Papai Noel

Papai Noel

Voltei a acreditar em Papai Noel e estou cheio de esperanças. Na medida em que vamos ficando mais velhos, nossas crenças vão se modificando. Começamos a vida acreditando na mãe, nos irmãos e nas babás, em seguida nas professoras, nos colegas, nos amigos, nos amigos dos amigos e mais adiante, nos chefes, nos candidatos, nos dirigentes, nos que doutrinam e, se bobearmos, até em impostores.

Cada vez mais somos induzidos a aceitar o que nos mostra a propaganda refinada e as jogadas feitas com marketing inteligente. Distraídos, passamos a acreditar no que querem que acreditemos. Que isso não trará problemas, que aquilo é que é bacana, que está na hora de trocar… Sempre tem quem queira nosso apoio para aprovar o que gostaria de ver aprovado, nosso voto para se reeleger, nossa boa vontade para deixar como está.

Percebo que o esforço para tentar convencer o cidadão comum vai ficando cada vez mais sofisticado, avançando para muito além da política e do comércio varejista. O aumento vertiginoso da concorrência por atenção e aprovação estimula e compensa a contratação de profissionais para cuidar da imagem e dos interesses de pessoas, empresas, entidades e governos. Uma prática que cresce mundo afora.

Aprendi na escola que os homens são motivados por seus próprios interesses e movidos por suas necessidades insatisfeitas. Um tal Maslow estudou as necessidades do homem e as classificou em cinco categorias: as de natureza fisiológica e as que se relacionam com segurança, associação, reconhecimento e auto-realização. Ele provou que elas são hierarquizadas e vão ganhando expressão ao longo de nossa existência, sem escapatória.

Há quem ache que, nesta altura da vida, tenho quase tudo que um homem poderia querer e precisar para se sentir feliz e realizado. Plantei árvores frutíferas, escrevi livros, tenho filhos, genros, noras e netos. Vivo há 37 anos com a mulher que adoro em uma casa confortável, perto do mar. Ledo engano, meu amigo. Em 2010, eu pretendo ver realizados desejos que, imagino, sejam também os de muita gente.

Poder sentar na minha cadeira de balanço preferida, que comprei na Paraíba em 1976, sem ter que limpá-la antes de usar. Poder ler um livro sem ter que passar um pano na capa e no dorso, antes de abri-lo. Poder apoiar os braços no tampo da mesa do computador sem sentir a gastura do contato com a sujeira. Poder andar descalço na minha própria casa, sentindo a diferença de tato e de temperatura de cada assoalho. Enfim, poder abrir as janelas dos quartos sem arrependimentos e sem sentir raiva do bom e inocente vento nordeste.

Como até hoje ninguém atendeu a essas minhas necessidades elementares, decidi pedir a Papai Noel que acabasse, de uma vez por todas, com tamanha quantidade de pó de minério, fuligem de carvão e todo tipo de partículas que se soltam do chão, se despregam das pilhas e saem das chaminés plantadas na antiga Ponta do Piraém. E, se não fosse pedir demais, que usasse seus poderes mágicos para matar de vergonha todos os que teimam em mandar dizer que está tudo dentro da mais perfeita normalidade.

Saibam que fiz tal pedido com a mesma esperança que tive quando quis ganhar um velocípede de presente de Natal, em 1951.

Alvaro Abreu

Vitória, 25 de Dezembro de 2009

Caderno Dois de A Gazeta

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