Resultados digitais

Resultados digitais

Demorei, mas o fato é que estou entrando, pouco a pouco, na era digital. Em outubro ganhei de presente de aniversário do meu filho mais velho uma conta do Instagram, para que pudesse mostrar pro mundo inteiro as colheres que faço com bambu. Agora, no Natal, ele inventou de fazer a edição digital do livro “Crônica do meu primeiro infarto”, onde relato passagens e emoções do evento coronariano que tive há exatos 25 anos.

Dois de seus argumentos eram irrefutáveis: o livro trata de assunto que interessa a muita gente e era coisa muito fácil de fazer. Seria, por assim dizer, uma edição comemorativa e com lançamento mundial. Bastaria revisar o texto, fazer uma capa chamativa e preparar a divulgação em massa via internet, a começar pelo envio de mensagens aos conhecidos e postagens nas redes. Dito e feito: a versão beta já está nas nuvens, sem qualquer dependência de editores, livrarias e tudo o mais. Em breve sai a versão definitiva a custo zero.

Tudo isso me fez lembrar do lançamento da versão impressa, no Iate Clube. Festa animada e inesquecível para mais de 1000 pessoas queridas, com direito a show da banda de rock dos meninos, apelidada de Artéria Entupida por meu irmão Afonso, vitrines com colheres bem na passagem da fila de autógrafos, muita conversa animada e beijos e abraços em profusão. Verdadeira comemoração por estarmos todos vivos e saudáveis. De quebra, um recorde espetacular: mais de 400 exemplares vendidos. Em escala menor, porém com as mesmas emoções, a festa se repetiu em Cachoeiro, no Rio, em Brasília e em João Pessoa, por onde deixamos muitos amigos. Preparar as respectivas listas de convidados deu trabalho mas foi um belo exercício de recomposição de memórias. Tive enorme satisfação em ver que muito pouca gente faltou.

Espero que a edição digital cumpra o seu papel, ao permitir que a leitura do livro seja feita por um número bem maior de interessados, de qualquer lugar. Na falta dos abraços, seria ótimo se, ao menos, ela gerasse uma boa quantidade de likes, compartilhamentos e comentários, coisas que fazem bem pra qualquer coração.

Vitória, 09 de janeiro de 2020

Alvaro Abreu

Escrita para  A GAZETA

Cartas, e-mails e encomendas

Cartas, e-mails e encomendas

A circulação das palavras escritas faz o mundo cada vez menor, mas nem sempre a logística ajuda. Conto duas histórias para reforçar essa teoria.

Conheci Malu em 1966 debaixo do sol de meio dia, no inverno de Curitiba. Na ocasião eu era nadador relativamente veloz que acabara de fracassar nas águas geladas da piscina. Corriam os Jogos Universitários Brasileiros e eu, já liberado de compromissos, buscava assunto em frente ao restaurante dos atletas. A conversa foi rápida e ela prometeu me mandar cartazes para completar a parede do meu quarto, mania da época. Cumpriu a palavra e, surpreso, escrevi agradecendo.

Nos anos seguintes escrevi muitas cartas para Malu na Lettera 22 lá de casa. Nunca além de uma única página. Suas respostas eram curtas e enigmáticas e jamais se referiam às missivas anteriores. Sem conexão de assuntos nem regularidade na correspondência, até hoje.

As cartas eram postadas lá no centro da cidade e demoravam mais de sete dias entre Vitória e Bragança Paulista. A espera fazia parte da brincadeira.

Em 2005 recebi e-mail de pessoa cautelosa e protegida por um endereço de hotmail. Disse ter tomado coragem de escrever após visitar meu site, curiosa em conhecer as colheres que faço com bambu. Assinava Sissi.

Disse que gostava de fazer trabalhos de mão utilizando corriola, uma fibra natural existente na terra em que vivia. Achei graça e tratei de informá-la que, por aqui, corriola é coisa que não convém a moças refinadas. Ela vivia em um ponto do arquipélago dos Açores, que consegui visitar com ajuda da internet.

Percebi se tratar de pessoa atenta e determinada. Completara o curso de zootecnia e começara a trabalhar em um matadouro público. Achei a ocupação meio estranha, mas acabou virando tema de conversa, ao lado dos sabores e das banalidades da vida.

Quem não vê cara, não vê coração. Durante meses, os e-mails vieram sem imagens da remetente. A única fotografia que anexou depois de muita insistência, não me permite identificá-la entre pessoas andando na rua ou comendo broa de milho em ilha oceânica.

Assim também havia sido com Malu. Tudo a que tive direito foi uma foto dela numa turma de estudantes. Uma seta apontava uma moça de saia escura e blusa clara. Dava para ver que era meio loira. Só.

Dela recebi estranhos presentes, dentre eles um grampeador e um cinzeiro de colocar em braço de sofá. De Sissi ganhei uma geléia feita com uma espécie rara de uva silvestre que colheu nos altos do Pico, que revela o arquipélago aos navegantes. O pote chegou às vésperas de um Natal, protegido por um cestinho de corriola trançado a mão. Em retribuição, mandei um pacote com o livro que escrevi e duas colheres de bambu de primeira. Demorou meses para chegar ao destino.

Em meados de novembro, Sissi escreveu dizendo que um precioso queijo de leite de ovelhas já estava a caminho de Vitória. Vinha como um presente atrasado de aniversário. Imediatamente comecei a esperar e a imaginar o gosto do produto.

No começo da semana, ao me ver de volta das férias, a senhora da portaria do prédio, a quem tantas vezes perguntei pela bendita encomenda, foi logo dizendo:

– Acho que Papai Noel comeu o queijo que o senhor estava esperando.

Vitória, 06 de Janeiro de 2010.

Alvaro Abreu

alvaro@bambuzau.com.br

Crônica para A Gazeta

Papai Noel

Papai Noel

Voltei a acreditar em Papai Noel e estou cheio de esperanças. Na medida em que vamos ficando mais velhos, nossas crenças vão se modificando. Começamos a vida acreditando na mãe, nos irmãos e nas babás, em seguida nas professoras, nos colegas, nos amigos, nos amigos dos amigos e mais adiante, nos chefes, nos candidatos, nos dirigentes, nos que doutrinam e, se bobearmos, até em impostores.

Cada vez mais somos induzidos a aceitar o que nos mostra a propaganda refinada e as jogadas feitas com marketing inteligente. Distraídos, passamos a acreditar no que querem que acreditemos. Que isso não trará problemas, que aquilo é que é bacana, que está na hora de trocar… Sempre tem quem queira nosso apoio para aprovar o que gostaria de ver aprovado, nosso voto para se reeleger, nossa boa vontade para deixar como está.

Percebo que o esforço para tentar convencer o cidadão comum vai ficando cada vez mais sofisticado, avançando para muito além da política e do comércio varejista. O aumento vertiginoso da concorrência por atenção e aprovação estimula e compensa a contratação de profissionais para cuidar da imagem e dos interesses de pessoas, empresas, entidades e governos. Uma prática que cresce mundo afora.

Aprendi na escola que os homens são motivados por seus próprios interesses e movidos por suas necessidades insatisfeitas. Um tal Maslow estudou as necessidades do homem e as classificou em cinco categorias: as de natureza fisiológica e as que se relacionam com segurança, associação, reconhecimento e auto-realização. Ele provou que elas são hierarquizadas e vão ganhando expressão ao longo de nossa existência, sem escapatória.

Há quem ache que, nesta altura da vida, tenho quase tudo que um homem poderia querer e precisar para se sentir feliz e realizado. Plantei árvores frutíferas, escrevi livros, tenho filhos, genros, noras e netos. Vivo há 37 anos com a mulher que adoro em uma casa confortável, perto do mar. Ledo engano, meu amigo. Em 2010, eu pretendo ver realizados desejos que, imagino, sejam também os de muita gente.

Poder sentar na minha cadeira de balanço preferida, que comprei na Paraíba em 1976, sem ter que limpá-la antes de usar. Poder ler um livro sem ter que passar um pano na capa e no dorso, antes de abri-lo. Poder apoiar os braços no tampo da mesa do computador sem sentir a gastura do contato com a sujeira. Poder andar descalço na minha própria casa, sentindo a diferença de tato e de temperatura de cada assoalho. Enfim, poder abrir as janelas dos quartos sem arrependimentos e sem sentir raiva do bom e inocente vento nordeste.

Como até hoje ninguém atendeu a essas minhas necessidades elementares, decidi pedir a Papai Noel que acabasse, de uma vez por todas, com tamanha quantidade de pó de minério, fuligem de carvão e todo tipo de partículas que se soltam do chão, se despregam das pilhas e saem das chaminés plantadas na antiga Ponta do Piraém. E, se não fosse pedir demais, que usasse seus poderes mágicos para matar de vergonha todos os que teimam em mandar dizer que está tudo dentro da mais perfeita normalidade.

Saibam que fiz tal pedido com a mesma esperança que tive quando quis ganhar um velocípede de presente de Natal, em 1951.

Alvaro Abreu

Vitória, 25 de Dezembro de 2009

Caderno Dois de A Gazeta

Pra lá e pra cá

Pra lá e pra cá

Correr durante 12 minutos e medir os metros percorridos. Quem não conseguisse correr, que marchasse ou andasse o mais rápido possível.

O resultado era levado para uma tabela de valores de referência, que denunciava o grau de incompetência física do cidadão naquele exato momento da sua vida. Edificante para os mais fortes, cruel para os mais debilitados. Independente de idade, sexo e variáveis afins, cada qual era colocado diante de si mesmo por uma métrica criada para avaliar o condicionamento físico dos soldados americanos.

Magro e com cara simpática, Cooper, esse era o nome do seu idealizador, conseguiu espalhar pelo mundo um método muito prático de auto-avaliação. Isso, num tempo em que muito pouca gente se preocupava com saúde e desempenho. No máximo, jogava-se pelada em campo de terra, frescobol na praia e vôlei no meio da rua. No final dos anos 60, academia era lugar de halterofilista, não se falava em meio ambiente, nem em taxas de colesterol. Morria-se bem mais cedo, por falta de hospitais decentes, boa medicina, remédios eficazes e, sobretudo, de cuidados pessoais.

Mente sã em corpo saudável, era a máxima que enaltecia cuca fresca e bem estar físico. Quase que um lema de escoteiros alertas. Trazida provavelmente da Grécia, era a referência maior para indicar pessoas de bem com a vida. Nos colégios, além de estudar a lição, todo aluno era obrigado a fazer flexões e muito polichinelo. Tudo muito simples, como a maioria das coisas de antigamente.

O teste de Cooper virou mania. Até jogadores de seleção foram endeusados e crucificados na Copa de 70, dentre os quais Brito, um incansável xerife da nossa defesa e Gerson, que tirava vantagem da pontaria para não precisar correr muito.

Acho que o bom senso fez os especialistas entenderem que correr pode ser perigoso e o mundo inteiro acreditar que quem caminha é mais feliz. Deu no que deu. Basta observar o bando de gente que enche as calçadas diariamente, nos começos de manhã e nos finais de tarde. Tem quem caminhe até mesmo debaixo de chuva de vento sul.

Saudáveis, animadinhos, comunicativos, esnobes, envergonhados, convictos, temerosos, oferecidos, distraídos, interessados, confiantes, lerdos, redondos. Atletas de todo porte, jovens empresários, técnicos especializadíssimos, vendedores de carros, ambulantes, bandidos veteranos, mocinhos joviais, políticos em geral, ex-poderosos, dirigentes senhoras assanhadas e totalmente sérias, mulheres musculosas, debutantes coloridas, donas de casa gordinhas e muitos mais. Cada qual ao seu modo, cada um em seu mundo pessoal, os brasileiros enchem calçadas em busca de satisfação, saúde, distração, oportunidades.

Vestindo roupas que refletem as intenções de cada dia e calçando tênis cada vez mais poderosos e aderentes às características do usuário e às condições das pistas, movimentam-se com estilo personalizado e em velocidade definida. Caminham de um lugar para outro por obrigação, hábito ou vício, sem ao menos pretender chegar a um lugar qualquer.

Acho que muita gente, como eu, já faça parte da paisagem urbana junto com os coqueiros, a areia da praia, os bancos da calçada, a fumaça das chaminés. Tanto que há quem nos cobre por ausências eventuais na cena diária.

Alvaro Abreu

alvaro@bambuzau.com.br

Vitória, 09.12.2009

Torcedor Tricolor

Torcedor Tricolor

O futebol anda pegando fogo nesses tempos de decisão. Os estádios estão repletos de torcidas animadas, que cantam e fazem coreografias sincronizadas para empurrar o time. A televisão mostra o espetáculo no gramado e nas arquibancadas coloridas e barulhentas. Não percebo fanatismo, mas constato entusiasmo e alegria. Os jornais andam cheios de notícias estimulantes. O faturamento aumenta e o dinheiro circula. Imagino que os jogadores se sintam valorizados por suas proezas, cobrados por suas falhas, pressionados a produzir bons resultados.

Sou tricolor, de coração. Desde muito pequeno torço pelo Fluminense. Na minha terra, torcia pelo Cachoeiro, time a que meu pai dedicava grandes atenções e pelo qual se indispunha com torcedores do Estrela. Aqui, escolhi o Vitória para sofrer, em época que o Rio Branco e a Desportiva não o deixavam ser campeão. Mas devo dizer que faz tempo que o futebol deixou de me emocionar e fez de mim um torcedor de Copa do Mundo. Nem gosto de lembrar Roberto Carlos arrumando o meião em momento crucial daquela decisão com a França.

Não sei se isso seria suficiente para que algum especialista – hoje em dia tem especialista em tudo – pudesse traçar meu perfil desporto-emocional. Mas se tentasse fazê-lo, seria prudente que considerasse que esta semana estive diante da televisão por três vezes, vendo jogo de futebol. A primeira, numa saleta de hospital, por falta de opção. A segunda, já tarde da noite, assistindo uma vitória suada do Fluminense a caminho de um título sul americano importantíssimo. Foi emocionante ver o empenho dos jogadores do meu time buscando o gol do empate, que só veio aos 47 minutos do segundo tempo, bem ao estilo flamenguista. Fizeram mais um gol, para não deixar qualquer dúvida.

Domingo foi a vez de ver o Sport de Recife dar a sua contribuição à histórica campanha do Fluminense em 2009. Um espetacular três a zero vai nos ajudar a ficar na primeira divisão. Pode parece pouco, mas não é. Fiquei sabendo pelo comentarista da TV que, na opinião de um experiente matemático, as probabilidades de rebaixamento rondavam a casa dos 99%. Exultante, ele lembrava que meu time não perdeu nenhuma das últimas 13 partidas. Um resultado estupendo, como se dizia, de alto desempenho, como se diz agora. Por mais decepcionado que esteja com o futebol, não há cidadão que resista a tamanha demonstração de amor à camisa tricolor.

Para ajudar a esclarecer o que ando sentindo, devo dizer que fui goleiro de futebol de salão, uma das mais ingratas funções que um homem pode exercer no mundo do esporte. A bola é pesada, os chutes são fortíssimos e de curta distância. O dedo médio da minha mão esquerda, quebrado na falange superior, num treino num primeiro dia de férias, é um testemunho que carrego até hoje.

Pois bem, essa reviravolta do Fluminense me fiz lembrar de uma partida disputada na quadra do Praia Tênis Club. Depois de sofrer 5 gols por falhas gritantes da nossa defesa, resolvi pedir para sair de campo logo no começo do segundo tempo. Saí xingando, direto pro chuveiro. Só fui entender a gritaria que chegava pela janela do banheiro quando soube que o nosso time tinha virado o placar para 6 a 5. Quem quiser que explique.

Alvaro Abreu

Vitória, 25.11.2009

A Gazeta

Ferramentas

Ferramentas

Os últimos dias foram de fortes emoções. Além de reunir o conselho da incubadora de empresas, dei palestra sobre sistemas avançados de gestão da produção para 140 empresários e aula sobre inovação de atitudes para mais de 15 professores. A Semana Estadual de Ciência e Tecnologia e o Salão do Inventor fizeram grande sucesso. Faltou cadeira e sobrou discurso sobre o futuro da cidade em solenidade para marcar o início da implantação do Parque Tecnológico e encaminhar o projeto de lei que institui o sistema municipal de apoio à inovação. Tendo feito 62 anos na sexta-feira, considerei o evento como festa de aniversário.

Inovar é coisa própria do bicho homem. Desde que se tornou racional, ele inventa para sobreviver, para facilitar a vida, para cuidar dos seus. As ferramentas são extensão das mãos, dos braços, da cabeça. Elas aumentam a potência, economizam o esforço, viabilizam o aperto, tornam possível muita coisa. O homem as cria por força da observação, experimentando, comparando, repetindo. Gosto de imaginar nossos ancestrais aprendendo a usar o porrete para golpear intrusos e abater animais, testando a cunha de pedra lascada para dividir a caça e se valendo de um galho como alavanca para tentar tirar pedras do interior da caverna.

Da minha parte, declaro admiração por instrumentos que o homem foi criando em função de suas necessidades prementes a cada etapa da sua existência. Tenho grande estima por minha foicinha paraibana, por uma goiva feita em Valadares e pelas faquinhas que uso para cortar bambu. Começo a usar pinças e ferrinhos de dentista, que feitos em aço muito resistente, são perfeitos para serviços de precisão.

Tenho duas caixas de ferramentas. Na primeira, guardo preventivamente parafusos e pregos de todo tamanho, molas, porcas, peças de metal e tudo o mais que possa ser utilizado para consertar alguma coisa, para fixar o que precisa ser fixado. Alicates, martelos, chaves de fenda, formões, chaves de grifo, punção, grosa, lima, torquês, serrinha de aço e chaves de boca ficam numa outra caixa menor, abarrotada.

Adoro ter por perto barbantes, cordas e cordinhas. De algodão, sisal, nylon e, sobretudo, de tucum. Tenho guardadas longas tiras de couro e linha encerada para costurar sapato. Sou usuário, desde sempre, de borracha de câmara de ar para prender quase tudo, inclusive molinete, toldos e cabo de barraca de praia. Com argumentos lógicos, consegui trazer meu armário de sobrevivência para a sala da televisão, deixando tudo bem ao alcance das mãos. É que sou fã do MacGyver da TV, aquele que faz avião com pedaços de lata, motor de geladeira velha e durex.

Em função disso tudo, e para evitar que continue aumentando perigosamente o contingente dos que não sabem pregar um prego, serrar uma tábua, colar duas madeiras, proponho que se inclua na tal lei da inovação, um artigo com a seguinte redação: “Toda criança de Vitória tem direito a receber dos pais, além de computador e ponto de internet, uma caixa onde possa guardar as ferramentas que usará para consertar o que estiver quebrado e inventar o que bem entender, para sua satisfação pessoal.”

Alvaro Abreu

Vitória, 28.10.2009

Self-Service

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SELF-SERVICE

Na semana passada, conheci mais um restaurante self-service. Na porta, uma moça elegante entregava o cartão de controle e, na balança, a dona da casa era toda sorrisos. Ambiente de fina decoração e cadeiras de boa forma garantiam conforto e bem estar. No balcão, estavam disponíveis 6 ou 7 tipos de salada, 3 opções de carnes, outras tantas de peixe e de frango, uma espécie de rocambole de frutos do mar, carpaccio derramado sobre tiras de alface, um risoles sofisticado e um penne muito atraente. A chef de cozinha circulava entre as mesas conferindo o próprio sucesso. Paguei 18 reais.

Contei mais de 20 restaurantes a quilo num raio de 300 metros de onde saio para almoçar nos dias úteis. Uma explosão de opções para uma clientela de cresce e engorda a olhos vistos. Invenção brasileira que vai se espalhar pelo mundo afora no rastro da sandália de dedo e da cachaça.

Sinal dos tempos, descoberta da pólvora, o self-service é a versão pret-a-porter da alta gastronomia. É o resultado da aplicação dos conceitos da engenharia de produção nas compras, na operação da cozinha, na organização do balcão, no layout do salão e no esquema de cobrança. Tudo isso para racionalizar processos, minimizar perdas e estoques, aprimorar controles e cortar os custos, visando oferecer alimentação de qualidade a preços justos para grandes contingentes de profissionais apressados, aposentados tranqüilos e estudantes famintos.

Lembro-me de ter ficado perplexo ao ouvir uma amiga dos meus filhos dizer para a família reunida à volta da mesa, que na casa dela não mais aconteciam momentos como aquele, pois o almoço havia sido definitivamente abolido. Práticos e eficientes, os restaurantes a quilo apenas começavam a atender os consumidores “sem cozinheira”, facilitando mudanças na vida da classe média das metrópoles.

O self-service decretou o fim do domínio do cozinheiro e da lerdeza do garçom, encerrando os tempos das incertezas em relação ao que viria lá da cozinha. Agora, a fartura e a diversificação da oferta abrem espaço para a criatividade e a gulodice na montagem da nossa refeição de cada dia. Noto que a educação do usuário está expressa na sua forma de comer e a personalidade, na composição do seu prato. O ideal é que não existissem televisões ligadas e fosse evitado o uso dos celulares durante o horário de atendimento.

Digo tudo isso porque fui criado almoçando e jantando diariamente, sem muito barulho. O cardápio era o trivial variado: arroz, feijão, salada de alface e tomate, uma verdura e carne assada, ensopada, moída, ou na forma dos disputadíssimos bifes. Macarronada só aos domingos. Nas Quintas Dançantes do Iate Clube a única opção era um inesquecível PF de arroz, farofa crocante e meio galeto assado, regado com o molho de Pedrinho. Naquela época, strogonoff era o prato de resistência nas festas mais chiques. De carne ou de frango? Era a pergunta de sempre.

No Rio, o sair de um self-service sofisticadíssimo, desses que oferecem comidas exuberantes e sabores refinados trazidos de todos os cantos do mundo, tive a plena certeza de que acabara de comer melhor do que imperadores romanos, príncipes de Gales e reis da Pérsia. Paguei 39 reais, 12 dos quais com vale-refeição.

Alvaro Abreu

Vitória, 15.10.2009

Voando na Ilha

Voando na Ilha

Dia desses uma família de corujas fez sucesso na primeira página deste jornal. Sérias e intrigadas, elas posaram para a foto diante da toca que cavaram na areia, perto da Curva da Jurema.

No início da Praia da Direita, daqui da Ilha do Boi, também tem uma família daquelas corujas, sempre atentas à movimentação de quem chega e que que já vai embora, depois de um bom banho de mar. Vez por outra, uma delas sai voando, por baixo e por perto, meio que querendo avaliar a situação.

Aliás, passarinho é o que não falta por aqui, dos bem pequenos aos mais taludos: juriti, pomba-rola, rolinha, anu branco e preto, bem-te-vi, cambaxirra, caga-sebo, cardeal, pica-pau, joão-de-barro, canário-da-terra, sabiá da mata, sabiá da praia, bombeirinho, coleiro, beija-flor, sanhaço, gavião, maçarico, andorinha-do-mar, gaivota, pardal e urubu, naturalmente.

Acompanho a evolução dessa turma desde que me mudei pra cá, em1987, quando os pardais dominavam o pedaço. A chegada dos bem-te-vis foi bem-vinda e determinante. Maiores e mais fortes, aos poucos foram tomando terreno. Faziam ninhos nos transformadores da rede elétrica e se alimentavam com ovos dos concorrentes.

Não tenho visto mais o bando de bombeirinhos que habitava a ilha desde sempre. Acho que se mudaram por falta de semente de capim colonhão (SIC), que a Prefeitura não mais permite cultivar nos terrenos baldios que restam.

Outro dia reparei o bando de maçaricos fazendo hora na laje de pedra em frente ao Village de Lille. Por alguma boa razão ancestral, eles descansam perfilados no contra-vento, num pé só, com o bico vermelho enfiado debaixo da asa direita. Para fugir da espuma das ondas, saltitam para a parte mais alta, sempre no mesmo pé. Há quem se queixe do barulho que fazem à noite.

Gosto de pensar que o mamoeiro que vejo da janela do meu quarto alimenta os sanhaços e que a moita de hibisco tenha virado uma espécie de restaurante self-service para cambaxirras, caga-sebos e beija-flor de todo tipo. Bem que merece denúncia a concorrência desleal praticada por passarinhos miúdos que bicam as frutas da nossa jabuticabeira desvairada, antes mesmo que amadureçam de todo.

Em dezembro passado apareceu um sabiá da praia, que adora passear pelos jardins da casa usando pulseira de alumínio na perna esquerda. Mansinha, acho deve ter sido solta da gaiola por insistente pressão dos filhos de quem a mantinha presa. Em compensação, nunca mais vi o único pica-pau que bicava por aqui.

Não sei bem os motivos, mas uma grande quantidade de andorinhas do mar resolveu se apossar, recentemente, da Galheta de Dentro, ilha pequena que existe pertinho da nossa, deixando a pedra toda branca e piando noites à dentro. Elas me fazem lembrar das garças carrapateiras que descem em caravana o rio Itapemirim nos fins de tarde para dormirem nas árvores perto da foz. Da varanda da casa de um amigo, parei de contar depois que haviam passado mais de 600 delas, e a tarde ainda estava bem clara.

Como muita gente da minha geração, fui criado com passarinho em volta, dentro de casa. Pouco antes de morrer, papai ganhou de presente de Augusto Ruschi, naturalista famoso lá de Santa Teresa, um bicudo dos bons, que viveu conosco por mais de 14 anos. Ele conhecia mamãe de longe. Seu canto, afinadíssimo e melodioso, era de fazer inveja a tio Cristalino, que tinha grande orgulho de seus bicudos e curiós.

Digo tudo isso com saudade da Aurora, nossa arara que vivia solta pelos muros, fazendo graça para quem passasse na rua. Temperamental, tinha ciúmes dos cachorros da casa. Interesseira, ela vinha tomar café da manhã comigo. Diariamente.

Vitória, 30 de setembro de 2009

Alvaro Abreu

Escrita para A GAZETA

Sandália de Dedo

Sandália de Dedo

Em Agosto, passei mais de dez dias sem usar sandália havaiana. Não foi nada fácil sair do chuveiro e não encontrar onde pisar com segurança e intimidade.

Venho usando sandália de dedo há mais de 40 anos, diariamente, com total convicção, mesmo no tempo em que matava filhos e filhas de vergonha.

Para ser honesto, acho que sou meio viciado em sandália. Um vício caseiro, inofensivo, é verdade. Basta entrar em casa para querer enfiar uma nos pés e começar a aproveitar a vida.

Bem que busquei alternativas para contornar o problema. A sandália indiana de couro que ganhei de presente há muitos anos é belíssima, mas escorrega no assoalho de madeira. Apelei para os sapatos velhos, mas eles nem de longe garantem a mesma sensação de liberdade. Não, não uso tênis.

Perdi o hábito de andar com o pé no chão porque o pó de minério deixa o dono da sola do pé morto de raiva. Descalço só mesmo na areia da praia.

Ao reclamar da situação numa roda de amigos, vi que não sou caso isolado de apego às sandálias de borracha. Bastou tocar no assunto para a conversa esquentar. Todo mundo queria falar ao mesmo tempo, comprovando que elas fazem parte da existência dos brasileiros.

Movidas a caldo de feijão e cachaça, foram feitas declarações saudosistas, confidentes, solenes, debochadas e polêmicas. Parece que carregamos na alma o trauma de uma ardência na pele da racha entre os dedos, lugar impiedosamente ralado pela alça da primeira sandália, de acabamento precário.

O design das sandálias evoluiu. O elástico no calcanhar, macete que sempre adotei para andar nas pedras, permite que crianças possam usá-las para dar os primeiros passos. As crianças de hoje já nascem geneticamente adaptadas para tanto.

Na ponta da mesa um industrial disse que inverte o lado da sola, porque virada pra cima, dura mais. Também por economia, disse que consertava a alça da frente com um prego, o que piorava bastante o incômodo entre os dedos. Essa técnica, que garantia sobrevida à sandália, foi confirmada por gente de confiança: um paraibano que vive em Frankfurt e um doutor em física, que utilizava clipes para não deixar a alça passar pelo buraco.

Um homem de boa memória lembrou as mil utilidades das sandálias: marcar a trave nas peladas, derrubar manga, frear carrinho de rolimã e servir como instrumento pedagógico. O pescador contou que coloca borracha do calcanhar no êmbolo da bomba de tirar corrupto na areia da praia, em tempo de maré baixa. Corrupto é um bicho com cabeça de tatuí, barriga de lagarta vermelha e rabo de camarão, a melhor isca que conheço.

Teve também quem garantisse que em 1962 já existir fábrica de sandália de dedo em Cachoeiro e quem dissesse ter enfrentado os preconceitos da época em que chinelo de dedo e sapato mocassim eram considerados “coisa de veado”.

A linha de evolução do produto foi mostrada por um professor nascido no interior: percata de couro cru, tamanco de madeira, alpargatas, chinelo de dedo, sandália de dedo, de borracha, de couro, japonesa, havaiana e, finalmente, as ilegítimas, genéricas. Digo que a palavra tamanco trouxe junto o som da madeira batendo no cimento das calçadas, lá em Marataizes.

Andando de tênis, na contramão, uma amiga paulista confessou que não consegue usar sandália de borracha porque trupica. Coitada!

Alvaro Abreu

Vitória, 16.09.2009

Escrita para A GAZETA

Bons Ventos

Bons Ventos

Por todos esses anos de conversas sobre pescarias, regatas, tempestades e, mais recentemente, sobre o aquecimento global, tenho visto que a imensa maioria das pessoas não distingue um sudeste fraco de uma generosa lestada. Pouca gente conhece os segredos de uma viração ou é capaz de perceber que vem vindo uma rajada, se é que sabe o que seja isso.

Predomina uma espécie de ignorância, perigosa por sinal, derivada da vida que se leva na cidade grande, onde o homem consegue sobreviver sem ao menos precisar saber se vai chover ou fazer sol na parte da tarde. Quase ninguém mais se orienta pelo que esteja se passando nos céus, sobretudo com a lua para, digamos, cortar o cabelo ou travar um namoro.

A iluminação feérica das avenidas, tão necessária para aumentar a visibilidade no asfalto e a segurança nas calçadas, acabou por esconder a lua e as estrelas dos homens apressados em chegar.

Pois saibam todos que caminhar cedinho na areia da praia, além de ser atividade terapêutica e prazerosa, permite acompanhar a sutileza da mudança dos ventos.

Naquela hora do dia, o Terral, que levava os barcos a vela para o mar do alto, é quem domina os ares. Aos poucos, com o calor do sol, ele vai se acalmando, até parar de soprar, instalando uma ligeira calmaria, até que a brisa que vem do nordeste comece a entrar.

Quase sempre o Nordeste chega calmo, com cara de quem não quer nada, como quem estuda cuidadosamente o ambiente. Na medida em que o sol vai subindo e ficando mais quente, ele vai tomando força, perdendo a condição de brisa matinal para se transformar em um vento pleno, maduro e senhor de si. Nessa condição ele agita o mar, levanta as ondas e nos traz o pó de minério de cada dia.

Isso vai assim até que no meio da noite, sem que se perceba com facilidade, uma outra calmaria se instale para que o Terral, que nasce no seco da terra, faça valer a sua vontade, natural e irresistível, de soprar mar adentro.

Essa peleja se repete até que surja uma ventania traiçoeira, vindo do sul, trazendo frio e chuva de muitos dias. Na televisão, a moça da meteorologia sempre demonstra reservas ao anunciar a chegada do mau tempo que se despregou lá da Antártida.

A friagem vem trazida por um vento que varre os pampas gaúchos com o nome de Minuano e vai ganhando apelidos ao longo da costa, sempre fazendo as pessoas rezarem para que cesse logo. Os pescadores não gostam do vento Sul, porque atrapalha a pescaria e vira as embarcações.

Nas vilas à beira mar, os pescadores controlam as fases da lua, o movimento das marés e o sentido dos ventos. Eles sabem que o resultado da pescaria depende disso e que da pescaria dependem o arroz, o feijão e a farinha. Nesses lugares, a vida, ainda que por linhas tênues, continua dependendo bastante da lua e dos ventos.

Como pescador que fui, sempre tive grande preferência pelo vento Leste, que acalma o mar, clareia as águas e embeleza as tardes. Como morador de Vitória, faz tempo que passei a torcer pela chegada do vento Sul, que além de não sujar as varandas, garante o ar puro que preciso respirar para continuar vivo.

Alvaro Abreu

Publicada na edição de 04.09.2009 de A GAZETA – Vitória ES