Vila de Itaúnas

VILA DE ITAÚNAS

Imagino que a maioria dos leitores nunca tenha ido a Itaúnas, embora saiba que fica no norte do estado, que tem dunas e que lá se dança forró até o dia clarear. Muitos devem ter ouvido dizer que é uma vila simpática, de ruas sem calçamento e calor infernal. Que é lugar freqüentado por hippies velhos e onde tem dança folclórica, dos pretos.

Conheci Itaúnas em 1988 em dia de festa, muita cachaça e música animada por tambores e pandeiros. Uma celebração entre moradores e aficionados pelas coisas do lugar. A varanda do bar de seu Manoel era pequena pra tanta gente cantando e dançando e o alvoroço se espalhou pelo largo da cabeça da ponte. O mergulho nas águas escuras do rio renovava as energias.

Só gente conhecida. Pessoal interessado em folclore, funcionários públicos da área de cultura, jornalistas convictos, uns poucos fotógrafos profissionais, professores universitários, moças assanhadas de todas as idades, cabeludos em geral e a quase totalidade dos que exerciam a resistência ecológica por conta própria, sem contracheque oficial. Abaixo o eucalipto, salve a tartaruga, demarquem as terras dos nossos índios.

Na volta do mar, comia-se prato feito ou um bom comercial que saciava dois esfomeados, a preços honestos. Peixe frito, bife de boi ou de frango, arroz, feijão, batata frita e rodelas de tomate. A farinha vinha na garrafa e a pimenta em vidro de maionese. De barriga cheia, era hora de descansar para dançar forró de raiz, de graça, que as moças aprendiam rápido com os nativos. A paulistada veio bem depois.

Estive lá neste fim de semana. Pousadas e restaurantes garantem a sobrevivência de freqüentadores de todo gosto. Lojas com cara de boutique mostram que a sofisticação pede passagem. A cerveja está gelada em qualquer bar e não se vê menino pedindo ou oferecendo coisas pelas ruas. O rio estava barrento e as águas do mar, mornas de amolecer. A alma do lugar continua a mesma.

Corriam as festas de São Benedito e São Sebastião. Grupos de ticumbi, reis de boi, alardo, jongo e bandas de congo brincavam pelas ruas no sol quente, debaixo do toldo de plástico diante da igreja e nas casas de quem convidasse. Na praça, dois jaraguás perseguiam crianças eufóricas e aflitas. Eram muitos brincantes da própria vila e de comunidades quilombolas do norte do estado, da Serra e de Barra do Riacho.

Solenes, os homens do ticumbi de Conceição da Barra brincam para si e para o santo, sem olhar para quem os observe e fotografe insistentemente. Vestem roupas brancas impecáveis, batas e saias enfeitadas de renda, chapéus floridos, fitas coloridas nas costas e cruzando o corpo. O violão faz a base da cantoria e o ritmo é marcado por pandeiros. São pandeiros toscos, belíssimos, feitos a mão, com couro de veado branco.

Quem me disse isso foi Rogério Medeiros, espécie de guardião das imagens, do espírito e dos segredos de Itaúnas, que desta vez tentei desvendar sentado em um banco de casco de canoa, observando visitantes que chegavam da praia leves e exaustos e moradores sorridentes que passavam a pé, de bicicleta, a cavalo e de trator. Personagens de uma mesma lenda, eles me fizeram crer que, em Itaúnas, cada um de nós retorna ao primitivo que é. Pelos esforços que faz, pelo sol que enfrenta, pelo que sente de bom estando ali.

Vitória, 19.01.2010.

Alvaro Abreu

Para A GAZETA

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