Como vinho
Convocado pela filha caçula, me sentei para assistir pela TV um compacto do show de Paul McCartney no estádio do Morumbi em São Paulo, no domingo passado. Fã dos Beatles, eu achei que veria um espetáculo incompleto, pelas metades, já que no palco estariam faltando John Lennon, Ringo Starr e George Harrison.
Nunca tive preferência por nenhum deles em particular. Sempre achei o Paul meio almofadinha e esnobe. Tido como cabeça pensante, John, me parecia um pouco presunçoso. Talvez por modéstia, Ringo ficava sempre na retaguarda. As poucas palavras de George me diziam mais do que os trejeitos dos demais.
Durante anos esperou-se a chegada dos discos novos dos Beatles trazendo as músicas e as modas. Se no começo eles subiam no palco de terninho e gravata, aos poucos foram se transformando em expressão de liberdade, em protagonistas do movimento de contracultura, ainda que bem comportados. Os cabelos cresceram e as roupas ficaram coloridas. As atitudes assustavam e inspiravam, marcando o ritmo da vida e a troca da era.
Surgiram seguidores em todos os cantos do planeta. Aqui não foi diferente. Alguns devem se lembrar da temporada dos Brazilian Beatles em Guarapari, no final dos anos sessenta. Cabeludos e debochados, eles faziam as mães recolherem as filhas moças pra dentro de casa, em pânico. Coloridos e delirantes, aqueles rapazes tinham a imagem que seria adotada pela juventude que buscava espaço e experiências.
Os Beatles foram à Índia pelas mãos de George e de lá trouxeram o que muita gente sequer tinha ouvido falar: meditação transcendental, cítara, macrobiótica, ioga, incenso e tantas outras coisas que ajudariam a aumentar o tamanho do mundo e a alargar o horizonte das pessoas. As cores vivas da estética psicodélica ganharam lugar no gosto de uma geração. Britânicos famosos, os quatro receberam medalha da Rainha por merecimento, depois de terem colocado a Inglaterra de volta no mapa mundial. E que se danassem os conservadores.
Amadureci, namorei e escolhi rumos de vida ouvindo o som mágico da banda de Liverpool, que preferia em relação ao som radical dos Rolling Stones. Eu também fiquei triste quando o grupo se desfez e passei um bom tempo aguardando a notícia do reencontro, que não chegou. A morte violenta de John Lennon, anunciada na TV, me pegou saindo do banho em um hotel de Recife e me fez pensar na brutalidade dos homens. A de George não doeu tanto porque era esperada, em função da doença que sofria.
Soube que Ringo se mantém um baterista ativo ao completar 70 anos dia desses. Com alguma freqüência leio sobre o que Paul anda fazendo. Acompanhei a perda da Linda, o novo casamento e o desquite litigioso e, agora, as notícias da tournée pelo Brasil.
Nem levantei para beber água. Acompanhei, emocionado, os movimentos daquele senhor energizado, simpaticíssimo, afável e afinado. Paul cantou macio e deu gritos agudos tocando baixo elétrico, violão, banjo, piano e guitarra. Tudo com a mão trocada, canhoto que é. Ele parecia um homem inteiramente feliz e cheio de si com o entusiasmo de milhares de pessoas, muitas das quais nem haviam nascido quando os Beatles tocaram juntos pela última vez, há mais de 40 anos.
Soube depois que ele levou um tombo ao final do espetáculo. Mas isso eu não vi.
Vitória, 24 de Novembro de 2010
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
