fim de tarde de dezembro, dei de cara com as duas, esquecidas ali. Estavam de lado, encostadas no meio-fio. Junto com elas, uma bolinha vermelha de borracha.

O formato, parecido com o de uma gota, era inovador. Elas eram diferentes das que eu conhecia, feitas de compensado, imitando raquetes de tênis. Eram inteiriças, recortadas em uma única peça de madeira maciça. A espessura ia diminuindo na direção da ponta. O desenho do cabo, sextavado e grosso, oferecia excelente pega.

Dava para ver que as duas tinham pesos ligeiramente diferentes e isso era muito bom. A mais leve poderia ser usada pelo jogador que jogasse defendendo e a mais pesada, pelo que gostasse de atacar. Por tudo isso, aquelas raquetes pareciam extremamente adequadas à prática do frescobol, típico esporte de demonstração, ou seja, esporte para os rapazes se mostrarem para as moças na praia.

Resolvemos pintar as raquetes com a tinta usada na reforma da lambreta de um amigo. Verde e cinza, em listras. Além de proteger a madeira, garantiria perfeita identificação como sendo as raquetes da Praia do Barracão.

Ficou comprovado dias depois que elas tinham sido trazidos por Ninica, um exímio jogador de frescobol que se divertia rebatendo com categoria todo e qualquer bola que fosse arremessada com máxima potência pelo adversário. De quebra, devolvia a bolinha em perfeitas condições para receber outra raquetada violenta.

Por anos a fio, o último a ir embora as levava pra casa e, no dia seguinte, as trazia de volta. Elas não eram de ninguém. Eram da praia, como tal qual a morena Teresa, cantada na época por Lúcio Alves e Dick Farney.

Tempos depois, fui passar o carnaval em Guarapari, com elas na bagagem.

– A raquete é sua? Podemos jogar um pouquinho?

Foi por mera condescendência que resolvi aceitar o convite daquela moça risonha, baixinha e de perna grossa. Em plena ressaca do baile de sábado do Siribeira, aquela não era hora para jogar frescobol e muito menos com uma mulher.

As primeiras raquetadas acabaram com o meu pouco caso. A gentileza deu lugar ao espanto que, rapidamente, cedeu vez ao pânico.

Eu estava diante de uma mulher com jeitinho de santa, mas com disposição e força suficientes para intimidar um homem com uma simples raquete de madeira e uma bolinha de borracha. Para complicar, a fúria com que jogava chamava a atenção de quem passava por perto.

Morrendo de rir, amigos e curiosos formaram uma torcida para incentivar os ataques da gordinha furiosa ao rapaz desconcertado.

– Dá-lhe carioca! Acaba com a pose desse cara!

– Aí, prega uma medalha no peito dele!

Eu sabia que se continuasse jogando seria irremediavelmente atingido por aquela bolinha maldita, fato incompatível com a minha fama de exímio jogador de frescobol. Melhor seria inventar um pé torcido ou lhe oferecer um copo de cerveja e acabar com aquele jogo perigoso.

Além de audaz, resoluta e exímia jogadora, ela era uma criatura discreta e amável. Tanto que aceitou meu pedido de trégua com naturalidade.

Na sombra, ela preferiu tomar água de coco, enquanto ouvia com atenção a história daquelas magníficas raquetes. Mostrou-se indulgente com minhas desculpas esfarrapadas e fez de conta que acreditou quando lhe disse que jogar na defesa não era o meu forte.

Dava para ver que ela se deliciava com a situação. A minha fragilidade a fazia feliz e, mais do que isso, poderosa. Tanto que acabou passando o resto do carnaval olhando pra mim com a mesma carinha de anjo com que me convidara para jogar.

Vitória, 03.02.2010

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Vila de Itaúnas

VILA DE ITAÚNAS

Imagino que a maioria dos leitores nunca tenha ido a Itaúnas, embora saiba que fica no norte do estado, que tem dunas e que lá se dança forró até o dia clarear. Muitos devem ter ouvido dizer que é uma vila simpática, de ruas sem calçamento e calor infernal. Que é lugar freqüentado por hippies velhos e onde tem dança folclórica, dos pretos.

Conheci Itaúnas em 1988 em dia de festa, muita cachaça e música animada por tambores e pandeiros. Uma celebração entre moradores e aficionados pelas coisas do lugar. A varanda do bar de seu Manoel era pequena pra tanta gente cantando e dançando e o alvoroço se espalhou pelo largo da cabeça da ponte. O mergulho nas águas escuras do rio renovava as energias.

Só gente conhecida. Pessoal interessado em folclore, funcionários públicos da área de cultura, jornalistas convictos, uns poucos fotógrafos profissionais, professores universitários, moças assanhadas de todas as idades, cabeludos em geral e a quase totalidade dos que exerciam a resistência ecológica por conta própria, sem contracheque oficial. Abaixo o eucalipto, salve a tartaruga, demarquem as terras dos nossos índios.

Na volta do mar, comia-se prato feito ou um bom comercial que saciava dois esfomeados, a preços honestos. Peixe frito, bife de boi ou de frango, arroz, feijão, batata frita e rodelas de tomate. A farinha vinha na garrafa e a pimenta em vidro de maionese. De barriga cheia, era hora de descansar para dançar forró de raiz, de graça, que as moças aprendiam rápido com os nativos. A paulistada veio bem depois.

Estive lá neste fim de semana. Pousadas e restaurantes garantem a sobrevivência de freqüentadores de todo gosto. Lojas com cara de boutique mostram que a sofisticação pede passagem. A cerveja está gelada em qualquer bar e não se vê menino pedindo ou oferecendo coisas pelas ruas. O rio estava barrento e as águas do mar, mornas de amolecer. A alma do lugar continua a mesma.

Corriam as festas de São Benedito e São Sebastião. Grupos de ticumbi, reis de boi, alardo, jongo e bandas de congo brincavam pelas ruas no sol quente, debaixo do toldo de plástico diante da igreja e nas casas de quem convidasse. Na praça, dois jaraguás perseguiam crianças eufóricas e aflitas. Eram muitos brincantes da própria vila e de comunidades quilombolas do norte do estado, da Serra e de Barra do Riacho.

Solenes, os homens do ticumbi de Conceição da Barra brincam para si e para o santo, sem olhar para quem os observe e fotografe insistentemente. Vestem roupas brancas impecáveis, batas e saias enfeitadas de renda, chapéus floridos, fitas coloridas nas costas e cruzando o corpo. O violão faz a base da cantoria e o ritmo é marcado por pandeiros. São pandeiros toscos, belíssimos, feitos a mão, com couro de veado branco.

Quem me disse isso foi Rogério Medeiros, espécie de guardião das imagens, do espírito e dos segredos de Itaúnas, que desta vez tentei desvendar sentado em um banco de casco de canoa, observando visitantes que chegavam da praia leves e exaustos e moradores sorridentes que passavam a pé, de bicicleta, a cavalo e de trator. Personagens de uma mesma lenda, eles me fizeram crer que, em Itaúnas, cada um de nós retorna ao primitivo que é. Pelos esforços que faz, pelo sol que enfrenta, pelo que sente de bom estando ali.

Vitória, 19.01.2010.

Alvaro Abreu

Para A GAZETA

Ir e vir

IR E VIR

O fato de o aeroporto de Vitória ter ficado fechado por vários dias fez muita gente que depende de avião usar táxi, van e ônibus para chegar ou sair cidade. Alguns se lembraram do passado.

Mamãe contou histórias sobre as viagens de trem entre Cachoeiro e Rio de Janeiro, a única opção de transporte entre as duas cidades até o começo dos anos 50. Embarcava-se às 4 da tarde e chegava-se ao destino por volta das 8 da manhã.

O tempo de viagem era igual para ricos e pobres. Para estudantes, políticos ou fazendeiros, para quem viajasse de férias ou a serviço. Ela conta que vovó Neném fez uma viagem dessas para tirar uma espinha de peixe da garganta. Nem imagino o tamanho do incômodo, agravado pelos solavancos do vagão.

É bem verdade que existia a possibilidade de dormir durante um bom trecho da viagem, a partir de Campos. Isto, para quem conseguisse vaga no carro leito e pudesse pagar por um beliche com direito a roupa de cama em puro linho inglês.

A duração da viagem permitia pensar no encontro político, imaginar passeios, escrever discursos, estudar para a prova. Nas voltas pra casa, no começo das férias, os pensamentos ficavam por conta da retomada do namoro, do reencontro com amigos, do baile nos Caçadores.

A paisagem que corria pela janela, vista com olhar desatento, atestava a transição entre dois mundos diferentes. Partia-se para o Rio sabendo que haveria viagem de retorno e que a vida seria retomada no ponto exato em que fora suspensa na estação da Leopoldina. Pisava-se a plataforma da cidade maravilhosa com a esperança de encontrar boas oportunidades de trabalho, estudo e muita diversão.

De minha parte, lembrei-me do nosso vizinho de muro que, com ares de desbravador, levou a família até a Argentina numa valente kombi de luxo, ano 1967. Foram e voltaram montando barraca.

Talvez inspirado nessa aventura foi que, na condição de pai de cinco filhos e casado com mulher animada e corajosa, resolvi comprar um ônibus para podermos viajar juntos, para qualquer destino, sem depender de hotel.  Transformado em trailler mambembe, caseiro, com poltronas para 16 passageiros, camas para 12, toilet a bordo, duas mesas, cozinha completa e poleiro para a arara, o busante – como era chamado pelos meninos – rodou quase 30 mil quilômetros no asfalto e nas estradinhas de barro do planalto central, das terras mineiras, do sertão baiano, das praias do nordeste e do leste. Sem a menor pressa.

Era muito bom poder acordar com o barulho do mar, com o sino da igrejinha, com o mugido das vacas de um fazendeiro conhecido. O toldo armado na lateral daquele ônibus branco garantia a sensação de se estar na varanda, diante da paisagem escolhida a cada dia. Nos postos de gasolina, era comum ouvir alguém perguntar se era “ônibus de conjunto”. Muitas e muitas vezes ele seguiu levando parentes e amigos em viagens animadíssimas.

A pressa e a prontidão são marcas dos dias atuais. A mídia apregoa que a comunicação torna o mundo sem fronteiras e coisa e tal. Até aí, tudo bem.  O problema é o trânsito nas cidades, que avança na contramão desse processo radical de encurtar distâncias e otimizar o uso do tempo. Para quem não tem celular, como eu, só lhe resta ouvir música ou a Voz do Brasil.

Alvaro Abreu

Buenos Aires, 12 de novembro de 2009.

Escrita para A Gazeta