Arroz de Festa
Fui passear na feira de Jardim da Penha na friagem da manhã de sábado. Há tempo que não a via tão cheia e animada. Quase uma festa, sobretudo para candidatos que faziam o corpo a corpo em busca de votos e apoio. Deve ser bom fazer campanha em feiras livres. O ambiente de camaradagem favorece o contato pessoal, o que não acontece em supermercados e nas ruas vazias dos bairros de classe média.
O movimento era grande no trecho das barracas de caldo de cana, ponto de parada obrigatória para comer pastel e, por alguns instantes, voltar no tempo. Como sempre, de pé, com a boca cheia e as mãos ocupadas, as pessoas pareciam estar de alma leve, respirando largo, inteiramente disponíveis para conversas amenas e abordagens de candidatos desconhecidos. Os mais gulosos, e não eram poucos, comiam o farto sanduíche de pernil acebolado.
Gosto de andar na feira sem rumo certo em busca de coisas para levar pra casa. As conversas com feirantes conhecidos são sempre amistosas e decisivas na hora da compra, inclusive pelos descontos que concedem. Acho que a expressão fim de feira começa a perder o seu sentido de preço de ocasião.
Sou freguês eventual da barraca de um homem falante que vende carne de porco e seus derivados, com quem sempre troco umas palavras. Dessa vez, ao velho estilo de João Moraes, pedi que embrulhasse um pedaço de chouriço, um pouco de lingüiça apimentada, uma manta pra fazer torresmo e um belíssimo joelho de porco defumado pra comer assado. Isso, na mais perfeita consciência de que tudo aquilo era relativamente rico em colesterol, mas de altíssima qualidade, é bom que se diga.
Mais adiante, quando escolhia aipim manteiga que estivesse soltando a casca com facilidade, um teste infalível para saber se vai amolecer ao cozinhar, me apareceu um casal de amigos, que não via há tempos. Feira também é lugar para encontrar pessoas que já não mais estão à vista nas cidades que crescem rápido. Pelo jeito, os pequenos prazeres domésticos haviam entrado na vida daqueles dois. Estavam realizados. As sacolas ecológicas trazidas de casa estavam abarrotadas. Antes, eles só iam à feira em missão de panfletagem de candidatos de oposição. Isso, até conseguirem ganhar as primeiras eleições.
Rindo, lembramos do jantar de inauguração do apartamento que eles haviam comprado pra casar. Sem qualquer intimidade com os assuntos do lar, resolveram convidar amigos para comemorar a novidade na base do “ajunta pratos” e muito vinho tinto chileno de boa relação custo-benefício.
Casa cheia e animada. Na varandinha, a conversa dos maridos girava em torno das eleições que se aproximavam. Na sala, amigas desde o tempo da universidade e do movimento estudantil, as mulheres discutiam assuntos da administração da cidade. É que elas tinham passado da militância política para a prática contundente.
Mas a graça dessa história aconteceu na cozinha, onde encontrei a dona da casa e duas amigas inteiramente mobilizadas com os preparativos para servir o jantar. Para ajudar, tratei de ligar o forno novinho para esquentar as travessas de torta de bacalhau e acender a boca de fogo da panela de bobó de camarão, enquanto elas debatiam alternativas para equacionar um outro problema relevante. Nenhuma daquelas influentes executivas sabia como esquentar o arroz.
Vitória, 18 de agosto de 2010.
Alvaro Abreu
Escrita para A GAZETA
