Bons Ventos

Bons Ventos

Por todos esses anos de conversas sobre pescarias, regatas, tempestades e, mais recentemente, sobre o aquecimento global, tenho visto que a imensa maioria das pessoas não distingue um sudeste fraco de uma generosa lestada. Pouca gente conhece os segredos de uma viração ou é capaz de perceber que vem vindo uma rajada, se é que sabe o que seja isso.

Predomina uma espécie de ignorância, perigosa por sinal, derivada da vida que se leva na cidade grande, onde o homem consegue sobreviver sem ao menos precisar saber se vai chover ou fazer sol na parte da tarde. Quase ninguém mais se orienta pelo que esteja se passando nos céus, sobretudo com a lua para, digamos, cortar o cabelo ou travar um namoro.

A iluminação feérica das avenidas, tão necessária para aumentar a visibilidade no asfalto e a segurança nas calçadas, acabou por esconder a lua e as estrelas dos homens apressados em chegar.

Pois saibam todos que caminhar cedinho na areia da praia, além de ser atividade terapêutica e prazerosa, permite acompanhar a sutileza da mudança dos ventos.

Naquela hora do dia, o Terral, que levava os barcos a vela para o mar do alto, é quem domina os ares. Aos poucos, com o calor do sol, ele vai se acalmando, até parar de soprar, instalando uma ligeira calmaria, até que a brisa que vem do nordeste comece a entrar.

Quase sempre o Nordeste chega calmo, com cara de quem não quer nada, como quem estuda cuidadosamente o ambiente. Na medida em que o sol vai subindo e ficando mais quente, ele vai tomando força, perdendo a condição de brisa matinal para se transformar em um vento pleno, maduro e senhor de si. Nessa condição ele agita o mar, levanta as ondas e nos traz o pó de minério de cada dia.

Isso vai assim até que no meio da noite, sem que se perceba com facilidade, uma outra calmaria se instale para que o Terral, que nasce no seco da terra, faça valer a sua vontade, natural e irresistível, de soprar mar adentro.

Essa peleja se repete até que surja uma ventania traiçoeira, vindo do sul, trazendo frio e chuva de muitos dias. Na televisão, a moça da meteorologia sempre demonstra reservas ao anunciar a chegada do mau tempo que se despregou lá da Antártida.

A friagem vem trazida por um vento que varre os pampas gaúchos com o nome de Minuano e vai ganhando apelidos ao longo da costa, sempre fazendo as pessoas rezarem para que cesse logo. Os pescadores não gostam do vento Sul, porque atrapalha a pescaria e vira as embarcações.

Nas vilas à beira mar, os pescadores controlam as fases da lua, o movimento das marés e o sentido dos ventos. Eles sabem que o resultado da pescaria depende disso e que da pescaria dependem o arroz, o feijão e a farinha. Nesses lugares, a vida, ainda que por linhas tênues, continua dependendo bastante da lua e dos ventos.

Como pescador que fui, sempre tive grande preferência pelo vento Leste, que acalma o mar, clareia as águas e embeleza as tardes. Como morador de Vitória, faz tempo que passei a torcer pela chegada do vento Sul, que além de não sujar as varandas, garante o ar puro que preciso respirar para continuar vivo.

Alvaro Abreu

Publicada na edição de 04.09.2009 de A GAZETA – Vitória ES

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