Sandália de Dedo

Sandália de Dedo

Em Agosto, passei mais de dez dias sem usar sandália havaiana. Não foi nada fácil sair do chuveiro e não encontrar onde pisar com segurança e intimidade.

Venho usando sandália de dedo há mais de 40 anos, diariamente, com total convicção, mesmo no tempo em que matava filhos e filhas de vergonha.

Para ser honesto, acho que sou meio viciado em sandália. Um vício caseiro, inofensivo, é verdade. Basta entrar em casa para querer enfiar uma nos pés e começar a aproveitar a vida.

Bem que busquei alternativas para contornar o problema. A sandália indiana de couro que ganhei de presente há muitos anos é belíssima, mas escorrega no assoalho de madeira. Apelei para os sapatos velhos, mas eles nem de longe garantem a mesma sensação de liberdade. Não, não uso tênis.

Perdi o hábito de andar com o pé no chão porque o pó de minério deixa o dono da sola do pé morto de raiva. Descalço só mesmo na areia da praia.

Ao reclamar da situação numa roda de amigos, vi que não sou caso isolado de apego às sandálias de borracha. Bastou tocar no assunto para a conversa esquentar. Todo mundo queria falar ao mesmo tempo, comprovando que elas fazem parte da existência dos brasileiros.

Movidas a caldo de feijão e cachaça, foram feitas declarações saudosistas, confidentes, solenes, debochadas e polêmicas. Parece que carregamos na alma o trauma de uma ardência na pele da racha entre os dedos, lugar impiedosamente ralado pela alça da primeira sandália, de acabamento precário.

O design das sandálias evoluiu. O elástico no calcanhar, macete que sempre adotei para andar nas pedras, permite que crianças possam usá-las para dar os primeiros passos. As crianças de hoje já nascem geneticamente adaptadas para tanto.

Na ponta da mesa um industrial disse que inverte o lado da sola, porque virada pra cima, dura mais. Também por economia, disse que consertava a alça da frente com um prego, o que piorava bastante o incômodo entre os dedos. Essa técnica, que garantia sobrevida à sandália, foi confirmada por gente de confiança: um paraibano que vive em Frankfurt e um doutor em física, que utilizava clipes para não deixar a alça passar pelo buraco.

Um homem de boa memória lembrou as mil utilidades das sandálias: marcar a trave nas peladas, derrubar manga, frear carrinho de rolimã e servir como instrumento pedagógico. O pescador contou que coloca borracha do calcanhar no êmbolo da bomba de tirar corrupto na areia da praia, em tempo de maré baixa. Corrupto é um bicho com cabeça de tatuí, barriga de lagarta vermelha e rabo de camarão, a melhor isca que conheço.

Teve também quem garantisse que em 1962 já existir fábrica de sandália de dedo em Cachoeiro e quem dissesse ter enfrentado os preconceitos da época em que chinelo de dedo e sapato mocassim eram considerados “coisa de veado”.

A linha de evolução do produto foi mostrada por um professor nascido no interior: percata de couro cru, tamanco de madeira, alpargatas, chinelo de dedo, sandália de dedo, de borracha, de couro, japonesa, havaiana e, finalmente, as ilegítimas, genéricas. Digo que a palavra tamanco trouxe junto o som da madeira batendo no cimento das calçadas, lá em Marataizes.

Andando de tênis, na contramão, uma amiga paulista confessou que não consegue usar sandália de borracha porque trupica. Coitada!

Alvaro Abreu

Vitória, 16.09.2009

Escrita para A GAZETA

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